Foto de Daniel Filipe Rodrigues (fracção)
Aprecio o apelo ao espírito
quando os nossos corpos se encontram
ficam com brilho as tuas mãos
eu fico cego
e deixo-me guiar.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas
Foi em manhãs deOutubroNovembroDezembrocomo se as manhãs clareassemapenas pela nossa vontadeque tomei o meu calendário que não tinhamais que três mesesmais que três diase decidi três vezes como um acto divinoimitar o Todo Poderosomanhãs únicas na oportunidade de vidanuma manhã da qual terei o poderde escolher a cor do céuserá fulvo como o pôr-do-sole sob ele estarão três nuvens brancassentirei o cheiro e o fresco das manhãsdecisivasabrirei os olhos para o escuroe tudo ficará escuro e em sossego.
Surpreendo-me com a língua em que falasos sonsos temposas pausasos significados outrosa largura das palavrascomo um comboio perdido de vista numa curvacomo uma história que poderá não ter fimsurpreendo-me com a língua em que falascomo se eu nunca pudesse entender-tepor surdez ou por cegueira ___ como julgasdeve ser por tudo istoque somos tão brevesum para o outro.
Este vício de poetao sentimento trágico da vida*a tristeza como musgo agarrado às paredeso alento ___ a alegria da tua chegada pareciaque na verdade estiveras sempre aqui ___ invisívele era assima luz da casa a cair da janela sobreos malmequeres que estavam sempre apagadoso cão já recolhido a respirar o sonolevantava a cabeça e parecia sorrirnão havia luz que chegasse para a noite todase tornar dia na luz da pele ___ da tua pelee a palma da mão ___ da minha mãoa aproveitar o silêncioabrindo o caminho permitido paradesertos lisosserras gémeasdeclives suavesarbustos limitadosleitos sem riosque o teu corpo chegado aquiao meu vício de poetaà tragicidade da minha vidame fazia respirar o sono como o do cãocom um sorriso de fidelidade caninao meu instinto quase adormecido suspiravacom um som como o do musgoa crescer nos muros da minha almaque eu não suspeitava ainda vivadepois ___ muitos anos depois morrestenunca mais te viou fui eu que morrinunca mais me vistee fiquei até tão velho como tua consumir sozinho este vício de poetacom este sentimento trágico da vidaque já não me lembro com quem aprendi.
*Miguel de Unamuno
A porta a bater como um coraçãoteimoso com vida própriao cortinado inquieto com o ventoque entra por uma nesga sem janelao amargo na bocacomo a língua em salmouraas túlipas muito direitasa justificarem a água e o preçoa visão de mim própriode faca na mão que matatal-e-qual os sonhos que tenhoobservoé o meu esforçopara compreender o mundocom o mesmo empenhocom que aprendi a ler.
Encontrei-me sem consciênciaa conversar com Deussem preocupações com a verdade ou com o medo
Ele falou como um mistério no meu silêncio
a mais das vezes não compreendoas tuas falasos teus gestosas tuas doresquando lavras a terra com a tua línguaquando numa fonte perdes a sede por entre os dedosquando dentro de uma laranja encontras uma luz naturalquando um grilo canta contigo na tua própria gaiolaquando começas um poema e é ele que te anuncia
perante o meu silêncio Deus disse-me
saúdo-te por me teres inventadoe isso só foi possível por me trazeres dentro de ti.
Nasci aos oitenta anoslembro-me de quase tudoa sensação de sufocoao sair dos setenta e novea abandonar a penumbrado espaço temporal onde vivibateram-me para chorarjulgavam que eu tinha nascido mortotodos se admiraramde eu não trazer cordão umbilicalao ver tanta gente observando-meconstatei que estava nuroubaram-me tudo ___ penseialguém disse ___ como terá sido possívelele viver sem ligação à fonte da vidasei que é perigoso nascerfora do prazo normal de gestaçãotaparam-me completamentecom um grande pano brancoe foram-se emboraainda ouvi dizer ___ vai ter vida curtacoitado.
A professora a meio da tardeapontando no quadroas palavras difíceise difícil para mimera o meu pai no hospitalo silêncio em casaa televisão e a telefonia proibidaspela minha mãea autoridadea doro medoo respeito pela ausênciaeu sem saberse o meu pai voltavae quais as palavras mais difíceisquando eu rezava caladopelo meu paique não eram as mesmasque a professora escreviano quadro a meio da tardequase horas de regressar a casaa meio da tardetambém era meio da tardeno hospitale o meu pai sem regressarafinal o meu pai estava a morreroutra vez ___ nunca me habitueinada é mais assustadordo que a morte do pai.
Há quem nunca tenha choradoparece impossível mas hádisse-me o Sebastiãoque estava na carteira ao meu ladoe nunca se calavaa dizer baixinho coisas novas para mimfoi por ele dizer coisas assimque aprendi a dizer coisas assimdiferentes das dele e a escrevê-laso Sebastião já não falapassaram mais de cinquenta anosvi-o agora e achei que falava baixinhocomo dantesmas afinal só mexia a bocana mesma cara ainda como a outraque ele teve quando era Sebastiãodeixou de falar desde que ficámossem o nosso filhodisse a mulher deste Sebastiãoficou assimhá pessoas que nunca choramparece impossível mas há.