Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Os homens sentados na sua vida


Um homem está sentado

à porta verde da sua casa branca

pesa-lhe no corpo toda a sua idade

a inacreditável idade

que ele não reconhece como sua

quando se olha no espelho


o homem sentado

à porta verde da sua casa branca

sente-se trespassado pelo medo

das noites longas

para dias inúteis 

o homem cumprimenta os passantes

simulando que tira o boné 

mas toca apenas 

na ponta sobre a testa e diz

qualquer coisa imperceptível 


o homem sentado

à porta verde da sua casa branca

tem pensamentos iguais

aos outros cinco homens sentados

à porta verde da sua casa branca

ao crepúsculo abrem-lhes a porta

e apontam-lhes o seu lugar de sempre 


os homens sentados

à porta verde da sua casa branca

arrastam-se para o altar 

do pão e do vinho ___ sem vinho

todos aceitam o conforto 

do aroma a sopa e urina 

e repetem

     amanhã é outro dia 

embora já não seja verdade


os homens sentados

à porta verde da sua casa branca

são eternos.



 

Foto do autor do texto tomada numa rara noite de luar


Fico aqui


Pelo que me disseram

eu era esperado

dizes o meu nome pelo meio

dos nomes de objectos

de nomes de lugares 

não mereço mais do que um nome

com quatro letras

deixas para mim as coisas mínimas 

alguém diz


tu não és meu filho

não mereces a água que bebes


mas a água continua a correr

e nada te impede de teres 

outro filho com outro nome

respondi


a tua missão foi ficares 

nos lugares cavernosos

da minha memória 

e sem ergueres a voz

manter baixa a pulsação 

do meu coração 

à sede das gotas controladas

com a consciência das dores

e condenado ao anonimato


sem alternativa

sem possibilidade de fuga

aceito as condições 

com o medo

fico-me pelo outono

a primavera já tem flores a mais

para mim  

fico feliz com uma noite de luar.

 



 


Foto do autor do texto



Um de nós continuará 


No nosso passeio contrariado

fomos deixando pela rua 

as nossas palavras mais incómodas 

aquelas de que não gostávamos

e que o outro se recusava a receber

excedentes dos nossos diálogos 


deste passeio um de nós 

já não regressa e ambos sabemos qual 

abandonadas as palavras sem sentido

ficaram as essenciais 

as necessárias à despedida

só um continuará o seu passeio solitário 


eu tenho de voltar

deixei os óculos sobre a mesa

e a televisão ligada

além disso

temo que as flores do meu jardim 

não se renovem.



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Carta


Sabes que vou acabar por morrer em Florença 

já parti com o coração endividado ao tempo disponível

mas o fascínio por Florença era quase uma ilusão 

por nunca ter confirmado que era real

como sempre a ousadia de discutir a morte com a vida 

convenceu-me que mais uma vez tinha ganho

a disputa para partir em vida esquecendo a morte


em Florença encontrei palavras novas em cada esquina

guardei-as como flores e tomei-as como minhas

um abuso ___ talvez ___ mas tudo me será desculpado

porque um coração seduzido é como um cântico 

numa catedral __ ecoa em todos os lugares sensíveis

e as flores serão o último acorde de beleza

perdoa-me por ter partido sem ti.


 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



 Na despedida 

É constante a tua despedida

uma repetida despedida

na forma como pões os braços 

na cor que os teus lábios tomam

no corpo sem presença 

nos silêncios que falam 

 

agora que ia começar um poema

fico na dúvida se os sinais

são a verdade do desencanto

contigo ___ com as pessoas 

não com as suas diferenças 

mas com as suas parecenças

 

a despedida pode ficar

para depois do poema?



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Digo adeus à minha cidade


A minha cidade é já outra cidade

há rostos inexpressivos que deslizam

talvez em fuga porque fustigados

na minha cidade tudo é assimétrico 

e pouco demorado

a minha rua da minha cidade

é já outra rua de outra cidade

e já não é minha

outrora a arte salvava a minha cidade

agora é só cor e tudo é confuso

sem forma e sem nome


nas ruas da minha cidade

no fim de tarde de novembro 

é quase noite

digam-me depressa

brutalmente e sem rodeios

o que se passa

assim talvez tenha tempo 

de me levantar e partir

amo demasiado a minha cidade

para continuar a viver com ela.