Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Os arquitectos e as cidades


As cidades nascem e crescem

nas mãos que inventam paredes

dos que não deixam que se esqueçam 

as janelas de luz ___

___ das cidades nascem os seus arquitectos. 

Eles têm os dedos na pedra

nas suas arestas

nos desenhos sempre inacabados

porque sonham para além da terra

e do homem que habita, 

eles surpreendem-se

com os destinos que o seu olhar imagina

ideia filha de outra ideia, 

eles desenham na sua mente a impossibilidade

e eles sabem esse impossível

mas desenham com palavras

convincentes no seu mundo,

eles nascem das cidades

caminham sobre a beleza e inventam

as casas da nossa solidão ___ obscura

sem o saberem. 

Eles sonham

para além da terra

e do homem que habita.



 


 Foto de Bartolomeu Rodrigues



A nostalgia ___ a fuga


A fuga à nostalgia nem sempre é possível 

ficamos ali a fazer com que nos doa 

com aquele prazer ao contrário 

o sufoco de não podermos voltar atrás 

e a voz que escolhemos 

a massacrar a nossa memória

dorida

viva 

triste. 

A nostalgia é abrir um pão com as mãos 

é pôr aos pés uma botija de água quente 

é ver uma faixa azul numa parede branca 

é ter uma foto nossa parecida com a do nosso avô 

é a manhã a deitar-se sobre a nossa cama 

é alguém entrar no nosso passado com permissão

___ e mais aquilo de que nos lembrarmos. 

A nostalgia é a noite de sábado à noite 

e o dia de domingo todo o dia.



 





O artista, uma aproximação à sua definição 

 

O artista é um ser insubmisso, um agitador

alguém que escandaliza as consciências 

com o seu próprio escândalo,  

que fere com as palavras, 

que desarruma a ordem das certezas, 

dos sentimentos dos outros, 

que fala de coisas comuns que incomodam 

e questionam ___ e questionam 

nem que para isso se exponha e se suicide, 

o artista deve sofrer com o seu acto criativo, 

deve ser feliz na dor absurda da imaginação 

e não ambicionar a riqueza ou o aplauso. 


O artista tem uma criatividade tão forte

como o apelo do corpo a arder e

nisso é um sem vergonha. 

O artista é um criador solitário 

e não um empresário com uma fábrica de arte, 

o artista tem dificuldades e limitações 

e uma ridícula conta bancária, 

o artista é um insurgente 

ainda que isso custe caro mas 

mais caro seria a sua consciência estrangulada. 

O artista recolhe-se na natureza 

seja lá o que isso for de tão vasto o seu significado, 

recolhe-se no silêncio crepuscular, 

incorpora-se na madrugada

não sabendo ao certo contar o tempo. 


O artista tantas vezes rejeitado, criticado, ignorado 

será talvez um dia o orgulho dos seus filhos.



 


Foto do autor do texto 


As palavras na infância 


Caem-me da boca as palavras

como frutos maduros

caem-me as palavras

sobre os actos

e os actos sobre a infância. 

As palavras no som de um búzio 

dizem o meu nome

ao mesmo tempo simples e vulgar

o nome que é a nossa ordem

a nossa natureza

a única coisa que nos foi dada

para sempre

e se transformou em nós 

e se tornou diferente

dos outros iguais. 

Caem-me da boca as palavras 

sobre a infância 

sobre a paz

que de tão longínquas

já ninguém as reconhece.



 


 Foto do autor do texto



Reconheço 


Nunca valorizei

essa palavra

     amor

Quando a ouvia

olhava para

os campos

as flores

as aves 

como se amar

não fosse

coisa com gente. 


Agora

em cada sonho

ponho o melhor de mim

há sempre um amor

por resolver

em cada noite de insónia. 


A solução por agora

é ficar muitos metros

afastado da noite

esperando o outono

para nascer outra vez.