Foto do autor do texto



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Por que é tudo tão rápido entre nós 

por que nem tenho tempo de percorrer o teu corpo todo 

por que nem tenho vagar para tomar o peso do teu seio 

por que é tão efêmero o desassossego que me provoca o teu desejo 

por que és tão vertiginosa entre o princípio e o fim 

por que é tão apressado o teu olhar entre um pestanejar

por que não tenho memória para te guardar com os olhos 

por que é tão rápida a corrente do rio que passa pela nossa casa? 

Por que é tudo tão rápido entre nós 

e tudo acontece no lado ínfimo da noite 

vivendo palmo a palmo sem fazer perguntas? 

Talvez porque o amor é um tema já antigo 

e desistimos de o compreender.







 Foto de Daniel Filipe Rodrigues




Uma noite simples 

ou talvez não 


São dez horas da noite 

estou no meu quarto 

num cadeirão que tenho a um canto 

com um pequeno candeeiro 

orientado para ler 

Os sons da noite acentuam o silêncio 

     um berbequim num andar de cima

     um autoclismo a descarregar

     uma motorizada a passar numa rua próxima 

     um cão a ladrar ao longe 

     um móvel a estalar ao meu lado

Adormeço com o livro sobre os joelhos 

e sonho ___ aflito 

que estou sozinho.




 


 Foto do autor do texto





Qual o teu nome? 


Ficou sobre a mesa 

um amontoado de palavras 

ficou sobre a cama 

um amontoado de gestos 


Partiste sem deixar o nome 

mas quando quiseres 

encontrar-me-ei contigo 

numa fronteira 

de qualquer país à tua escolha 

onde confirmarei a tua existência 


Depois repetirei o teu nome 

até o decorar para sempre.




 


 Foto de Bartolomeu Rodrigues 





Eu sonho


Sonho tanto e os meus sonhos 

são tão aflitos 

que nunca compreendi a expressão 

     Tu és um sonhador!






 Foto de Ana Luís Rodrigues




A tua colheita


Quantos hectares de trigo 

nascem na tua imaginação? 

tu que sempre foste parco nas regas 

preguiçoso na ceifa

e nunca deitaste a semente 

à terra do teu espírito 

Não arrastes os teus pés no solo por arar

porque sufocarás com o pó que levantas.




 





O desencanto


Já não preciso de ti 

habituei-me ao silêncio

o nocturno e o diurno 

tenho a companhia do cão 

do quintal do lado 

que ladra o dia inteiro 

e só se cala quando me vê ___ 

___ todos deixaram de me conhecer 

menos ele 

Disseram-me há uns tempos 

que é triste ser reconhecido 

apenas por um cão 

     Não me importo! 

respondi

descri tanto dos cães humanos.




 


 Vídeo do autor do texto




As lágrimas existem


O que sabes tu sobre lágrimas? 

tu a quem nunca vi chorar 

Para aprenderes que as lágrimas 

não são uma invenção 

de gente triste começa 

por enxugar as minhas 

que as choro pela tua falta delas 

Tu não sabes nada sobre lágrimas 

mas chorar pode curar 

as rugas da tua alma 

e tornar-te mais humana repara 

como as deixo cair nas tuas mãos 

e como elas se iluminam ao teu olhar

Que sabes tu das lágrimas dos outros 

se nada sabes sobre as tuas? 

em tudo se pode procurar a beleza

e há nas lágrimas uma passagem por belos 

e transparentes lugares em nós 


Chora também

vá ___ vem comigo.






 Foto do autor do texto




Em cada Novembro 


Quando cai a noite 

em cada Novembro inesperado 

do meu calendário 

consigo ouvir no cais perto da minha casa 

a boca de um barco num lamento grave 

ou num apelo a quem ordena 

os dias e as noites 

ou talvez ao comandante daquela fracção

de vida flutuante pedindo para 

parar o tempo já que a noite 

é a pior ocasião para despedidas 

ou separações 

como se cada aceno fosse 

o correr de cortinas vermelhas ___

___ escuras sobre o desejo de regressar 

ou sobre a fidelidade dos que ficam 

De nada vale aos que dizem 

     é Novembro 

como se fosse um impedimento para a partida 

como se Novembro fosse um pé metido 

na porta de um amor que se encerra 

como se Novembro fosse 

uma luz que se desfaz vencida

pela noite de onde não se volta nunca mais 


Quando cai o escuro 

em cada Novembro inesperado 

do meu calendário 

faço a mala e parto para te procurar 

até ao fim do mundo.