Foto do autor do texto



Nunca pelo mesmo caminho 


Não podemos regressar pelo mesmo caminho

as marcas que ficaram 

não coincidem com os nossos novos pés 

por isso não nos reconhecerão

e seremos presos à chegada.





Foto do autor do texto


Escrevo com os olhos


Atravesso a parte mais fria

com um dedo apenas

lado a lado do teu peito

como o gume de uma faca

o lugar mais frio

é a parte do mundo

que trazes nas costas do teu peito

que é o lugar mais liso

da tua existência 


é aí que acomodo o meu caderno

e escrevo com os olhos

um poema sem palavras. 



 


Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Paixões 


As paixões são feitas 

de vácuo 

de brisas musicais 

de sorrisos como espasmos 


depois é o silêncio 

o desencanto

o choro oculto


não desejo a paixão 

mas reconheço 

que é um acontecimento 

de grande beleza.



 

Foto do autor do texto



Um dia


Apagaram os meus poemas

os meus futuros poemas

guardei no entanto

as palavras e as cores 

um dia

quando estiver sozinho 

e a salvo

volto à poesia

e então 

vou escrever poemas 

de todas as cores.



 




A verdade


Houve um tempo

em que tudo era verdade

as falas

os olhares

os gestos

os tempos

a luz

o amanhã o amanhã o amanhã 

e por aí fora


houve um tempo

em que o meu pai sabia tudo

de verdade

o meu pai era todo o mundo

a sua voz era maior

que a voz dos outros

espantei-me um dia


veio a primeira dúvida 

e tive que matar o meu pai

ficando ele vivo ao meu colo

com as dúvidas aprendi

que somos ilhas e crescemos

com as nossas descobertas

nas viagens a outras ilhas


perdi o meu pai

mas encontrei-me.



 




Os nossos mundos


Pinto e escrevo a forma do meu mundo

o meu mundo inventado


não o teu mundo real


com o meu mundo falo e ouço 

o que ele me diz

no teu mundo todos falam

ao mesmo tempo e ninguém escuta


morri nesse teu mundo

no meu nasço todos os dias.





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Fernando Grade

Um Amigo

1943 - 2024



 

Foto do autor do texto



Poemas do passado


 

Viena


Na verdade quando me fui embora

não consegui sair do mesmo lugar

tudo me foi permitido

até o arrependimento 

as minhas mãos estiveram 

dentro de um corpo de que me esqueci


estou em Viena e chove

deixo na caixa do correio

daquela grande porta verde

uma carta que diz apenas

     Adeus Viena

     levo-te comigo

     Setembro 1931


estou em Viena e chove

é tarde todos os bares estão fechados

cuspo o resto do tabaco

e regresso ao hotel


em 1960 num dia de Setembro

alguém tornará a abrir aquela carta

e dirá para si própria em voz alta

     Partiste mas tenho a tua foto

     ainda pendurada na parede da memória 

     ainda estás em Viena e chove. 


Viena 1931



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues




Os teus e os meus olhos

Quando digo 

tu

é como se dissesse 

eu

e todo o medo nos teus olhos

é o medo que escurece os meus.





Foto do autor do texto




Há luz nas tuas mãos 


Vejo a tua mão esquerda 

vibrando nas cordas do violoncelo 

e penso com que palavras 

escreves a tua música 

que luz trazes nas mãos 

como é límpida a tua voz no arco

tens a alma vestida de nuvens


é clara a mensagem

e recebo-a em silêncio 

para que não te esqueças de mim

deixo sobre a mesa

uma maçã para ti.