Foto de Bartolomeu Rodrigues





Talvez um desígnio 

Um gato
tem a nobre missão 
de ocupar o mesmo espaço 
que nós 
na solidão. 







 

Um poeta
 
Tomo do poeta
o alcance das suas palavras
de uma boca que era uma fisga
certeiras as palavras-pedra
tanto mais belas
quanto mais ousadas

Tomo do poeta
algumas palavras 
silêncio 
ternura 
nobreza
limite
emoção 
e a real e crua leitura 
das palavras ___ das incómodas 
ruína 
obsceno
maníaco 
verme
sémen 
junto-as todas e guardo-as
para evitar a morte da poesia
e do poeta.


 






Inevitável 


Havemos de esquecer 

não juntos 

cada um esquecerá a sua parte 

como sempre fizemos 

cada um a viver a sua parte 

de tal modo que agora 

acreditamos que será possível 


Havemos de esquecer 

ainda que nos custe a despedida 

como se ainda fossemos os mesmos 

como se já não tivéssemos

esquecido tanta coisa ___

___ esquecemos até que amar 

era a resistência ao esquecimento. 


Havemos de esquecer 

___ lágrimas só quando estivermos 

longe um do outro.




 


 Foto de Daniel Filipe Rodrigues


 
 
 
A importância das flores

Descubro 

que sobre o teu rosto

há uma máscara 


que sobre as tuas palavras

há um disfarce


que sobre o teu choro

há um fingimento


aparência 

ilusão 

simulação 

incansáveis tarefas


Que importa que haja flores

na jarra da sala?



 


 Foto do autor do texto




Pensar


O grande mal de pensar

é darmo-nos conta de que pensamos

é dissolver em cada pensamento 

o que se sabe 

e o que não se sabe

é fundir em cada pensamento 

o que é verdade 

com o que é mentira. 

Somos os obreiros da nossa construção 

ora firme ora magoada

ora certeira ora duvidável. 

É por isso que oculto de ti

os meus estranhos pensamentos.




 


 Foto de Daniel Filipe Rodrigues



 
 
Dois mil quilómetros nos separam

Aprecio estes dias de chuva pequena ___
___ tímida 
Como eu gostaria de estar agora
na tua casa a dois mil quilómetros 
de distância da minha casa
a ver os telhados molhados
porque da tua casa se vê tudo
acho até uma ousadia viveres num lugar
que disputa com os deuses 
a visão sobre os outros
Um olhar idêntico, certeiro e alto
que tiveste sobre mim ___
___ eu que vivo num rés-do-chão comum
muito abaixo de todos os telhados
Um caso de amor fulminante
inesperado numa viagem de férias 
com a inevitável distância ___
___ os tais dois mil quilómetros 
de silêncio ___ 

___ até à tua visita ao meu rés-do-chão 
até à tua pele luminosa que deixou
um pouco de luz sobre a minha cama
até ao último olhar 
até à tua partida com chuva pequena
___ tímida 
o chão molhado
o reflexo das luzes das casas
um halo de luz vermelha do táxi 
a desaparecer na curva ao fim da rua
___ uma momentânea mão de vento
a afastar as folhas de árvore 
que havia à minha porta. 

 
Dois mil quilómetros sem fim.



 


 Foto de Ana Luís Rodrigues




A vida mata


Mata-me outra vez

devagar ___ ternamente

como se fosse a primeira vez

como se já não me houvesses

matado antes ___ tantas vezes. 

Mata-me vida

que o grande erro

foi ter nascido tantas vezes.










 

O teu nome, sem dúvida 


Se me dizes que esse é o teu nome

___ porque duvidarei? 

Se me mostras que a raiva é o sentimento

___ porque contestarei? 

Se falas com as palavras que bani da minha boca

___ porque questionarei?

Assim

se me dizes que esse é o teu nome

não duvidarei.




 





Lautrec


Viva Lautrec!

Enquanto uns dedos boémios 

obrigam as teclas dum piano

há alas de mulheres belas

que dão pontapés na tristeza

mostrando o seu encanto

até às rosadas coxas

Lautrec sente ___ e brilha

nos retratos da gritaria compassada

das noites de fumo e absinto

Vivam os homens pequenos

com estatura de gigantes

vivam os cabarés de Paris!






 Foto de Bartolomeu Rodrigues



 
 
Uivar à Lua

Quantos de nós gostariam 
de poder uivar
nas noites de lua-cheia
Ali está ela
frente à minha janela
Ouço-te a espirrar lá dentro 
engulo o meu uivo 
e engulo a lua.