Foto do autor do texto



Lenço é separação ___ diz o povo
o que ficou de ti
foi um saco do Grand Palais
do lenço que te ofereci 
que fará parte da minha colecção 
de inutilidades
os vindouros vão perguntar

para que guardou ele isto? 

e lançarão todas as minhas recordações 
no lixo comum.

 




Imagem de ChatGPT 



Deus ___ ó Pai
salva-me da minha inquietude
limpa do pecado as minhas entranhas
sei que ofendi as leis do pensamento divino
e cedi às leis do corpo
contra a tua existência falei tão convencido 
como aqueles que seguem os que te inventaram
Deus ___ ó Pai
tu que és o julgador 
segundo clamam os julgados
julga os que derrubaram as muralhas
do povo da Palestina
e ergue-as de novo
se assim se derramar do céu a tua vontade
para que creiamos em ti
Deus ___ ó Pai
por ti
sacrificarei a minha clarividência 
pela ideia de ti
pelos teus ofícios
pela liturgia 
que eu tanto aprecio tocada e cantada
se a esta encomenda que te faço 
a não tornares a tua execução sagrada
acredito que
terramotos
inundações dos mares
holocaustos com o fogo dos homens
será tudo obra tua
se assim fizeres
sacrificarei no teu altar a minha oferenda
ou seja
lançarei no fogo 
o meu convencimento blasfemo

persigno-me por teu favor. 


 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues 


Dou comigo a chorar por dentro

tanto

que tenho medo de afogar o coração.




Foto de Daniel Filipe Rodrigues 


Abocanharam os pobres
sem respeito pela sua tristeza
abocanharam os velhos
não tendo em conta a rigidez das suas veias
em todos
há um coração que aquece o sangue
há uma face luminosa do lado do sol
e uma face sombria do lado da noite

a todos exorto à desobediência civil. 


 


 

Pão da autoria do padeiro do costume



Nem sempre fui compreensivo
nem sempre fui conciliador 
nem sempre fui económico nas palavras 
nem sempre fui amante
nem sempre fui o que se esperava de mim
nem sempre fui amigo do meu corpo
nem sempre fui morto quando desejava

por tudo isto estou pronto
para cumprir a minha pena
e para repartir convosco o meu pão. 

 


 

Foto do autor do texto



A passividade marcava o espaço 
todo
e nesse espaço havia inscrições 
indecifráveis
que suscitavam os movimentos 
da língua 
como se já tivéssemos sido estrangeiros 
noutra vida
até que um braço de vento baralhou 
todas as palavras 
e o povo que vivia ao meu lado era
estrangeiro
e plantou árvores pela fronteira
toda
pois assim tinham lido a mensagem 
e sabiam tudo 
de poesia. 





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David Hockney
1937 - 2026
Foto de Beaux Arts Magazine



Imagem de ChatGPT 



Chove em Agosto em Paris
esmolo a atenção 
da porteira
do garçon
da recepcionista
do carteiro
na tentativa de não estar só 

faltaste à chamada
com as tuas ligas pretas
à vista delas
reduzes-me ao silêncio 
e eu quero assim
tudo em preto
sobre a tua pele branca
nada de cores
a não ser o vermelho 
dos teus lábios 
que me faltam

recebo a mensagem cruel 
     Já estou em Lisboa
     não volto

     Chove em Agosto em Paris
respondo-te. 


 

Imagem de ChatGPT 


Deito-me com a certeza
de que mais uma noite
vai anteceder mais um dia
a certeza da sucessão 
fazem do calendário do tempo
um utensílio dinâmico 
contra a nossa vontade
o mar e o céu 
nada devem ao tempo
e não se submetem a ele
a terra e o fogo 
convivem com o tempo
e a ele se submetem
o tempo obrigou-nos
a ser adultos
a ferro e fogo até à terra

há um cipreste
em frente à minha casa
que vencerá o tempo
deito-me com a certeza
de que mais uma noite
vai anteceder mais um dia
adormeço.


 

Imagem de ChatGPT
 



Este é o meu habitáculo 
um cubo de melancolia
onde alguém respira ofegante
ao ouvir o som de tuba
de um navio que parte
em cada parede pintaram palavras 
DE
RO
PE
SES
procuro o significado
mas é noite
só com a luz da manhã 
decifrarei a mensagem

já aqui viveu alguém antes de mim. 



 

Imagem de ChatGPT 



Sento-me na lavandaria
já é noite
trouxe a roupa de uma semana
e uma biografia de Sartre
a luz fraca e branca a cair 
do tecto devagar sobre as páginas 
o som das máquinas 
a ocupar o silêncio 
a ocupar o silêncio
a ocupar o silêncio

vejo-me a passar lá fora
com alguém que não conheço 
uma mulher de braço com braço 
a rirmos sem som

o que a imaginação nos proporciona
quando a realidade se interrompe

a existência precede a essência. 






Foto de Daniel Filipe Rodrigues 


Aqui estamos ___ velhos ___ animados
de uma nostalgia que estava adormecida 
não percebemos o perigo de acordarmos
no reduto de cada um de nós 
a trocar pedras
a trocar mágoas 
a trocar desgostos
a perdermos o resto das nossas vidas
ou a ganharmos o resto das nossas vidas
no entanto sem salvação a não ser
aplacar o remorso e a desventura
é certo que não faremos mais viagens juntos
mas teremos uma bandeira da nossa coragem
e o orgulho das nossas construções 

tudo sob a nossa mão direita
num calor escaldante
do lado do coração. 

 


 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues


E eu
que para o seu acordar 
nada de beliscões sonoras do telemóvel 
carícias e afago no cabelo era o sinal da hora certa

e eu
que lhe punha sobre a mesa ao amanhecer 
um croissant e tudo o mais necessário 
acompanhado com a clássica da Antena 2

e eu
que lhe tinha as toalhas bem dobradas prontas
e sobre o sofá da sala a roupa 
que escolheu no dia anterior

a felicidade não existe ___ dizia-me
e eu concordava como sempre
mesmo que não estivesse de acordo
mas era bom o regresso ao fim do dia
com a mesma impaciência do primeiro encontro

hoje não voltou a casa
a minha vida é um viveiro de insucessos
acabo de receber a notícia de que
a galeria recusou os meus trabalhos. 




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Suponho que te moves
que acendes a luz sobre a casa
suponho que são teus
os passos que ouço 

és tu

não sabes então que
já não moro nesta casa
que deixei tudo como estava
em nossa memória ___ por respeito 

mas ficou por nascer o nosso filho

suponho que chove em volta
da casa que foi nossa
sabes que nunca gostei da chuva
que isso me impedia de fumar lá fora

ia-me com o fumo

suponho que apreciarás
o ar puro pelas janelas abertas
os cortinados com vida
a brisa ___ a vida ondulando

sem vida

suponho que fecharás
o livro que esqueci aberto
suponho que encherás um saco preto
com o resto da minha roupa

e que lhe darás destino

suponho que te sentarás a pensar
no que já parece antigo
mas que foi ontem ___ incrédula 
com o passar do tempo

sem tempo agora

suponho que acharás 
que estou longe aqui mesmo
e ambos pensaremos se ainda
será possível a poesia. 


 


Imagem de ChatGPT 



Nada será mais cândido 
do que a intimidade
com que se revela o passado
como uma janela aberta
não temendo o inverno
talvez que por ela entrem
nomes já esquecidos
e nas nossas mãos quietas
ainda o tacto de lugares interditos

depois de tudo o que hoje faz memória 
não haverá mais testemunhas do que 
as que candidamente convocámos
tudo será esquecido ___ de novo
ou deixará de existir.

 

 

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João Abel Manta
1928 - 2026 
Foto de Diário de Aveiro

 

 

Imagem seleccionada por ChatGPT



O meu dia tem
um quarto do teu dia
a tua vida tem
um quarto da minha vida
na tua ausência 
há um quarto de presença 
a minha mão no teu rosto tem 
um quarto da minha ternura 
está quartado o nosso tempo 
comum
vem ___ fica
comamos este pão quartado
e falemos sobre
a nossa Rosa Cardeal.