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Desvisto-te como a uma tangerina
daquelas em que a casca
se solta do corpo com leveza
depois tomo-te
gomo a gomo
boca a boca
e provo o sabor ácido do teu segredo.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas
A professora a meio da tardeapontando no quadroas palavras difíceise difícil para mimera o meu pai no hospitalo silêncio em casaa televisão e a telefonia proibidaspela minha mãea autoridadea doro medoo respeito pela ausênciaeu sem saberse o meu pai voltavae quais as palavras mais difíceisquando eu rezava caladopelo meu paique não eram as mesmasque a professora escreviano quadro a meio da tardequase horas de regressar a casaa meio da tardetambém era meio da tardeno hospitale o meu pai sem regressarafinal o meu pai estava a morreroutra vez ___ nunca me habitueinada é mais assustadordo que a morte do pai.
Há quem nunca tenha choradoparece impossível mas hádisse-me o Sebastiãoque estava na carteira ao meu ladoe nunca se calavaa dizer baixinho coisas novas para mimfoi por ele dizer coisas assimque aprendi a dizer coisas assimdiferentes das dele e a escrevê-laso Sebastião já não falapassaram mais de cinquenta anosvi-o agora e achei que falava baixinhocomo dantesmas afinal só mexia a bocana mesma cara ainda como a outraque ele teve quando era Sebastiãodeixou de falar desde que ficámossem o nosso filhodisse a mulher deste Sebastiãoficou assimhá pessoas que nunca choramparece impossível mas há.
Que nome tem o amor?perguntou Cloémas nem Dáfnis que era amadosabia o nome do amorse búfalosse gaivotasse elefantesse escorpiõesse cavalos marinhosse perseguem e se contemplamcomo se chamará este sinal?até hoje ninguém sabese há nome para o amor
quando Dáfnis e Cloé se amamcaem estrelas sobre o mundo.
Um homem imagina um assassíniopensa no momento da sua acção vezes sobre vezesrecomeça em pormenorpensa que já afiou o fio da arma dez vezesestá sentado a uma mesa em camisola de alçasfolheia o jornal sem se deter em nadafuma um cigarro feito à mão por elelevanta-se apressado como se tivesse tomado uma decisãoveste-se de camisa branca calça os sapatos em pé calcando-ostem um boné branco que usa sempresenta-se de novo à mesa com a cabeça entre as mãosno silêncio o ruído do caruncho a comer a mesalentamentelentamentelentamenteo telefone toca o homem pega nele com maus modosnão fala ___ ouvepai já és avôo homem dizsim vou já para aídeixa-se ficar sentado e acende outro cigarrofaz-se noite e escurece até ao negroem fundo ouve-se Joyce DiDonato.
Prendo-me sem querer às marcasque trago da juventude ___ é instintivoeste querer partirsem para lugar certoeste querer amarsem saber a quema falta de protecçãoaquialiem qualquer lugarsempre temi o mare é para lá que me levampara saltar não tenho firmezapara os pés em lado nenhumdeixo-me afogare salvo-me depoispara me afogar de novosempre o tempo me pareceusem fime com inúmeras possibilidadesde recomeço ___ de perigohá uma constante ameaçafoi por isto tudo que partie ainda estou de partida.
Há muito tempo que não olhava para as minhas mãosagora quando escrevo fico a olharpara o brilho da pele e para os rios escurosque vão e vêm para lugares dentro de mima minha vida de um lado para o outro a trazer e a levaro que respiroo que pensoo que digoo que caloe escrevosou uma ilha como um mundocom lugares rochososcom mares turbulentoscom vastos desertose escrevona floresta que sou ___ um melro preto pousana minha realidade mentalacolho-oou é ele que me acolhe a mime escrevonão sei o que fazer ao mundo ___ o fim do poemaé um café duplo e dois pastéis de nata com canelae escrevo.