Foto de Daniel Filipe Rodrigues
Dou comigo a chorar por dentro
tanto
que tenho medo de afogar o coração.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
Nem sempre fui compreensivonem sempre fui conciliadornem sempre fui económico nas palavrasnem sempre fui amantenem sempre fui o que se esperava de mimnem sempre fui amigo do meu corponem sempre fui morto quando desejavapor tudo isto estou prontopara cumprir a minha penae para repartir convosco o meu pão.
Chove em Agosto em Parisesmolo a atençãoda porteirado garçonda recepcionistado carteirona tentativa de não estar sófaltaste à chamadacom as tuas ligas pretasà vista delasreduzes-me ao silêncioe eu quero assimtudo em pretosobre a tua pele brancanada de coresa não ser o vermelhodos teus lábiosque me faltamrecebo a mensagem cruelJá estou em Lisboanão voltoChove em Agosto em Parisrespondo-te.
Deito-me com a certezade que mais uma noitevai anteceder mais um diaa certeza da sucessãofazem do calendário do tempoum utensílio dinâmicocontra a nossa vontadeo mar e o céunada devem ao tempoe não se submetem a elea terra e o fogoconvivem com o tempoe a ele se submetemo tempo obrigou-nosa ser adultosa ferro e fogo até à terrahá um cipresteem frente à minha casaque vencerá o tempodeito-me com a certezade que mais uma noitevai anteceder mais um diaadormeço.
Sento-me na lavandariajá é noitetrouxe a roupa de uma semanae uma biografia de Sartrea luz fraca e branca a cairdo tecto devagar sobre as páginaso som das máquinasa ocupar o silêncioa ocupar o silêncioa ocupar o silênciovejo-me a passar lá foracom alguém que não conheçouma mulher de braço com braçoa rirmos sem somo que a imaginação nos proporcionaquando a realidade se interrompea existência precede a essência.
Aqui estamos ___ velhos ___ animadosde uma nostalgia que estava adormecidanão percebemos o perigo de acordarmosno reduto de cada um de nósa trocar pedrasa trocar mágoasa trocar desgostosa perdermos o resto das nossas vidasou a ganharmos o resto das nossas vidasno entanto sem salvação a não seraplacar o remorso e a desventuraé certo que não faremos mais viagens juntosmas teremos uma bandeira da nossa corageme o orgulho das nossas construçõestudo sob a nossa mão direitanum calor escaldantedo lado do coração.
Suponho que te movesque acendes a luz sobre a casasuponho que são teusos passos que ouçoés tunão sabes então quejá não moro nesta casaque deixei tudo como estavaem nossa memória ___ por respeitomas ficou por nascer o nosso filhosuponho que chove em voltada casa que foi nossasabes que nunca gostei da chuvaque isso me impedia de fumar lá foraia-me com o fumosuponho que apreciaráso ar puro pelas janelas abertasos cortinados com vidaa brisa ___ a vida ondulandosem vidasuponho que fecharáso livro que esqueci abertosuponho que encherás um saco pretocom o resto da minha roupae que lhe darás destinosuponho que te sentarás a pensarno que já parece antigomas que foi ontem ___ incrédulacom o passar do temposem tempo agorasuponho que acharásque estou longe aqui mesmoe ambos pensaremos se aindaserá possível a poesia.
Nada será mais cândidodo que a intimidadecom que se revela o passadocomo uma janela abertanão temendo o invernotalvez que por ela entremnomes já esquecidose nas nossas mãos quietasainda o tacto de lugares interditosdepois de tudo o que hoje faz memórianão haverá mais testemunhas do queas que candidamente convocámostudo será esquecido ___ de novoou deixará de existir.
O meu dia temum quarto do teu diaa tua vida temum quarto da minha vidana tua ausênciahá um quarto de presençaa minha mão no teu rosto temum quarto da minha ternuraestá quartado o nosso tempocomumvem ___ ficacomamos este pão quartadoe falemos sobrea nossa Rosa Cardeal.