Devido ao irremediável avanço do tempo
já não conheço ninguém
e já ninguém me conhece
no entanto eu existo.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas
Um galo com a crista em chamascorreu por entre as galinhasque em pânico davam saltos esvoaçandoo deus das galinhas castigou o galoque ambicionava ser o galo dos ovos de ouroque deus é este que incendeia os sonhossó porque um galo queria pôr ovos?há bicos que rezam pelas galinhasque não põem ovosvá um galo confiar num deusinjusto e incendiáriomesmo que seja um deus das galinhas.
O soldado golpeou com a sua espadao mármore da base da coluna da sua casaquartelfaíscas caíram sobre as mulheres presentes ___tantas como dez ___ baixaram a cabeça de medo ou de sanhacomo lhe chamaram quando conspiraram todas boca a bocaferraram as suas pernas como ferro menos umanessa noite a escolhida de entre as deznão pelo soldado mas pelas outras mulheresdesembainhou o seu lugar recôndito e cerrou os olhosnessa noite os habituais urros do soldadomais fortes que os do prazergolpearam as colunas da sua casaquartel tingindo-as de sangueem ondas de justiça feita pelo gume do pequeno punhalque faiscando de raiva matou a espada do corpo do soldado.
À CHEGADA VINHA SÓ EU.“... eu cá vim a pé o tempo não estava de feição…”Jacques PrévertRio-me discretamente quando me dizem que somosdescendentes de naveganteseu, que nem sei nadar nem seria capaz de me deixar aprisionarnum cruzeiro como se estivesse em residência vigiada.Não devemos ser todos assim, com medo do mar como eu,descendente de uma doméstica e de um empregado no comércionuma linhagem da mais pura vulgaridadecom artistas, alcoólicos e loucos nos antepassados.Agora é assim fazemos juízos de tudo e de todoscom a grande possibilidade de erropor não conhecermos as pessoas e elas se ofereceremintencionalmente à nossa observação. É um equívoco provocado.Já não conhecemos ninguém a não ser pelas televisõese só as avaliamos pelas suas máscaras.É desolador, a vida toda cheia de actores e só agora vejo que
também participei no espectáculo mas, o que é certo,
é que já ninguém se lembra de mim, morreram todos.Por tudo isto vim a pé o tempo não esteve de feição.
Pacienteo homem inclinou-sesobre o seu próprio corpojá era noite dentro daquele seu diae nunca mais amanheciapacienteo homem inclinou-sesobre o seu próprio pensamentoe sonhou que numa aurora qualqueralguém diria o seu nomee flocos de prata cairiam sobre o mundoou talvezsobre o seu mundo ___ apenasou sobre o seu corpo ___ apenasou sobre o seu pensamento ___ apenasnão conformadocom o seu curto nome de quatro letrasdecidiu com urgência conceber um filhoa quem deu o maior nome que conheciacom muitas letrasentão o homem inclinou-sesobre o corpo do seu filhoe disse o seu nomefilho de um homem de quatro letrasMAXIMILIANOflocos de prata caíram sobre o mundo.
Quem me dera ser velho eternamente
acreditando que o tempo é circular
como o relógio e a Terra.
Ficou tudo como estavao corpo rendeu-se ao apeloe deixou-se aprisionarfoi levado para outro lugardeixou tudo como estavaum poema seguiu-oe obrigou-o a respirarvinte anos depois regressoue estava tudo como estavanesse dia completou o poemae escreveutenho o corpo inteiroaqui os deuses respiramestou vivo.
“Que utilizar senão palavras,
para destruir o falso prestígio
das palavras?”
René Huygheem Diálogo com o Visível
Um homem está sentado à mesa de uma sombria tabernasobre o tampo de mármore um pão e um copo de vinhoum corvo atravessa por debaixo da mesa e grasnapara o homem que suporta a cabeça na mão esquerdacom o cotovelo sobre o mármore frioo homem esqueceu a sua família e o seu próprio nomeele acha que é difícil ser pessoanaquele dia opaco o Sol lançou-se através das nuvenscontra um vidro da taberna e quebrou as trevasum raio brilhante iluminou o pão e o vinho sobre a mesao homem com emoção teve a certeza de que Deussabia o seu nome.
Fico sentadoa ver o meu corpo em movimentoprestável na sua habilidadede cravar um prego na paredepara pendurar um quadro meufico a ver o meu corpo a equilibraro quadro que eu pinteitodo azul ___ céu e marpor momentos inclinou-se o quadroderramou todo o marpela parede abaixofiquei sentado a ver o meu corpoa mergulhar.