Ólha que poeta! 


Como-te poesia e bebo-te 

nos versos de outros poetas

quando encarno em mim o poeta. 


O poeta que vê com olhos destinados

a ver o que não há. 

O poeta que fala com palavras

de onde se tiraram as letras. 

O poeta que diz "liberdade" 

como se dissesse "estou a chegar". 

O poeta que escreve "grande é o homem" 

e acaba sozinho num lugar obscuro. 

O poeta canibal de poetas

criador de carne para outros. 

O poeta que sonha como o homem comum

e acorda perdido no futuro. 

O poeta vivente de uma história 

sem relação com a história dos outros. 

O poeta obcecado com as ideias, 

as palavras construídas e 

com as contas encardidas por pagar. 


O poeta que se suicida 

para que a poesia deixe de ser trágica, 

desnuda-se de tudo até da sua sombra.







Fogo


No meu ventre há um fogo

e uma luz que vem das montanhas. 

Os sulcos que vejo no caminho são já antigos

e iluminam-se, mal sonho que podes chegar. 

Nas montanhas há uma luz

e um fogo do seu ventre. 

Os sulcos que vejo no caminho iluminam-se

com a chegada mortífera da natureza. 


Quem disse que a natureza é perfeita? 

Foi a própria natureza, dizem. 

Desdigo essa certeza,

não há natureza nem deus

que dite a sua própria perfeição. 

E o fogo chega, imparável. 




 


Foto de Bartolomeu Rodrigues 



Ver chover é como lavar os olhos

do pó dos outros dias


Lembras-te quando chovia na janela do nosso quarto? 

O "pizzicato" dos pingos lançados contra os vidros

era a nossa música… no nosso conforto

e havia sempre uma loucura nos teus cabelos

e um brilho terno na tua cara. 

Até acreditávamos que só chovia na nossa janela. 


Hoje dão medo os pingos de encontro aos vidros

abafo o som da chuva com palavras de maldição. 

Hoje chove no meu quarto, 

chove na minha vida, 

chove na minha memória, 

chove na minha cara, 

chove sobre ti, 


chove, 


chove, 


chove.








Quando adormeço, quando acordo


Quando é muito de noite

e te vais embora

sem me aconchegar o sono, 

ouço todos os pequenos ruídos 

do meu silêncio 

e vejo nas cortinas por detrás 

da luz coada da janela 

as sombras do que não está. 

Para adormecer penso

que vou numa jangada

parada no mar e no tempo. 


Depois, quando acordo

já ali estás outra vez.

Nem dá para ter saudades.








Quem são? 


Quem são os verdadeiros heróis? 

Quero conhecer alguns. 


São os monstros sempre sentados

com os ânus confortáveis 

sempre a arregaçar o dinheiro? 

Ou

As hienas descaradas que

apalpam as coxas de quem trabalha

com o suor dos outros

a escorrer no pensamento? 


Ou

São os corpos cansados

com dedos amputados e

palavras a fermentar

nas bocas indignadas? 

Ou

As mulheres meio gastas 

com olhos aprisionados 

consumidos nas máquinas e

com os filhos no regaço? 


Quem são os verdadeiros heróis? 

Quero conhecer alguns.








Não pedi


E se eu te dissesse agora que já não queria nascer? 

Que farias ao teu desejo consumado

à tua decisão pessoal ou em grupo? 

Irias pedir que não te iluminassem as entranhas

ou deixavas de ouvir o meu apelo

coberto com os sons do teu prazer? 


Mas não, 

gostarei de ter nascido. 




 




Poemas herméticos


Não consigo escrever um poema hermético 

como fazem alguns verdadeiros poetas. 

Faço um esforço para escolher palavras

desencontradas mas que sobrevivam

ao lado umas das outras misteriosamente. 

Escrevo

              uma luz das montanhas e o ventre

             que vem de um fogo. 

             

Mas logo as palavras se guerreiam porque

se acham no direito de dar sentido à sucessão. 

Então intervenho e troco-as de lugar

             No meu ventre há um fogo

             e uma luz que vem das montanhas. 


Poeta de poemas herméticos, não!

Porque não resisto ao poder das palavras

e deixo que se alinhem e falem como querem. 


Zango-me ternamente com elas, 

vou-me embora do poema, 

volto quando me chamarem. 




 





Mais um Inverno na minha vida


Sinto um conforto triste quando chega o inverno

e faço a minha cama com lençóis de flanela. 

Tudo me cheira a passado no aroma dessas roupas. 

Não consigo evitar uma certa liturgia nesse afazer

que quero lento e envolve música e recolhimento. 

Feita a tarefa deito-me sobre o meu passado

e adormeço num sonho da minha infância. 




 


 Foto de Bartolomeu Rodrigues



Herança 


Abre o teu caderno e escreve nele o meu nome

depois anota o que te deixarei.


Os restos daquele Deus que reneguei. 

A vontade que tenho de fazer uma revolução. 

Os cactos que plantei por cada amigo que perdi. 

Todas as noites escuras onde tentei matar-te

na minha cansada memória. 

As canções estranhas que cantei para te agradar. 

Aquele copo onde ficou a tua boca. 


Deixo a porta encostada, 

vigia-me até ter deixado de respirar.








Aos poucos disseram-nos para deixarmos de caminhar 

e que haver sol ou chuva passou a ser indiferente, 

fomos separados, os nossos ficaram do outro lado. 

Acordámos com as palavras dos outros sobre os outros, 

a água deixou de ser suficiente para nos banharmos 

e por entre fantasmas nasciam outros fantasmas. 

Só não confinámos os nossos pensamentos porque

achámos que a mudança ia ser o momento da justiça.

Foi um pesadelo que se repetirá por milénios. 


Reparo agora que nem tive tempo de comprar flores

para que ficasse mais real e bela a minha jarra nova. 

Lanço os versos e o corpo no abismo

e adormeço. 




 





Este texto foi encontrado no diário do meu avô que morreu com 92 anos. Foi escrito uma semana antes da sua morte. 


Adultos apenas uma vez


Nós já não somos adultos outra vez. 


É na nossa inocência que se espanta o morto

e que desponta na ignorância uma criança. 

A vida passa a ser uma cantilena num labirinto

de onde não precisamos de sair. 


Voltamos ao confronto com os nossos

já muito velhos pais mas queremos ser ainda

os guias dos nossos filhos adultos. 


Entramos de novo na escola mas dizem-nos

que é a universidade, é lá que voluntariamente 

habituamos a idade ao enfezado das matérias. 


Corremos de joelhos e guinchamos 

a brincar com as outras crianças de verdade, 

são os semeados netos de quando fomos adultos. 


Dentes, temos menos, em silêncio

na nossa boca aparecem os que faltam, 

nasceram de novo mas do nosso bolso. 


Ainda nos perturba o apelo sensual 

como um júbilo adulto demais 

que passa perto como um sopro 

e acende uma pálida luz no nosso ventre. 

Reaprendemos como se conta a nossa vida

no sexo triste há muito tempo calado. 


Recolhemos cedo ao conforto demorado

do berço grande, lugar outonal

depois do prazer encontrado

nas papas moles do tempo. 


Esperamos que nos peguem ao colo

quando nascermos de novo

para o outro lado da vida.







Canta


Gostaria de te pedir

que voltasses a cantar. 


Era a tua voz

que invalidava o pânico 

quando a tarde

ficava cinzenta. 

As pausas que fazíamos

nesses dias na nossa vida

deixavam em aberto

a possibilidade de viagens

que nunca tivemos

a coragem de fazer. 

Ainda conservo a mala

com tudo o que

as tuas mãos arrumaram. 

Hoje a tarde está carregada

de brumas perturbantes. 


Gostaria de te pedir

que voltasses a cantar. 





 



Domingo à tarde

Este dia, agora, de tão distante já foi ontem

e ainda há pouco dançavamos enleados

sem nunca nos termos visto. 

Comemorámos o sucesso da primeira dança 

com uma laranjada dividida a dois

no balcão da sociedade recreativa. 


Nostálgica lembrança dos bailes 

quase virtuosos de domingo à tarde

com aquela jovem amada 

que nunca mais voltaríamos a ver 

apesar de a procurarmos nos domingos seguintes 

até nos apaixonarmos de novo numa outra dança. 


Nem hoje somos capazes de imaginar

um mundo que fosse diferente daquele. 

Talvez em algum lugar aquela avó

se recorde ainda do seu esplendor de jovem. 

Faço deslizar a mesma música de outrora

e agora dentro de mim assoma

uma lágrima sem retorno.