Foto de Ana Luís Rodrigues



Com emoção 


Devasso o teu corpo 

como me pediste 

há espaço para a fantasia e 

confesso 

já não sou jovem 

quero gastar o tempo todo 

e ser utópico 

controverso 

e inconsequente. 

Devasso o teu corpo 

como me pediste ___

___ com emoção.



 





Pela Palestina 


Não se pode construir uma casa 

numa boca aberta. 


Tenho coração a mais, 

sobram-me os olhos. 

O coração que está a mais 

não pára de bater ___ a mais 

pelos que pararam de bater

e os olhos avaliam ___ de mais 

a distância entre o direito 

e o equívoco. 

Aos olhos não os quero fechados 

mas a ti coração condeno-te 

a ires para a prisão 

sem passares pela casa da partida.



 


 Foto de Ana Luís Rodrigues



Sozinhos, os passeantes


Os passeantes que vão sozinhos 

vão para lado nenhum 

escolheram ser passeantes solitários 

sozinhos na partida 

sozinhos na chegada. 

Disseram-lhes um dia:

     -Levanta-te 

      deixa que te levem a cadeira 

      enquanto estás de pé 

      se a levarem enquanto estás sentado 

      isso será violento! 

E assim se tornaram solitários 

os passeantes que vão sozinhos

mas encontram-se 

a meio do seu corpo ___ devagar.



 


 Foto do autor do texto



O amor é 


Uma mulher dorme 

na minha vida. 


O amor é 

a instauração 

do medo 

da insegurança 

da desconfiança

do delírio 

do absurdo. 


O amor é 

corrosivo 

estupidificante 

encegueirante

alienante 

desconfortante. 


No amor há um silêncio 

que se confunde com paz 

os sons

os olhares 

os gestos 

seguem dentro de momentos.



 


 Foto do autor do texto


Os lápis que tenho gasto a dedicar as minhas rezas


Nunca fui obediente a deuses e a ídolos 

o que querem os deuses é que nos finemos em paz

o que querem os ídolos é que os deixemos finarem-se em paz.

Nunca fiz de um cântico uma reza 

rezar é o que me sai das mãos. 

Os lápis que eu gastei a fantasiar, a rezar 

por todos os que já morreram 

que eram os que sabiam os meus segredos. 

Afio o lápis e continuo a rezar.








O que importa


Pouco importa 

que tenham outra cor os teus cabelos 

se os teus olhos continuam a brilhar. 


Pouco importa 

que o teu corpo seja um cântico mais longevo

se tu te dás ainda mais mulher. 


Pouco importa 

que a tua voz tenha uma tonalidade mais adulta 

se agora me traz a ondulação de um mar calmo. 


Quero morrer a copular para afrontar a natureza 

o que importa 

é a flor que deixarei entre os teus seios.




 


 Foto de Ana Duarte



No declínio 


Espanto-me como ainda estou vivo. 

Folheio a minha lista telefónica ___

    ___ risco os que já morreram 

    ___ risco os que raramente me procuram 

           ficando à minha espera 

    ___ risco os que ainda não tendo morrido 

           já se esqueceram de mim 

           ou já não me reconhecem

somos o nosso próprio silêncio. 

 

Espanto-me como ainda estou vivo. 

Reconcilio-me com a vida 

e deslumbro-me com os filhos 

concebidos como um acto poético. 

Ainda sou capaz de sentir o chamamento

mas no declínio 

parece-me que de repente 

todos ficaram mais velhos.