Foto do autor do texto



A passividade marcava o espaço 
todo
e nesse espaço havia inscrições 
indecifráveis
que suscitavam os movimentos 
da língua 
como se já tivéssemos sido estrangeiros 
noutra vida
até que um braço de vento baralhou 
todas as palavras 
e o povo que vivia ao meu lado era
estrangeiro
e plantou árvores pela fronteira
toda
pois assim tinham lido a mensagem 
e sabiam tudo 
de poesia. 





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David Hockney
1937 - 2026
Foto de Beaux Arts Magazine



Imagem de ChatGPT 



Chove em Agosto em Paris
esmolo a atenção 
da porteira
do garçon
da recepcionista
do carteiro
na tentativa de não estar só 

faltaste à chamada
com as tuas ligas pretas
à vista delas
reduzes-me ao silêncio 
e eu quero assim
tudo em preto
sobre a tua pele branca
nada de cores
a não ser o vermelho 
dos teus lábios 
que me faltam

recebo a mensagem cruel 
     Já estou em Lisboa
     não volto

     Chove em Agosto em Paris
respondo-te. 


 

Imagem de ChatGPT 


Deito-me com a certeza
de que mais uma noite
vai anteceder mais um dia
a certeza da sucessão 
fazem do calendário do tempo
um utensílio dinâmico 
contra a nossa vontade
o mar e o céu 
nada devem ao tempo
e não se submetem a ele
a terra e o fogo 
convivem com o tempo
e a ele se submetem
o tempo obrigou-nos
a ser adultos
a ferro e fogo até à terra

há um cipreste
em frente à minha casa
que vencerá o tempo
deito-me com a certeza
de que mais uma noite
vai anteceder mais um dia
adormeço.


 

Imagem de ChatGPT
 



Este é o meu habitáculo 
um cubo de melancolia
onde alguém respira ofegante
ao ouvir o som de tuba
de um navio que parte
em cada parede pintaram palavras 
DE
RO
PE
SES
procuro o significado
mas é noite
só com a luz da manhã 
decifrarei a mensagem

já aqui viveu alguém antes de mim. 



 

Imagem de ChatGPT 



Sento-me na lavandaria
já é noite
trouxe a roupa de uma semana
e uma biografia de Sartre
a luz fraca e branca a cair 
do tecto devagar sobre as páginas 
o som das máquinas 
a ocupar o silêncio 
a ocupar o silêncio
a ocupar o silêncio

vejo-me a passar lá fora
com alguém que não conheço 
uma mulher de braço com braço 
a rirmos sem som

o que a imaginação nos proporciona
quando a realidade se interrompe

a existência precede a essência. 






Foto de Daniel Filipe Rodrigues 


Aqui estamos ___ velhos ___ animados
de uma nostalgia que estava adormecida 
não percebemos o perigo de acordarmos
no reduto de cada um de nós 
a trocar pedras
a trocar mágoas 
a trocar desgostos
a perdermos o resto das nossas vidas
ou a ganharmos o resto das nossas vidas
no entanto sem salvação a não ser
aplacar o remorso e a desventura
é certo que não faremos mais viagens juntos
mas teremos uma bandeira da nossa coragem
e o orgulho das nossas construções 

tudo sob a nossa mão direita
num calor escaldante
do lado do coração. 

 


 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues


E eu
que para o seu acordar 
nada de beliscões sonoras do telemóvel 
carícias e afago no cabelo era o sinal da hora certa

e eu
que lhe punha sobre a mesa ao amanhecer 
um croissant e tudo o mais necessário 
acompanhado com a clássica da Antena 2

e eu
que lhe tinha as toalhas bem dobradas prontas
e sobre o sofá da sala a roupa 
que escolheu no dia anterior

a felicidade não existe ___ dizia-me
e eu concordava como sempre
mesmo que não estivesse de acordo
mas era bom o regresso ao fim do dia
com a mesma impaciência do primeiro encontro

hoje não voltou a casa
a minha vida é um viveiro de insucessos
acabo de receber a notícia de que
a galeria recusou os meus trabalhos. 




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Suponho que te moves
que acendes a luz sobre a casa
suponho que são teus
os passos que ouço 

és tu

não sabes então que
já não moro nesta casa
que deixei tudo como estava
em nossa memória ___ por respeito 

mas ficou por nascer o nosso filho

suponho que chove em volta
da casa que foi nossa
sabes que nunca gostei da chuva
que isso me impedia de fumar lá fora

ia-me com o fumo

suponho que apreciarás
o ar puro pelas janelas abertas
os cortinados com vida
a brisa ___ a vida ondulando

sem vida

suponho que fecharás
o livro que esqueci aberto
suponho que encherás um saco preto
com o resto da minha roupa

e que lhe darás destino

suponho que te sentarás a pensar
no que já parece antigo
mas que foi ontem ___ incrédula 
com o passar do tempo

sem tempo agora

suponho que acharás 
que estou longe aqui mesmo
e ambos pensaremos se ainda
será possível a poesia. 


 


Imagem de ChatGPT 



Nada será mais cândido 
do que a intimidade
com que se revela o passado
como uma janela aberta
não temendo o inverno
talvez que por ela entrem
nomes já esquecidos
e nas nossas mãos quietas
ainda o tacto de lugares interditos

depois de tudo o que hoje faz memória 
não haverá mais testemunhas do que 
as que candidamente convocámos
tudo será esquecido ___ de novo
ou deixará de existir.

 

 

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João Abel Manta
1928 - 2026 
Foto de Diário de Aveiro

 

 

Imagem seleccionada por ChatGPT



O meu dia tem
um quarto do teu dia
a tua vida tem
um quarto da minha vida
na tua ausência 
há um quarto de presença 
a minha mão no teu rosto tem 
um quarto da minha ternura 
está quartado o nosso tempo 
comum
vem ___ fica
comamos este pão quartado
e falemos sobre
a nossa Rosa Cardeal.


 


Imagem de ChatGPT
 



Nos domingos da minha infância 
o sol nascia sempre sobre o meu quintal
eu ficava a olhar o roxo luminoso
das campainhas e o branco dos malmequeres 
que cresciam até à altura dos meus olhos

certos domingos a minha mãe 
aparava-me o cabelo ainda loiro
e as minhas irmãs imitavam a função 
com os seus pequenos dedos em tesoura
no cabelo estopa das suas bonecas

sobre o meu quintal havia
um pequeno quadrado grande de céu 
e eu deitava-me no chão a sonhar
com os olhos cheios de azul ___
___ no meu quintal só faltava o mar

do céu caía um mar de pequenos frutos
amarelos que eu acreditava passarem
por entre a árvore de onde de facto nasciam
jamais esquecerei aquele azul do céu 
que me cabia e era só meu

é curta a longa vida dos artistas
a obra não fica completa
do céu que contemplo agora no catre
onde descanso da minha velha vida
já não há manhãs novas 
nem caem do céu frutos dourados
o cabelo não desponta
e as mães morrem ___ o que é injusto

é trágica a vida dos artistas. 


 

Imagem de ChatGPT



O homem sentou-se ao lado da mulher
e disse
     preciso de ti

a mulher perdeu o sangue na cara 
que ficou cinzenta
e os olhos ficaram-lhe baços 
depois de uns segundos de silêncio 
disse
     tu não és meu filho

o homem pensou
     já não é a primeira vez que fico órfão. 


 


Foto de Daniel Filipe Rodrigues


Soube por mim próprio 
de que doença padecia
e que longo este tempo da doença 
doença que me parecia mais saudável 
do que a saúde dos outros
cuja doença é não estarem doentes

sou órfão desde que nasci
e fiquei órfão várias vezes pela vida fora
conformei-me com a herança 
um segredo 
que me manteve pobre
com ele 
já morreram dois inocentes
que o herdaram dos mesmos pais

dai-me uma razão e eu sobreviverei. 


 


Imagem de ChatGPT 



Tu sabes lá o que é ter oitenta anos
a nostalgia dói mais do que a coluna
parece uma dor que queremos ter
e a coluna que não queremos ter

sabes lá o que são oitenta quilómetros 
sobre ruínas e sob bombas
já debruçado para os oitenta e um
e ter nevoeiro pela frente

sabes lá o que era alguém não ter sapatos 
no início dos oitenta anos ___ quilómetros 
e pedirem-nos uma bucha de pão 
no recreio da primária 

e agora o pão-que-o-diabo-amassou
sobre a secura dos oitenta a pele seca 
das mãos e dos braços e do corpo todo
com oitenta dobras em todas as dobras do corpo

sabes lá o que é ter medo de não dobrar
os oitenta os oitenta e um os oitenta e dois
o medo de ser fechado
no sótão do esquecimento

agora nos oitenta quilómetros ___ anos
já é tarde para cuidar do corpo e do caminho 
voltei a fumar e ainda
sei fazer argolas com o fumo

está no ar o perfume dos crisântemos 
e tenho terra dentro dos sapatos.