Foto do autor do texto



Poema do revoltado


Moro na rua das avantesmas 

velhos e novos

mas mais velhos do que novos 

velhos azedos que dizem 

gostar de animais mas matam 

os gatos que lhes pisam as alfaces 

velhas de avental com uma ponta 

metida na cintura e a língua 

metida na vida dos vizinhos 

velhos barbados às janelas a passear 

os olhos pelos títulos do jornal 

e pela frescura da vizinha 

ocupada no estendal 

os novos passam a falar alto

uns com os outros 

seja dia ou seja noite 

um velhaco deixa cair da boca 

os piolhos que tem no cérebro 

com que pretende infestar a vizinhança 


esperamos pelo prometido terramoto 

avantesmas ___

___ vão para o raio que vos parta!



 

Foto do autor do texto



Os objectos nos contemplam


Não tenho hoje dúvidas 

que é durante o nosso sono

que os objectos que nos cercam

se movimentam

para nos contemplarem

na nossa morte aparente

e tudo acontece nos dias

em que limpámos o pó 

que se encontrava visível 

assim 

os objectos que se movimentam

não deixam vestígios 


é sobre a capacidade

de ainda sermos inocentes

que os objectos que se movimentam 

exercem o seu mistério 

admiro o seu rigor de ocuparem 

depois o seu lugar exacto

no respeito das minhas decisões 

e do meu poder sobre a sua existência


eu finjo que não percebo

e escrevo um poema às escondidas.



 

Foto do autor do texto


O poeta não é a poesia


Estava um poeta 

construindo um poema

na sua mente poética 


     Aqueço entre as mãos 

     o pão do meu dia


o telefone toca

o poeta pára e ouve

uma voz de mulher que diz

    

-Afinal… julguei que éramos amigos


o poeta pergunta

-Já não somos? 

     

-Talvez não 


-Porquê? 

     

-Desiludiste-me


-Porquê? 

     

-Porque afinal a tua poesia

são apenas palavras


diz o poeta

-Ora essa! 

     

-E eu que acreditei

que a tua poesia era também 

a ausência das palavras


o poeta pousa o telefone

e toma de novo o poema

na sua mente poética


     Entre as mãos tenho

     o pão do meu dia ___ frio.





Foto do autor do texto



Um momento para sempre


Tomei-te nas minhas mãos com ousadia

como se desafiasse o medo

beijei-te longamente com insolência 

como se fosse jovem

amaste-me com generosidade

como se acreditasses na felicidade.





Foto do autor do texto



Nem tudo é infelicidade


Uma ave suicidou-se 

contra o vidro da minha janela


os meninos da UNICEF mendigam

solidariedade com um sorriso forçado 


fala-se na lei marcial

na casa ao lado


está muito frio

anuncia-se um nevão 


estão a colher todas as flores

do parque da cidade


o meu melhor amigo

tem uma filha desaparecida


recebi um ofício e tenho de decidir

o que fazer às ossadas do meu pai


comi o papel com o meu último poema

e agora


tenho bilhetes para Le Tombeau de Couperin

estou a caminho.






Foto do autor do texto



Diz comigo


Diz comigo esta frase simples


  nos nossos braços as manchas

     da noite da idade


agora olha-me nos olhos

e oferece-me essa lágrima.






Foto de Ana Luís Rodrigues 


Nostalgia


Perguntas-me o que é a nostalgia 

respondo-te com a memória em chamas


     é uma canção agarrada aos nossos ouvidos

     colhida num café de Paris

     é lembrar-me do aroma do teu peito 

     em tons de terracota

     é o sono a escravizar-me as pálpebras

     e eu a querer ficar

     é ter tido um lugar ondulante no teu corpo

     onde podia sentar o meu desejo  

é ficarmos mudos e estranhos 

depois de nos termos durante tantos anos


perguntas-me o que é a nostalgia

respondo-te 

a nostalgia és tu ___ na tua ausência.





Foto do autor do texto



A fingir


Preciso de fingir

que em tudo há luz

que sou hábil na condução dos dias

que não há prazer que supere

o folhear de um livro

não o tempo inútil de uma história 

mas do saber


depois quando escurece


preciso de fingir

que ouço vozes 

e sons de pratos e talheres

que sou hábil na condução das noites

que não há prazer que supere

o carinho que tenho por mim próprio 

e que o meu corpo conhece

não mais uma história 

mas o resultado do fim das histórias 


de novo o dia

preciso de fingir

que em tudo há luz.