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O desgosto vem
como um comboio em velocidade
contra o meu coração.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
A poesia salva quem quiser salvar-seainda que nos tenhamos condenado a nós própriossem consciência dissoe de que queremos nós salvar-nosde termos comido o fruto proibidoquando ainda não tínhamos dentes no cérebroou quando já não os tínhamos?de ser difícil aplacar a nossa carneque deixámos a grelhar nos tições do desejo?de eliminar com a pintura a negroaqueles a quem recusamos?de matar e de morrer pela desordemque as bocas já não resolvem?ou de termos sido metidos nistosem sermos ouvidos?estou a tentar salvar-me.
Hoje não morreu Jorge Palma.
Sou persistente e repito-meadiciono mais uma palavramais um breve pensamento ___ longoficando o espaço em equilíbrio difícilo que ficou é tudo em segunda mãoos discos de Paul Anka em silêncioos meus lenços de adorno ainda com coras fotos das minhas antigas amantes sem rostoas primeiras mãos foram as antigas mãosque eram o meu destinonesse tempo tudo me parecia definitivoe tudo assim me parecia porque eu sou temporárioperguntei a Ciclope se é feliz só com um olhoele disse que nunca tinha sentidofalta de um outro olhoagora sinto o teu corpo e isso me basta.
Estou no limbonesse lugar a que quase todos pertencemosé o abismo com os seus círculos
estou no limbotal a diversidade das minhas transgressõesrejeito o dogmarejeito o divinorejeito a fémas não rejeito a transcendência da poesianuma gota de sangue de uma avetomo o gosto do seu canto.
A vidafoi-me entregue assimnas mãoscom cânticoso modo de a usarfoi como um docelambuzei-me com elaaté ao exageroaté à doençaaté ao sustoa vidasem instruções de usosem prazo de validadesem possibilidade de recusacom a infantilidade de a viverem modo de infinitudenegando Deus e os seus milagresfoi-me oferecido um fimpara o qual não me avisaramà nascença involuntáriaa vidaé uma trágica ditaduraentregue à tarefa do tempocom quem convivoencaro-o pacificamentesento-me à mesa com elee peçodois chás e duas madalenasisto é a vidae o modo de a usar.
Já tudo me cansaa paisagem urbana colada à janela da frenteos telhados como muros na janela de trásjá tudo me cansamenos o abrir do dia lá foraos saltos dos melros lá foraa certeza de ter almaescutar a música nas palavras dos livrosembora no silêncio que está por todo o ladode restoesqueço-me de tudomenos quejá tudo me cansa.
Concluo sem possibilidade de alteraçãoque há em quase tudo uma oculta inutilidademas sempre receptivo a que cada diapossa ser um lugar verdadeiroconcluo sem possibilidade de alteraçãoque cada dia é um adiamento da provada necessidade do primeiro diade onde trazemos uma ruga de criançaque afago nos convencede que estamos vivos e queremos?ao menos que a lucideznos dê a ousadia de pensar.
Não há poema que expliquepor que faltam tantos nomese que por essa falta se inquieteo próximo a ser nomeadonão há poema que expliquepor que tantas viúvas se esqueceramda sua condiçãoe se lhes acorda a pele sem avisonão há poema que expliquepor que se Eros não existe se sentea sua presença nas noites outonaise há lugares frios no sítio onde se dormenão há poema que expliqueo exílio ___ a humilhação ___ o fima minha serenidade.
Há razão para o medonas marcas persistentes no céua grande velocidadeno rumor e no fogoque desce das montanhasnos que já tão tardeainda não regressaramnos que partiram clandestinossem que lhes soubéssemos o nomenos aglomerados de gentee nos seus murmúrios nas igrejasno temor de que nos levema nossa mulher e os nossos filhosnos barcos parados encostadosuns aos outros rangendona quantidade limitada de pãoque cabe a cada umna agitação dos animaise nos seus uivosem algum lugar inventaram a violênciahá razão para o medo.
Já não creio em nadaa dor do corpo e do espíritosempre reaparece nas madrugadascomo chumboou como um animal pesadoaninhado no abdómencomo se a vida fosse um corpo humanonascendo na bocae morrendo nas plantas dos pése a dor do corpo e do espíritoserá o sinal divinode que as blasfémias são castigadassem pau nem pedraesta dor mata-mehei-de ressuscitar mesmo descrentenem que seja noutra boca.
A suposição ___ o enganode que o amor é um direito de todosassim como aquela frase justa que repetimoso sol é para todose o Sol sem que ele próprio ou quem o criousaiba que só aquece os que já não têm frio
o amorum desperdício de pulsaçõesdo coração a forçar as artériasàs vezes durante anose nós em silênciopara não perder os sons do outroque é ele verdadeiramente que pulsa em nóse que às vezes não pulsa nele própriomesmo que o seu coração funcione massem mensagenssem espantosem encantamentosem luze o amor ou a ausência dele a matar-noslentamenteternamentee nós a repetirmosa suposição ___ o engano
assusta-me não acreditar no amore ficar assimde mãos dadas comigo mesmo.