Foto do autor do texto



Tenho que ir


Desculpem o aparato

sei que esta mancha de cor vibrante

será inesquecível por muito tempo


desculpem o exagero

mas não posso pegar no meu corpo

ao colo e ausentar-me


desculpem a solenidade

encontrarão as palavras que vos deixei 

nesta fresta da vossa realidade


desculpem o aparato

será inesquecível mas já não posso

usar as palavras e dizer


canto

sangue 

dor 

perdão 

amanhã 


tenho que ir

já tenho alguém sentado em mim

cansado de esperar.



 




Um conselho


Joga matraquilhos meu filho


dizia-me o meu pai

com o azedume de ter perdido o futuro


Vê ao que eu cheguei e só jogava xadrez


Pai ___ não tenho moedas

respondi.




Foto do autor do texto



Abraço-me


Abracei o meu corpo 

abandonado

tive direito a lua cheia nessa noite

a luz branca pela minha janela dentro

projectou no chão uma sombra

desconhecida

eu era um relógio de chão 


uma nuvem apagou a lua

e eu voltei a ficar no meu corpo

abandonado

à cadência do tempo ___

___ todo o meu quarto eram estrelas.



Foto de Julia da Fonseca - Leiloeira publica






Azul


Por que nunca me disseste

que o azul

era a tua cor preferida? 

isso teria feito de nós 

dois constantes amantes


Foi uma pena

agora acordo às sete da manhã 

e tudo está vermelho.


 

 


Foto do autor do texto 


Um momento mínimo 


Há um momento mínimo da madrugada

em que um homem põe o seu coração a prazo

e abandona o corpo ao ciclo do desânimo 

um momento mínimo da madrugada em que

um homem fala com o seu único ouvinte

     nada a dizer sobre o dia desejado

     nada a dizer sobre as crianças órfãs 

     nada a dizer sobre o livro que deixou a meio

     nada a dizer sobre a planeada fuga para Casablanca

     nada a dizer da falta de memória de um corpo estrangeiro


um homem num momento mínimo da madrugada sente-se

um ser vivo abstracto e pendura na sua realidade

um cartaz onde inscreveu uma mentira

     Volto já



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Estou vivo


Não tenho fome nem sono

ouço dizer que

sou uma pessoa sossegada


não como nem durmo

a minha dúvida é 

se ainda estarei vivo

_________________


sim ___ estou

ainda respiro

e assustei os que me olhavam.



 




Parabéns 


Corto com uma tesoura

o que resta da minha língua ___

___ tão gasta

esta será a minha prenda de aniversário 

que te enviarei pelo correio


assim

pela última vez te cantarei

a insuportável canção ___ 

___ "parabéns a você" ___

sem a minha indesejável presença.



 

Foto do autor do texto



Arrependo-me


No início era o espaço 

um projecto

depois as minhas memórias 

tornaram-se uma construção frágil 

na sua estrutura 

nem o amor consolidou as paredes


___ as velhas vidas 

são como o musgo

não há história nova

que torne salubre 

o espaço ocupado por 

palavras 

beijos

gritos

choros

despedidas


ou seja

amo uma ilha e ali fico

a construir mais uma memória 

frágil 

enquanto a cidade me esquece

e assim me torno desconhecido

___ um malogrado construtor

de memórias  


lanço à lareira acesa

os dez volumes do meu diário 

e arrependo-me depois

nem sei bem de quê.