Foto do autor do texto



As tuas palavras 


O que alimenta o meu desejo 

são as palavras que julgo que vais dizer. 

Dou-te em troca El Cant Dels Ocells 

enquanto espero 

saltito e faço vénias ao sabor da música 

enquanto espero 

finjo que sou um poeta russo 

neste meu roupão florido 

a declamar palavras estranhas 

enquanto espero 

pelas palavras que julgo que vais dizer. 

 

A música dissolveu-se 

e foi com as palavras ditas 

que mataste o meu desejo.










Diálogo doméstico 


Era uma vez um velhote e uma velhota. 


Um velhote está sentado no cavalo de pau 

com que o filho brincara havia muitos anos. 

A mulher também velhota desdenhosa diz:

     Olha para isso um homem da tua idade! 


O homem velhote levanta-se 

e vai sentar-se a ouvir música. 

A mulher também velhota agastada diz:

     Tanto barulho, tu já estás surdo! 


O homem velhote levanta-se

e vai sentar-se na pequena varanda ao sol. 

A mulher também velhota incomodada diz:

     Ao sol? 

     Se ficares doente eu é que tenho que tratar de ti! 


O homem velhote levanta-se

e vai sentar-se a ler o jornal. 

A mulher também velhota revoltada diz:

     A ler o jornal? 

     E eu é que tenho de cozinhar! 


O homem velhote já exausto responde:

     Ó mulher cala-te, é impossível viver em paz, assim. 

A mulher também velhota indignada murmura:

     Tens cá um feitiozinho! 


A mulher velha vira as costas e continua no seu estertor. 




 

Foto do autor do texto 


    

 

O que me vale é o vizinho de baixo


Há arrogância no convencimento 

de que o mundo é um só, o nosso. 

É como que uma paralisia 

a impossibilidade de admitir 

que a mesma paisagem pode ser outra 

consoante os olhos que a devoram 

ou os olhos que a contemplam. 

O pensamento esquemático mata 

a dimensão humana contida na criatividade 

da exploração do possível 

mas também do impossível. 

A verdade única 

é a mão que interrompe o intervalo 

entre a angústia e a solidão. 

A minha sorte é que Bach 

é o meu vizinho de baixo 

e cá em cima ouço tudo. 




 


 Foto de Bartolomeu Rodrigues



 

Um dia e depois outro


Chegamos ao fim de mais um dia 

em que as noites repousam 

sobre as nossas inquietações. 

Só quem está sozinho sabe 

que o som de um estalido 

um som do nosso corpo 

são alertas onde não há nada 

apenas uma pequena luz 

para que as sombras 

não fiquem na escuridão. 

Tenho um pacto com o silêncio 

nem eu o acordo 

nem ele me assusta. 

Durmo com um seixo em cada mão 

como um  amuleto.





 Foto de Ana Luís Rodrigues



Não voltas


Durante muito tempo 

deixei os teus sapatos caseiros

à entrada 

como se fosses chegar 

a qualquer momento. 

Um filho volta sempre 

mesmo quando já não volta mais. 

Sei que ficaste dentro deste livro 

que me ofereceste

e folheio-o.