Gosto das cidades nocturnasgosto das cidades diurnasgosto das cidadesgosto das cidades que cabem dentro da minha aldeiatal comogosto de ti à noitegosto de ti de diagosto de tigosto de ti quando cabes dentro de mim.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas
Falo-vos de um caso insólitoencontrei na minha ruaum poema sem abrigomagrosujoandrajosoincapaz de se expressar correctamentepor falta de algumas letraspassei-o a limpovestindo-o com novas letrase todas aquelas necessáriaspara permitir a sua falaagora colo o poemapelas paredes da cidadepara que todos o recolhame lhe dêem permanente abrigo.
Deixaste-me no chão o pão do diadobram-se-me as pernas ___ ajoelhoe faço uma oração por tiuma reza de maldiçãoAbram-se o Céu e a Terraque os Mares te dêem o cobertoda tua casa no monteque um vulcão irrompano teu dorso e o lumete ilumine os cabelos até à raizassim correrás de joelhosaté à fenda desmedidada Jangada de Pedrae que a boca da terra te recebacomo pão seu alimentoassim seja.Obrigado pelo pão.
Como já me cansam as palavraspalavras como peixes em cardumesnadam em lugares inacessíveiscomo já me cansa persegui-lasas que se aproximamcomo são duvidosas algumaspor issoque se apaguem todas as luzese no escuro sento-me no chão ecomponho-as ___ caso-as ___ encaixo-ascom critério como se fossem legosem pontes e edifícios irreconhecíveisafogo-me a persegui-las nos cardumesjá me cansam as palavrasmais do que tudoas que não são ditas.
O homem tomava o seu duche diárionaquele dia viu um fio de sangueque escorria pela perna direitae fazia um traço com a ajuda da águano fundo da banheira brancao homem pensou que com a sua idadeainda tinha sangue suficientepara o tempo que faltavae calou o pensamento com a água quentee a música de fundo que estava a ouvir.
O pastor chegou ao curralcom as suas ovelhascontou-as três vezese deu pela falta de umaadormeceu preocupadona manhã seguinteao sair para a pastagemviu à porta a ovelha em faltavinha completamente nuamas não pôde explicaro que se passouo pastor perdoou-lhee por causa do friovestiu-lhe uma capaigual à dos cães pastoresas outras ovelhasacharam-na uma traidoraque se terá passadopara o lado do patrãocomo espia conluiadacom os cães pastoresnunca mais baliram com ela.
Somente os verdadeiros sofredoressão capazes de uma seriedade autêntica.Emil CioranInformo-te como é minha obrigaçãode que vou partira parte do meu corpo que ontem te entregueinão poderás ficar com elapara ti será apenas uma memóriadeixo-te as recordaçõesas fotografiasos poemaso meu frasco de perfume quase acabadoouvirás falar de mime a tua presença será solicitadatraz-me os meus sapatos do nosso casamento.
No princípio apenas o céu azulagoratudo o que me interessa é a coruma papoila ao soluma romã abertauns lábios vivosuma boca a cantarum raio que tudo iluminalágrimas de sangueuma bandeira vermelhao rosto do filho na noite de Nataluma rosa de Alexandriaa tua pele quando te desnudase o céu de novoda cor da noitecom o Quarto Crescente.
Uma pedra sobre o peitoo pulsar do sangue em cadência nos ouvidosa línguaos dentesa bocanuma imobilidade estranhapara não acordar a sombra do animalque dorme aos meus pésno cérebro um cardume de peixesno olhar um bando de avesentretantoescrevo as marcas no meu corpopara que se detenham as palavras inúteis.
Tenho chamado por ti vezes sem contaao longo da vidade vários nomes te fizesteem muitos silêncios te revipelas paredes ficaram versos inacabadosde um poema de amor que não resultoue durmopesa-me o corpo neste sonoe sonhocomo eu gostava de voltar ao tempoem que comíamos um cachorro quentenum restaurante modesto do subúrbioe sabíamos o nome um do outro.