Imagem seleccionada por ChatGPT



O meu dia tem
um quarto do teu dia
a tua vida tem
um quarto da minha vida
na tua ausência 
há um quarto de presença 
a minha mão no teu rosto tem 
um quarto da minha ternura 
está quartado o nosso tempo 
comum
vem ___ fica
comamos este pão quartado
e falemos sobre
a nossa Rosa Cardeal.


 


Imagem de ChatGPT
 



Nos domingos da minha infância 
o sol nascia sempre sobre o meu quintal
eu ficava a olhar o roxo luminoso
das campainhas e o branco dos malmequeres 
que cresciam até à altura dos meus olhos

certos domingos a minha mãe 
aparava-me o cabelo ainda loiro
e as minhas irmãs imitavam a função 
com os seus pequenos dedos em tesoura
no cabelo estopa das suas bonecas

sobre o meu quintal havia
um pequeno quadrado grande de céu 
e eu deitava-me no chão a sonhar
com os olhos cheios de azul ___
___ no meu quintal só faltava o mar

do céu caía um mar de pequenos frutos
amarelos que eu acreditava passarem
por entre a árvore de onde de facto nasciam
jamais esquecerei aquele azul do céu 
que me cabia e era só meu

é curta a longa vida dos artistas
a obra não fica completa
do céu que contemplo agora no catre
onde descanso da minha velha vida
já não há manhãs novas 
nem caem do céu frutos dourados
o cabelo não desponta
e as mães morrem ___ o que é injusto

é trágica a vida dos artistas. 


 

Imagem de ChatGPT



O homem sentou-se ao lado da mulher
e disse
     preciso de ti

a mulher perdeu o sangue na cara 
que ficou cinzenta
e os olhos ficaram-lhe baços 
depois de uns segundos de silêncio 
disse
     tu não és meu filho

o homem pensou
     já não é a primeira vez que fico órfão. 


 


Foto de Daniel Filipe Rodrigues


Soube por mim próprio 
de que doença padecia
e que longo este tempo da doença 
doença que me parecia mais saudável 
do que a saúde dos outros
cuja doença é não estarem doentes

sou órfão desde que nasci
e fiquei órfão várias vezes pela vida fora
conformei-me com a herança 
um segredo 
que me manteve pobre
com ele 
já morreram dois inocentes
que o herdaram dos mesmos pais

dai-me uma razão e eu sobreviverei. 


 


Imagem de ChatGPT 



Tu sabes lá o que é ter oitenta anos
a nostalgia dói mais do que a coluna
parece uma dor que queremos ter
e a coluna que não queremos ter

sabes lá o que são oitenta quilómetros 
sobre ruínas e sob bombas
já debruçado para os oitenta e um
e ter nevoeiro pela frente

sabes lá o que era alguém não ter sapatos 
no início dos oitenta anos ___ quilómetros 
e pedirem-nos uma bucha de pão 
no recreio da primária 

e agora o pão-que-o-diabo-amassou
sobre a secura dos oitenta a pele seca 
das mãos e dos braços e do corpo todo
com oitenta dobras em todas as dobras do corpo

sabes lá o que é ter medo de não dobrar
os oitenta os oitenta e um os oitenta e dois
o medo de ser fechado
no sótão do esquecimento

agora nos oitenta quilómetros ___ anos
já é tarde para cuidar do corpo e do caminho 
voltei a fumar e ainda
sei fazer argolas com o fumo

está no ar o perfume dos crisântemos 
e tenho terra dentro dos sapatos. 




 

Foto de Folha de Pernambuco




As pequenas tartarugas 
a correrem para o mar
um elevador cansado
a gritar com o esforço da subida
os operários com as mãos inchadas
a abrirem as marmitas 
um banco de jardim a envelhecer
já morreu de um lado
camisas num estendal
a agitarem-se de braços abertos
a mulher perante o olhar do homem
a dizer que lhe dói a cabeça 
o pastor a doirar as suas ovelhas
ao sol que é de todos
uma figura de Cristo mais pequena 
que o real e com faltas de tinta
mulheres a rezarem 
com lágrimas em vez de palavras
o escritor escondido sob um ror de papéis 
a corrigir o que lia noutro ror de papéis 
um grupo de homens vestidos de árvores 
em volta de um mapa sem conclusões 

eu que sou como que um apátrida 
como que um furriel da carreira da vida
fico-me a ver o mundo da minha janela
uma bola de fogo ao longe
depois um enorme cogumelo de fumo
e percebo que o mundo ainda está vivo.


 


 




Inesquecível manhã 
tão rara
que ainda existe. 



Foto de Daniel Filipe Rodrigues (fracção) 




Aprecio o apelo ao espírito 
quando os nossos corpos se encontram 
ficam com brilho as tuas mãos 
eu fico cego
e deixo-me guiar. 


 

Imagem de ChatGPT 



Foi em manhãs de 
Outubro
Novembro 
Dezembro 
como se as manhãs clareassem
apenas pela nossa vontade
que tomei o meu calendário que não tinha
mais que três meses
mais que três dias
e decidi três vezes como um acto divino
imitar o Todo Poderoso
manhãs únicas na oportunidade de vida

numa manhã da qual terei o poder
de escolher a cor do céu 
será fulvo como o pôr-do-sol 
e sob ele estarão três nuvens brancas
sentirei o cheiro e o fresco das manhãs 
decisivas

abrirei os olhos para o escuro
e tudo ficará escuro e em sossego. 


 


 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues 



Surpreendo-me com a língua em que falas
os sons
os tempos
as pausas
os significados outros
a largura das palavras 
como um comboio perdido de vista numa curva
como uma história que poderá não ter fim

surpreendo-me com a língua em que falas
como se eu nunca pudesse entender-te
por surdez ou por cegueira ___ como julgas
deve ser por tudo isto
que somos tão breves
um para o outro. 



 

Imagem de ChatGPT 



Este vício de poeta
o sentimento trágico da vida*
a tristeza como musgo agarrado às paredes
o alento ___ a alegria da tua chegada parecia 
que na verdade estiveras sempre aqui ___ invisível
e era assim
a luz da casa a cair da janela sobre
os malmequeres que estavam sempre apagados
o cão já recolhido a respirar o sono
levantava a cabeça e parecia sorrir
não havia luz que chegasse para a noite toda
se tornar dia na luz da pele ___ da tua pele
e a palma da mão ___ da minha mão 
a aproveitar o silêncio 
abrindo o caminho permitido para
desertos lisos
serras gémeas 
declives suaves
arbustos limitados
leitos sem rios
que o teu corpo chegado aqui
ao meu vício de poeta
à tragicidade da minha vida
me fazia respirar o sono como o do cão 
com um sorriso de fidelidade canina
o meu instinto quase adormecido suspirava 
com um som como o do musgo
a crescer nos muros da minha alma
que eu não suspeitava ainda viva
depois ___ muitos anos depois morreste
nunca mais te vi
ou fui eu que morri
nunca mais me viste
e fiquei até tão velho como tu
a consumir sozinho este vício de poeta
com este sentimento trágico da vida 
que já não me lembro com quem aprendi. 

                                                                                
*Miguel de Unamuno

 

Foto de Thomas Rodrigues Kassaye


A porta a bater como um coração 
teimoso com vida própria 
o cortinado inquieto com o vento
que entra por uma nesga sem janela
o amargo na boca
como a língua em salmoura
as túlipas muito direitas
a justificarem a água e o preço 
a visão de mim próprio 
de faca na mão que mata
tal-e-qual os sonhos que tenho

observo

é o meu esforço 
para compreender o mundo
com o mesmo empenho 
com que aprendi a ler. 


 


Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM 




Escuto a roda dentada do tempo
encontro-me dente a dente dentro da noite
um pêndulo no seu vai-e-vem expulsa-me do dia
e ali fico a ouvir os nomes dos que perdi
até ser de novo dia
                        de novo noite
até a luz caber toda no poema
dedicado aos que percorrem a Via-Sacra.



 

Imagem de ChatGPT 



Vou-me embora de nós 
disse eu

fico contigo sem ti
disseste tu. 




 __________________________________




Armando Alves

1935 - 2026



Imagem de ChatGPT 


Encontrei-me sem consciência 
a conversar com Deus
sem preocupações com a verdade ou com o medo  
 
Ele falou como um mistério no meu silêncio 
a mais das vezes não compreendo
as tuas falas
os teus gestos
as tuas dores
quando lavras a terra com a tua língua 
quando numa fonte perdes a sede por entre os dedos
quando dentro de uma laranja encontras uma luz natural
quando um grilo canta contigo na tua própria gaiola
quando começas um poema e é ele que te anuncia

perante o meu silêncio Deus disse-me
saúdo-te por me teres inventado
e isso só foi possível por me trazeres dentro de ti. 

 


 

Imagem de ChatGPT 


Nasci aos oitenta anos
lembro-me de quase tudo
a sensação de sufoco
ao sair dos setenta e nove
a abandonar a penumbra
do espaço temporal onde vivi
bateram-me para chorar
julgavam que eu tinha nascido morto
todos se admiraram
de eu não trazer cordão umbilical

ao ver tanta gente observando-me
constatei que estava nu
roubaram-me tudo ___ pensei
alguém disse ___ como terá sido possível 
ele viver sem ligação à fonte da vida
sei que é perigoso nascer
fora do prazo normal de gestação 

taparam-me completamente 
com um grande pano branco
e foram-se embora
ainda ouvi dizer ___ vai ter vida curta
coitado.