Imagem de ChatGPT
A solidãoé um homem a beber cháe a comer bolachasàs onze horas da manhã
e às onze horas da noite
começou a trovejar ao longee a carta que espero não chegoujá faz quinze dias
acabaram-se as bolachas
e se eu não esperasse mais?
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas
Diz-me que em fevereiro ainda teremosem comum o nosso calendárioainda que lhe apaguemos uns diasanoiteça cedo em outrose a algumas noites sucedam outras noitesos nossos fevereiros de para sempreserão irrecuperáveis se não houvermais roupa estendida lá forae leite a aquecer no bico de lumedas nossas manhãsdiz-me que em fevereiro estaremos de voltamesmo que neve sobre fevereiro ___ o nossoe mesmo que os sons das crianças a brincarsejam só na nossa imaginaçãoa preencher metade do nosso passadopensando bem não mais me dirásque temos um fevereiro comume que este fevereiro passado seráno meu futuro calendário o mês maiore a fevereiro sucederá outro fevereiro.
Al faltar la culturafalta el pensamientoy sin el resultamuy evidenteel 'todo vale’ quenos domina.
Luis Antonio de Villena
O que sabemos nós de alguma coisa
nada será mais rarodo que não haver água nos riosnada será mais rarodo que não haver estrela na alvoradanada será mais rarodo que não haver espigas para a colheitanada será mais rarodo que sermos os inventores da nossa própria mãe
confessemos a nossa ignorância.
Um galo com a crista em chamascorreu por entre as galinhasque em pânico davam saltos esvoaçandoo deus das galinhas castigou o galoque ambicionava ser o galo dos ovos de ouroque deus é este que incendeia os sonhossó porque um galo queria pôr ovos?há bicos que rezam pelas galinhasque não põem ovosvá um galo confiar num deusinjusto e incendiáriomesmo que seja um deus das galinhas.
O soldado golpeou com a sua espadao mármore da base da coluna da sua casaquartelfaíscas caíram sobre as mulheres presentes ___tantas como dez ___ baixaram a cabeça de medo ou de sanhacomo lhe chamaram quando conspiraram todas boca a bocaferraram as suas pernas como ferro menos umanessa noite a escolhida de entre as deznão pelo soldado mas pelas outras mulheresdesembainhou o seu lugar recôndito e cerrou os olhosnessa noite os habituais urros do soldadomais fortes que os do prazergolpearam as colunas da sua casaquartel tingindo-as de sangueem ondas de justiça feita pelo gume do pequeno punhalque faiscando de raiva matou a espada do corpo do soldado.
À CHEGADA VINHA SÓ EU.“... eu cá vim a pé o tempo não estava de feição…”Jacques PrévertRio-me discretamente quando me dizem que somosdescendentes de naveganteseu, que nem sei nadar nem seria capaz de me deixar aprisionarnum cruzeiro como se estivesse em residência vigiada.Não devemos ser todos assim, com medo do mar como eu,descendente de uma doméstica e de um empregado no comércionuma linhagem da mais pura vulgaridadecom artistas, alcoólicos e loucos nos antepassados.Agora é assim fazemos juízos de tudo e de todoscom a grande possibilidade de erropor não conhecermos as pessoas e elas se ofereceremintencionalmente à nossa observação. É um equívoco provocado.Já não conhecemos ninguém a não ser pelas televisõese só as avaliamos pelas suas máscaras.É desolador, a vida toda cheia de actores e só agora vejo que
também participei no espectáculo mas, o que é certo,
é que já ninguém se lembra de mim, morreram todos.Por tudo isto vim a pé o tempo não esteve de feição.
Pacienteo homem inclinou-sesobre o seu próprio corpojá era noite dentro daquele seu diae nunca mais amanheciapacienteo homem inclinou-sesobre o seu próprio pensamentoe sonhou que numa aurora qualqueralguém diria o seu nomee flocos de prata cairiam sobre o mundoou talvezsobre o seu mundo ___ apenasou sobre o seu corpo ___ apenasou sobre o seu pensamento ___ apenasnão conformadocom o seu curto nome de quatro letrasdecidiu com urgência conceber um filhoa quem deu o maior nome que conheciacom muitas letrasentão o homem inclinou-sesobre o corpo do seu filhoe disse o seu nomefilho de um homem de quatro letrasMAXIMILIANOflocos de prata caíram sobre o mundo.