Foto de Atlas Obscura
Quando acordo
e ouço a tua voz dentro de mim
sempre acredito
que é dessa vez que vais nascer.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
Já tudo me cansaa paisagem urbana colada à janela da frenteos telhados como muros na janela de trásjá tudo me cansamenos o abrir do dia lá foraos saltos dos melros lá foraa certeza de ter almaescutar a música nas palavras dos livrosembora no silêncio que está por todo o ladode restoesqueço-me de tudomenos quejá tudo me cansa.
Concluo sem possibilidade de alteraçãoque há em quase tudo uma oculta inutilidademas sempre receptivo a que cada diapossa ser um lugar verdadeiroconcluo sem possibilidade de alteraçãoque cada dia é um adiamento da provada necessidade do primeiro diade onde trazemos uma ruga de criançaque afago nos convencede que estamos vivos e queremos?ao menos que a lucideznos dê a ousadia de pensar.
Não há poema que expliquepor que faltam tantos nomese que por essa falta se inquieteo próximo a ser nomeadonão há poema que expliquepor que tantas viúvas se esqueceramda sua condiçãoe se lhes acorda a pele sem avisonão há poema que expliquepor que se Eros não existe se sentea sua presença nas noites outonaise há lugares frios no sítio onde se dormenão há poema que expliqueo exílio ___ a humilhação ___ o fima minha serenidade.
Há razão para o medonas marcas persistentes no céua grande velocidadeno rumor e no fogoque desce das montanhasnos que já tão tardeainda não regressaramnos que partiram clandestinossem que lhes soubéssemos o nomenos aglomerados de gentee nos seus murmúrios nas igrejasno temor de que nos levema nossa mulher e os nossos filhosnos barcos parados encostadosuns aos outros rangendona quantidade limitada de pãoque cabe a cada umna agitação dos animaise nos seus uivosem algum lugar inventaram a violênciahá razão para o medo.
Já não creio em nadaa dor do corpo e do espíritosempre reaparece nas madrugadascomo chumboou como um animal pesadoaninhado no abdómencomo se a vida fosse um corpo humanonascendo na bocae morrendo nas plantas dos pése a dor do corpo e do espíritoserá o sinal divinode que as blasfémias são castigadassem pau nem pedraesta dor mata-mehei-de ressuscitar mesmo descrentenem que seja noutra boca.
A suposição ___ o enganode que o amor é um direito de todosassim como aquela frase justa que repetimoso sol é para todose o Sol sem que ele próprio ou quem o criousaiba que só aquece os que já não têm frio
o amorum desperdício de pulsaçõesdo coração a forçar as artériasàs vezes durante anose nós em silênciopara não perder os sons do outroque é ele verdadeiramente que pulsa em nóse que às vezes não pulsa nele própriomesmo que o seu coração funcione massem mensagenssem espantosem encantamentosem luze o amor ou a ausência dele a matar-noslentamenteternamentee nós a repetirmosa suposição ___ o engano
assusta-me não acreditar no amore ficar assimde mãos dadas comigo mesmo.
Depois de“Um Chá no Deserto"
de Bernardo Bertolucci
Há lágrimas em frente ao desertomente-se com o mesmo fervorcom que se fala verdadeo deserto é ___ ali mesmoatrás já não há nadao chão foi-se comendo a ele própriosomos o vómito da terraque nos há-de engolir de novoficou tudo azulé a agoniaTânger já não existedizem.
Não se esqueçam dos intervalosentre as palavrasentre os diasentre as refeiçõesentre o nascimento dos filhosentre os amoresentre os corposentre os sentimentos
nós próprios nesta continuidadesomos uma sucessão de intervalosentre o primeiro e o último
acerto o meu relógioe marco a hora de despertar.