Foto de Thomas Rodrigues Kassaye
O meu corpo
está dentro da tua sombra
não há escuridão suficiente
que apague o sinal de uma luz
lúcida e imóvel
que entra pelo teu umbigo
fora da tua sombra
já é outro dia.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
A suposição ___ o enganode que o amor é um direito de todosassim como aquela frase justa que repetimoso sol é para todose o Sol sem que ele próprio ou quem o criousaiba que só aquece os que já não têm frio
o amorum desperdício de pulsaçõesdo coração a forçar as artériasàs vezes durante anose nós em silênciopara não perder os sons do outroque é ele verdadeiramente que pulsa em nóse que às vezes não pulsa nele própriomesmo que o seu coração funcione massem mensagenssem espantosem encantamentosem luze o amor ou a ausência dele a matar-noslentamenteternamentee nós a repetirmosa suposição ___ o engano
assusta-me não acreditar no amore ficar assimde mãos dadas comigo mesmo.
Depois de“Um Chá no Deserto"
de Bernardo Bertolucci
Há lágrimas em frente ao desertomente-se com o mesmo fervorcom que se fala verdadeo deserto é ___ ali mesmoatrás já não há nadao chão foi-se comendo a ele própriosomos o vómito da terraque nos há-de engolir de novoficou tudo azulé a agoniaTânger já não existedizem.
Não se esqueçam dos intervalosentre as palavrasentre os diasentre as refeiçõesentre o nascimento dos filhosentre os amoresentre os corposentre os sentimentos
nós próprios nesta continuidadesomos uma sucessão de intervalosentre o primeiro e o último
acerto o meu relógioe marco a hora de despertar.
Nem sempre fui compreensivonem sempre fui conciliadornem sempre fui económico nas palavrasnem sempre fui amantenem sempre fui o que se esperava de mimnem sempre fui amigo do meu corponem sempre fui morto quando desejavapor tudo isto estou prontopara cumprir a minha penae para repartir convosco o meu pão.
Chove em Agosto em Parisesmolo a atençãoda porteirado garçonda recepcionistado carteirona tentativa de não estar sófaltaste à chamadacom as tuas ligas pretasà vista delasreduzes-me ao silêncioe eu quero assimtudo em pretosobre a tua pele brancanada de coresa não ser o vermelhodos teus lábiosque me faltamrecebo a mensagem cruelJá estou em Lisboanão voltoChove em Agosto em Parisrespondo-te.
Deito-me com a certezade que mais uma noitevai anteceder mais um diaa certeza da sucessãofazem do calendário do tempoum utensílio dinâmicocontra a nossa vontadeo mar e o céunada devem ao tempoe não se submetem a elea terra e o fogoconvivem com o tempoe a ele se submetemo tempo obrigou-nosa ser adultosa ferro e fogo até à terrahá um cipresteem frente à minha casaque vencerá o tempodeito-me com a certezade que mais uma noitevai anteceder mais um diaadormeço.