Imagem de ChatGPT 



Este vício de poeta
o sentimento trágico da vida*
a tristeza como musgo agarrado às paredes
o alento ___ a alegria da tua chegada parecia 
que na verdade estiveras sempre aqui ___ invisível
e era assim
a luz da casa a cair da janela sobre
os malmequeres que estavam sempre apagados
o cão já recolhido a respirar o sono
levantava a cabeça e parecia sorrir
não havia luz que chegasse para a noite toda
se tornar dia na luz da pele ___ da tua pele
e a palma da mão ___ da minha mão 
a aproveitar o silêncio 
abrindo o caminho permitido para
desertos lisos
serras gémeas 
declives suaves
arbustos limitados
leitos sem rios
que o teu corpo chegado aqui
ao meu vício de poeta
à tragicidade da minha vida
me fazia respirar o sono como o do cão 
com um sorriso de fidelidade canina
o meu instinto quase adormecido suspirava 
com um som como o do musgo
a crescer nos muros da minha alma
que eu não suspeitava ainda viva
depois ___ muitos anos depois morreste
nunca mais te vi
ou fui eu que morri
nunca mais me viste
e fiquei até tão velho como tu
a consumir sozinho este vício de poeta
com este sentimento trágico da vida 
que já não me lembro com quem aprendi. 

                                                                                
*Miguel de Unamuno

 

Foto de Thomas Rodrigues Kassaye


A porta a bater como um coração 
teimoso com vida própria 
o cortinado inquieto com o vento
que entra por uma nesga sem janela
o amargo na boca
como a língua em salmoura
as túlipas muito direitas
a justificarem a água e o preço 
a visão de mim próprio 
de faca na mão que mata
tal-e-qual os sonhos que tenho

observo

é o meu esforço 
para compreender o mundo
com o mesmo empenho 
com que aprendi a ler. 


 


Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM 




Escuto a roda dentada do tempo
encontro-me dente a dente dentro da noite
um pêndulo no seu vai-e-vem expulsa-me do dia
e ali fico a ouvir os nomes dos que perdi
até ser de novo dia
                        de novo noite
até a luz caber toda no poema
dedicado aos que percorrem a Via-Sacra.



 

Imagem de ChatGPT 



Vou-me embora de nós 
disse eu

fico contigo sem ti
disseste tu. 




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Armando Alves

1935 - 2026



Imagem de ChatGPT 


Encontrei-me sem consciência 
a conversar com Deus
sem preocupações com a verdade ou com o medo  
 
Ele falou como um mistério no meu silêncio 
a mais das vezes não compreendo
as tuas falas
os teus gestos
as tuas dores
quando lavras a terra com a tua língua 
quando numa fonte perdes a sede por entre os dedos
quando dentro de uma laranja encontras uma luz natural
quando um grilo canta contigo na tua própria gaiola
quando começas um poema e é ele que te anuncia

perante o meu silêncio Deus disse-me
saúdo-te por me teres inventado
e isso só foi possível por me trazeres dentro de ti. 

 


 

Imagem de ChatGPT 


Nasci aos oitenta anos
lembro-me de quase tudo
a sensação de sufoco
ao sair dos setenta e nove
a abandonar a penumbra
do espaço temporal onde vivi
bateram-me para chorar
julgavam que eu tinha nascido morto
todos se admiraram
de eu não trazer cordão umbilical

ao ver tanta gente observando-me
constatei que estava nu
roubaram-me tudo ___ pensei
alguém disse ___ como terá sido possível 
ele viver sem ligação à fonte da vida
sei que é perigoso nascer
fora do prazo normal de gestação 

taparam-me completamente 
com um grande pano branco
e foram-se embora
ainda ouvi dizer ___ vai ter vida curta
coitado. 



 

Imagem de ChatGPT



Desvisto-te como a uma tangerina
daquelas em que a casca
se solta do corpo com leveza
depois tomo-te
gomo a gomo
boca a boca
e provo o sabor ácido do teu segredo. 




Foto de Daniel Filipe Rodrigues 



A professora a meio da tarde
apontando no quadro 
as palavras difíceis 
e difícil para mim
era o meu pai no hospital

o silêncio em casa
a televisão e a telefonia proibidas
pela minha mãe 
a autoridade
a dor
o medo
o respeito pela ausência 

eu sem saber 
se o meu pai voltava
e quais as palavras mais difíceis 
quando eu rezava calado
pelo meu pai
que não eram as mesmas
que a professora escrevia
no quadro a meio da tarde

quase horas de regressar a casa
a meio da tarde
também era meio da tarde
no hospital
e o meu pai sem regressar

afinal o meu pai estava a morrer
outra vez ___ nunca me habituei
nada é mais assustador
do que a morte do pai. 



 

Vídeo e montagem de som do autor do texto 



Há quem nunca tenha chorado
parece impossível mas há 

disse-me o Sebastião 
que estava na carteira ao meu lado
e nunca se calava 
a dizer baixinho coisas novas para mim

foi por ele dizer coisas assim
que aprendi a dizer coisas assim
diferentes das dele e a escrevê-las

o Sebastião já não fala
passaram mais de cinquenta anos
vi-o agora e achei que falava baixinho 
como dantes 
mas afinal só mexia a boca 
na mesma cara ainda como a outra
que ele teve quando era Sebastião 

deixou de falar desde que ficámos 
sem o nosso filho
disse a mulher deste Sebastião 
ficou assim
há pessoas que nunca choram 
parece impossível mas há. 



 

Imagem de ChatGPT 




Nunca soube ao certo
por que fiquei sem
os meus pais
as minhas irmãs 
os meus amigos 

as minhas angústias 
são cactos em vasos
rego-os com os olhos
um dia darão flor. 



 



Pela minha vida fora 
sobram paisagens 
de cada casa que abandono
deixo ficar
o céu 
o chão 
as árvores 
os sons
esqueço o caminho 
e tenho a certeza
de que não voltarei

alguém me diga onde é 
a minha próxima morada
e que paisagem terei. 


 


Imagem de RTP


António Lobo Antunes 
1942 - 2026



Uma mão em concha
sustendo o mal
sustendo o tempo
uma boca fechada
 sustendo a palavra 
sustendo a dor

nada que um cigarro não resolva. 








Que nome tem o amor? 
perguntou Cloé
mas nem Dáfnis que era amado
sabia o nome do amor 

se búfalos 
se gaivotas
se elefantes
se escorpiões 
se cavalos marinhos
se perseguem e se contemplam 
como se chamará este sinal? 
até hoje ninguém sabe
se há nome para o amor 
 
quando Dáfnis e Cloé se amam
caem estrelas sobre o mundo. 


 


Imagem antiga de proveniência desconhecida


No tempo em que tudo era possível
nós não sabíamos
dormíamos no calor um do outro
e nenhum temia o acordar

hoje há uma estranha tranquilidade 
que se instalou 
na minha noite
no meu dia
na minha vida 
acordo entre ruínas. 
 


 


Imagem de ChatGPT



Um homem imagina um assassínio 
pensa no momento da sua acção vezes sobre vezes
recomeça em pormenor
pensa que já afiou o fio da arma dez vezes
está sentado a uma mesa em camisola de alças 
folheia o jornal sem se deter em nada
fuma um cigarro feito à mão por ele

levanta-se apressado como se tivesse tomado uma decisão 
veste-se de camisa branca calça os sapatos em pé calcando-os
tem um boné branco que usa sempre
senta-se de novo à mesa com a cabeça entre as mãos 
no silêncio o ruído do caruncho a comer a mesa
lentamente 
lentamente 
lentamente

o telefone toca o homem pega nele com maus modos 
não fala ___ ouve
                                                  pai já és avô 
o homem diz
                                                  sim vou já para aí 

deixa-se ficar sentado e acende outro cigarro
faz-se noite e escurece até ao negro
em fundo ouve-se Joyce DiDonato. 



 

Caras/os leitoras/es

Após quatro anos de tributo à poesia
dia a seguir a dia 
a seguir a dia
a seguir a dia
com a caneta numa mão 
e o resto do dia na outra mão

vou pousar a caneta

os meus textos continuarão o tributo à poesia
aqui
às quartas-feiras e aos domingos
ou seja
no primeiro minuto de quarta e de domingo.

Espero continuar a merecer a Vossa fidelidade
sem a qual este espaço não merece existir. 

Obrigado