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1967
Éramos jovens nesse tempo
encontrei-te prostrado num jornal
só a tua face
como eu ainda te recordava como vivo
guerra é matar e morrer.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
Não se esqueçam dos intervalosentre as palavrasentre os diasentre as refeiçõesentre o nascimento dos filhosentre os amoresentre os corposentre os sentimentos
nós próprios nesta continuidadesomos uma sucessão de intervalosentre o primeiro e o último
acerto o meu relógioe marco a hora de despertar.
Nem sempre fui compreensivonem sempre fui conciliadornem sempre fui económico nas palavrasnem sempre fui amantenem sempre fui o que se esperava de mimnem sempre fui amigo do meu corponem sempre fui morto quando desejavapor tudo isto estou prontopara cumprir a minha penae para repartir convosco o meu pão.
Chove em Agosto em Parisesmolo a atençãoda porteirado garçonda recepcionistado carteirona tentativa de não estar sófaltaste à chamadacom as tuas ligas pretasà vista delasreduzes-me ao silêncioe eu quero assimtudo em pretosobre a tua pele brancanada de coresa não ser o vermelhodos teus lábiosque me faltamrecebo a mensagem cruelJá estou em Lisboanão voltoChove em Agosto em Parisrespondo-te.
Deito-me com a certezade que mais uma noitevai anteceder mais um diaa certeza da sucessãofazem do calendário do tempoum utensílio dinâmicocontra a nossa vontadeo mar e o céunada devem ao tempoe não se submetem a elea terra e o fogoconvivem com o tempoe a ele se submetemo tempo obrigou-nosa ser adultosa ferro e fogo até à terrahá um cipresteem frente à minha casaque vencerá o tempodeito-me com a certezade que mais uma noitevai anteceder mais um diaadormeço.
Sento-me na lavandariajá é noitetrouxe a roupa de uma semanae uma biografia de Sartrea luz fraca e branca a cairdo tecto devagar sobre as páginaso som das máquinasa ocupar o silêncioa ocupar o silêncioa ocupar o silênciovejo-me a passar lá foracom alguém que não conheçouma mulher de braço com braçoa rirmos sem somo que a imaginação nos proporcionaquando a realidade se interrompea existência precede a essência.
Aqui estamos ___ velhos ___ animadosde uma nostalgia que estava adormecidanão percebemos o perigo de acordarmosno reduto de cada um de nósa trocar pedrasa trocar mágoasa trocar desgostosa perdermos o resto das nossas vidasou a ganharmos o resto das nossas vidasno entanto sem salvação a não seraplacar o remorso e a desventuraé certo que não faremos mais viagens juntosmas teremos uma bandeira da nossa corageme o orgulho das nossas construçõestudo sob a nossa mão direitanum calor escaldantedo lado do coração.
Suponho que te movesque acendes a luz sobre a casasuponho que são teusos passos que ouçoés tunão sabes então quejá não moro nesta casaque deixei tudo como estavaem nossa memória ___ por respeitomas ficou por nascer o nosso filhosuponho que chove em voltada casa que foi nossasabes que nunca gostei da chuvaque isso me impedia de fumar lá foraia-me com o fumosuponho que apreciaráso ar puro pelas janelas abertasos cortinados com vidaa brisa ___ a vida ondulandosem vidasuponho que fecharáso livro que esqueci abertosuponho que encherás um saco pretocom o resto da minha roupae que lhe darás destinosuponho que te sentarás a pensarno que já parece antigomas que foi ontem ___ incrédulacom o passar do temposem tempo agorasuponho que acharásque estou longe aqui mesmoe ambos pensaremos se aindaserá possível a poesia.
Nada será mais cândidodo que a intimidadecom que se revela o passadocomo uma janela abertanão temendo o invernotalvez que por ela entremnomes já esquecidose nas nossas mãos quietasainda o tacto de lugares interditosdepois de tudo o que hoje faz memórianão haverá mais testemunhas do queas que candidamente convocámostudo será esquecido ___ de novoou deixará de existir.