Deus ficou aberto de alto a baixo

das suas entranhas secas jorraram torrentes de lágrimas 

e ventos devastadores arrastaram os que o criaram

estes ajoelharam e rezaram

choraram pelas sirenes de bombeiros

o senhor Noé dono da carpintaria ao fundo da minha rua

começou a construir um barco. 




 

10 comentários:

  1. A poesia bíblica, ao abordar emoções intensas, demonstra que, claro, NOÉ também precisa de uma boa terapia de grupo.

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  2. Não há entendimento que chegue ao que é divino, somos apenas humanos e do ilimitado sabemos nada. Quanto ao senhor Noé da carpintaria, pelo menos fez alguma coisa com as armas que tinha, trabalhou no que sabia.

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    1. Divino é o que podemos dizer dos humanos (apenas alguns) que arriscaram trilhar o caminho da arte.
      "... ser artista é falhar como ninguém mais ousa falhar, pois o fracasso constitui o seu universo" como disse Samuel Beckett.
      Um abraço

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  3. Andaram insatisfeitos com a seca e pediram a todos os santinhos um monte de vezes pela chuva e vieram resmas de baldes de água!
    Os politicos gastam o seu tempo a dar palmadinhas nas costas aos que sofreram numa guerra vergonhosa entre eles até o"megafone V" a carregar garrafas de água que ficou cansadinho e fugiu! Nestas alturas quem dá a maior ajuda é o povo no qual me incluo.
    Diz ao senhor Noé que tenha cuidado na fabriqueta do barco
    O pior ainda está para vir quando apresentarem a São Pedro as facturas da água, luz, gás e comunicações!
    Um abraço 😁

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    1. Que comentário interessante na sua análise e bem humorístico nas expressões usadas, nomeadamente na definição do "fachoportunista".
      Obrigado.
      Um abraço.

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  4. Caro Poeta/Pintor
    Este poema é breve, mas muito incisivo , e fiquei muito comovida.
    O tom sarcástico nasce sobretudo da inversão poderosa: não é Deus quem castiga, mas um Deus rasgado, seco por dentro, que chora em excesso.
    Essa imagem inicial é forte e perturbadora, quase corporal, e dá logo a medida da violência das tempestades.
    Há aqui uma crítica subtil à ideia de punição divina, porque “os que o criaram” acabam por ser os arrastados ou seja, a responsabilidade recai sobre o humano.
    O quotidiano entra com precisão emocional: as sirenes dos bombeiros substituem os sinos das igrejas, e o choro torna-se real, concreto, não metafísico.
    O fecho, com o “senhor Noé dono da carpintaria ao fundo da minha rua”, é particularmente feliz: traz ironia, sim, mas também desespero e memória bíblica, como se a história se repetisse sem que aprendêssemos nada.
    É um poema que comove porque não grita; observa.
    E nessa observação há uma dor lúcida, quase contida, que torna o sarcasmo humano, não cruel.
    Uma leitura muito actual e muito portuguesa da tragédia recente.
    Uma análise que me dá uma sensação de desconforto, pois as imagens que tenho visto na TV, deixam-me muito triste.
    Bom Domingo
    :(

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    1. Gostei deveras deste seu comentário tão detalhado. É muito valioso para mim ler estas palavras tão esclarecidas, são um estímulo e correspondem à mensagem que quis partilhar com os/as leitores/as.
      Muito Obrigado.
      Boa semana que aí vem.
      Um abraço.

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