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Rosa


Comprei uma rosa negra em Alexandria 

___ a última 

Parto dentro de uma hora

de nada vale fazer pedidos a Deus 

se não puderes esperar 

já não verás os meus cabelos brancos 

mas digo-te 

que levarás contigo a rosa 

e um último beijo nos teus lábios.




 







As palavras do delírio 


Farei hoje a colheita

das palavras que passeiam

pelos ínvios caminhos 

que um poeta me revelou ___

pego no seu livro

folha a folha

palavra a palavra

guardo-as no bolso do albornoz

para antitóxico contra a maledicência 

de leitores conservadores

que se encontram a cada esquina

da ignorância. 

Obrigado poeta maldito

levo os bolsos cheios de espigas

com que farei o pão do delírio.




 


 Foto de Daniel Filipe Rodrigues



 
As árvores 

As árvores no seu poiso
involuntário 
tementes às ameaças 
mas desejosas de ternuras
vindas do céu ou da terra
agitam-se com os cânticos 
do vento por entre a folhagem
estremecem o que podem ___
___ impossível o diálogo 
com as aves ou as pedras
ouvem mas não respondem
Como árvores solitárias
pedem que olhemos para elas
e que as abracemos.




 


Foto de Bartolomeu Rodrigues 



 

 
Partilho o Outono

Os teus seios como são flácidos

escorridos e pálidos os teus seios

que adormecem contigo

por isso cuido do teu silêncio 

finjo que não sei falar

para que repouses 

com os teus seios cansados ___

___ ainda assim belos

naquela penumbra interpelando

o meu desejo ___ a minha pele

Vem ___

___ toma de mim o que resta

tenho uma palavra nova  

a nascer na minha boca 

quero partilhar contigo este Outono.




 

 






Partilho a Primavera 


Os teus seios como são fortes

e luminosos os teus seios

como se agitam com a tua voz

por isso te provoco as palavras

e finjo que não ouço 

para que repitas ___ com mais ímpeto 

Os teus seios como falam

mais belos na luz quebrada

dos sentidos que valorizo 

na urgência do apelo da minha pele

Vem ___

___ senta-te à mesa do meu corpo

tenho uma papoila a nascer na minha boca

quero partilhar contigo esta Primavera.




 


 Foto de Bartolomeu Rodrigues





Quais são as nossas palavras? 


Só são nossas as palavras que conhecemos, 

as outras estão prontas para que nos apoderemos delas, 

mas é preciso que saibamos que elas existem 

e deixá-las falar.






 Foto de Daniel Filipe Rodrigues



 
Alguém disse o meu nome? 

Um banco de jardim
é o lugar certo
para desdobrar as horas ___
___ ali se comem as palavras
os olhares são como arados
a desbravar a imagem
de um e de outro que passa
e onde nunca será 
lançada a semente

Infértil e desajustado pensamento
que mói os dias
uns atrás dos outros
naquela tristeza silenciosa
de que já tinha ouvido falar ___
_____________________________
___ até uma ave no seu canto
parece ter dito o meu nome.



 






 
Nasce e pronto! 

Os dedos assumem-se como executantes
agitados mas decididos 
a escoarem as ideias
Uma mão trabalha e
a outra revolta-se por entre os cabelos
enquanto um ponto de exclamação 
me cai da boca
Tudo é autêntico e simples
nas dores de parto do poema.





 Foto do autor do texto





As minhas camisas


As camisas em fila no armário 

em cada uma a cor dos meus dias 

é vê-las de braço dado

como se tivessem vida própria 


Achei curioso que algumas 

tivessem os punhos entrelaçados 

sinto que alguns dos meus braços 

partiram com outros braços 

ou que alguém vestiu comigo 

as minhas camisas.






 Foto do autor do texto




 
 
 
Acertemos tudo

Gosto que me ames
___ mas não ao pé-coxinho
porque nos desequilibramos 
___ mas não com beijos
em que os lábios não coincidem
isso serão meios beijos
___ mas não com as mãos 
dadas somente na explosão 
como carícias de aflição 

Tenho cantado a desoras

toda a minha vida


Gosto que me ames

___ mas agora com as horas certas

para que os nossos ponteiros coincidam

___ que plantes beijos na minha pele

mas que não te esqueças 

de regar as nossas flores.