Diz-me o teu código 
dir-te-ei o meu

O meu nome é apenas um código
para que me reconheças
trocarei com o teu o meu nome 
código com código 
quando nos encontrarmos
na fronteira do meu e do teu tempo. 
Quando nos identificarmos
levantaremos as mãos 
como duas pombas e não haverá 
lábios que cheguem para tantos beijos.




 Quarenta anos depois



 





 
 

 

As palavras pesam

Pesam-me as palavras
na boca
na mão 
e nunca são suficientes
como não é suficiente
a paisagem
que persigo nos meus sonhos
onde sempre ando
a perder-me em lugares vazios
outrora com vida. 

Todos partiram na minha ausência 
quando estava acordado ___ 
___ já não podem dizer tudo
o que tinham para dizer. 
Mais palavras que se perdem
os mortos e os ausentes
não falam
ficarei contente quando os reencontrar
quando formos todos bruma. 

Hoje ___ há sol nesta manhã.




 Foto do autor do texto



Vídeo do autor do texto 

 
 
 
 
 
Contemplo a vida
 
 
Tenho sobre a mesa
um sol
um corpo
uma canção 
um grito
um filho
e sobre a mesa 
detenho o meu olhar
contemplo a vida
ora penumbrosa
ora clara
e choro de felicidade 
por continuar vivo.

 

 





 
O teu coração 

Alcança-me aí o teu coração! 

… 

Obrigado! 

Está pesado, parece cheio ___

___ de pedras ou será ___

___ de diamantes? 

… 

Assim, fechado, não consigo ver. 

Toma lá o teu coração ___

___ fico só com o meu!

 






       

Fotos do autor do texto
  


 


 
A minha aldeia, velha aldeia
 
Ainda ficaram pelo chão 
os sons do sino da minha aldeia 
     o murmúrio do estreito rio é um lamento
um fio de fumo na última casa
que se cruza com um traço branco 
que ficou no céu no cimo do imemorial monte
     o chão quase branco do vale 
resta viva uma laranjeira
completa de pontos de cor luminosa
entre a mancha verde escuro. 

 

A velha aldeia já não nasce todos os dias
as grandes cidades mataram
os seus pais e as suas mães. 
 
E a minha cadeira lá fora
sem ninguém.









Foto do autor do texto



Uma flor em qualquer lugar


Uma flor
é uma flor
nos cantos
mais remotos
do mundo
violento
esfomeado
insone
tão bela
tão importante 
como a flor
que nasce
aos nossos pés 
em sossego.
que floresce




Foto de Augusto Rodrigues 



 

Navegam no rio


Os homens procuram

as palavras perdidas

navegam na imensidão fluvial

numa prática errática 

inexperiente 

por ser a primeira 

e única aventura possível 

em tão limitado tempo. 

Remam o dia até à noite

e finalmente acolhem-se

à margem do rio onde nasceram

a mesma margem de onde partiram. 

Não sabem

que não haverá amanhã.