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António Lobo Antunes
1942 - 2026
Uma mão em concha
sustendo o mal
sustendo o tempo
uma boca fechada
sustendo a palavra
sustendo a dor
nada que um cigarro não resolva.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas
Que nome tem o amor?perguntou Cloémas nem Dáfnis que era amadosabia o nome do amorse búfalosse gaivotasse elefantesse escorpiõesse cavalos marinhosse perseguem e se contemplamcomo se chamará este sinal?até hoje ninguém sabese há nome para o amor
quando Dáfnis e Cloé se amamcaem estrelas sobre o mundo.
Um homem imagina um assassíniopensa no momento da sua acção vezes sobre vezesrecomeça em pormenorpensa que já afiou o fio da arma dez vezesestá sentado a uma mesa em camisola de alçasfolheia o jornal sem se deter em nadafuma um cigarro feito à mão por elelevanta-se apressado como se tivesse tomado uma decisãoveste-se de camisa branca calça os sapatos em pé calcando-ostem um boné branco que usa sempresenta-se de novo à mesa com a cabeça entre as mãosno silêncio o ruído do caruncho a comer a mesalentamentelentamentelentamenteo telefone toca o homem pega nele com maus modosnão fala ___ ouvepai já és avôo homem dizsim vou já para aídeixa-se ficar sentado e acende outro cigarrofaz-se noite e escurece até ao negroem fundo ouve-se Joyce DiDonato.
Prendo-me sem querer às marcasque trago da juventude ___ é instintivoeste querer partirsem para lugar certoeste querer amarsem saber a quema falta de protecçãoaquialiem qualquer lugarsempre temi o mare é para lá que me levampara saltar não tenho firmezapara os pés em lado nenhumdeixo-me afogare salvo-me depoispara me afogar de novosempre o tempo me pareceusem fime com inúmeras possibilidadesde recomeço ___ de perigohá uma constante ameaçafoi por isto tudo que partie ainda estou de partida.
Há muito tempo que não olhava para as minhas mãosagora quando escrevo fico a olharpara o brilho da pele e para os rios escurosque vão e vêm para lugares dentro de mima minha vida de um lado para o outro a trazer e a levaro que respiroo que pensoo que digoo que caloe escrevosou uma ilha como um mundocom lugares rochososcom mares turbulentoscom vastos desertose escrevona floresta que sou ___ um melro preto pousana minha realidade mentalacolho-oou é ele que me acolhe a mime escrevonão sei o que fazer ao mundo ___ o fim do poemaé um café duplo e dois pastéis de nata com canelae escrevo.
Nós a pensarmos na nossa inocência de velhosque o amor ainda era possívelapesar da flacidez da nossa pelee da falta de rigidez necessáriaachávamos que ainda tínhamos tempomemorizámos todas as nossas tentativasde tal modo que ainda hoje lamentamosque não tivesse sido possível alteraro que já cada um de nós tinha decididoem décadas de vida para todo o restoque nada em nós se poderia alterarmesmo que a nossa inocência de velhosnos fizesse crer no rosado da nossa pelecomo se nascêssemos de novodentro de uma rosa divina de longa vidaacabámos a tomar chá com madalenase a saborear como dois amigosa emoção das nossas tentativas amorosas.
Diz-me que em fevereiro ainda teremosem comum o nosso calendárioainda que lhe apaguemos uns diasanoiteça cedo em outrose a algumas noites sucedam outras noitesos nossos fevereiros de para sempreserão irrecuperáveis se não houvermais roupa estendida lá forae leite a aquecer no bico de lumedas nossas manhãsdiz-me que em fevereiro estaremos de voltamesmo que neve sobre fevereiro ___ o nossoe mesmo que os sons das crianças a brincarsejam só na nossa imaginaçãoa preencher metade do nosso passadopensando bem não mais me dirásque temos um fevereiro comume que este fevereiro passado seráno meu futuro calendário o mês maiore a fevereiro sucederá outro fevereiro.