NOTÍCIA NOS JORNAIS
Detidos vinte e cinco indivíduos, homens e mulheres, todos nascidos no mês de Abril em anos diferentes, por proferirem ou escreverem palavras obscenas comofomepãoexploraçãosexocuriosidadeculturaliberdadeesperançaestas e outras palavras e expressões que foram agora declaradas inexistentes por fomentar a agitação, a descrença e a revolta.Interrogados os indivíduosfoi descoberto que um homem e duas mulheres tinham um plano para construir um jardim clandestino nas traseiras das suas casasum homem confessou continuar a ter curiosidade pela anatomia íntima da mulhera dois homens foram descobertos esboços para uma pintura na empena de um prédio com mensagens de recepção amigável a gente estrangeiraa uma mulher foram apreendidos vários exemplares de um opúsculo com poemas de significado social implícito e com capas de cor vermelhadois casais informaram não ter inscrito os seus filhos na respectiva paróquia com vista à frequência das aulas de catequese, facto agravado por as crianças não terem sido baptizadasuma mulher declarou ter perdido a esperança na humanidade.Todos os detidos viviam em regime de mancebia apenas com autorização lavrada na conservatória do registo civil.Nas palavras declaradas inexistentes não se incluiu a antiga palavra AMOR desde que pronunciada ou escrita com a grafia A MOR que significa superioridade hierárquica. Com benevolência se permite a utilização desta forma (A MOR) menos explícita, para indicar algo que tenha um afloramento sentimental que, sem exagero, poderá ser tolerado.Os detidos prestaram as suas declarações, sem necessidade de meios coercivos, por estarem convencidos da justeza e bondade dos seus actos. Assim sendo, foram distribuídos por várias zonas do país para executarem trabalhos de interesse do Estado (apanha da pêra rocha, varejamento das oliveiras, tosquia de gado, limpeza de igrejas e cemitérios, experimentação laboratorial de produtos farmacêuticos, etc.) num processo de substituição dos indivíduos oriundos de outros países, que executam essas tarefas, para onde serão recambiados a custas dos países de origem.Bem entendido que não poderão contactar-se entre si ou com outros detidos tomando as suas refeições e dormindo em espaços limitados a um só indivíduo com instalação sanitária básica ao nível do solo.A todos os que vivem neste nosso país, os detidos se sentirão reconhecidos, por ser o nosso povo a custear a sua sobrevivência em serviços para o bem da nação e com respeito pelos princípios da convivência pacífica com os nossos aliados internacionais.

Confesso que estou com dificuldade em encontrar palavras para comentar, L.
ResponderEliminarTodas as que me ocorrem parecem-me demasiado pobres, demasiado banais, demasiado pequeninas....
Um forte abraço
Este seu comentário é bastante explícito.
EliminarMuito Obrigado.
Um abraço.
Bom dia Poeta!
ResponderEliminarPor este andar estamos a regressar a tempos passados.
Um País desgovernado e sem futuro risonho à vista!
Um abraço e bom domingo.
Emília
Estamos a regressar a um tempo de má memória e mais grave porque legítimado, também, por uma maioria que é a que mais sofre.
EliminarBom domingo.
Um abraço.
De 8o a 86 este país estava desgovernado e daí para a frente é tudo a lutar pelo poleiro e corrupção. Este governo pelo menos para mim é dos piores e muitos nabos que são faziam uma bela horta!
ResponderEliminarBeijos e um bom dia!
Gostei da ideia dos nabos.
EliminarUm abraço.
Se invertesses essa amarga ironia,
ResponderEliminardiria
que teu texto
é um bem argumentado
MANIFESTO
Assino por baixo
Manifesto-me de uma forma a que só a ironia, como recurso estético, pode eventualmente dar algum interesse ao texto.
EliminarInteressant poema que se refere a uma notícia ficcional sobre detenção de pessoas nascidas em abril por palavras obscenas.
ResponderEliminarNem mais.
EliminarBrilhante na ironia e lúcido quanto à ameaça. Precisamos de si, mantenha-se com saúde e inspiração. Eu vou dizer amor todos os dias enquanto me lembrar deste seu texto.
ResponderEliminarEnquanto puder "vou andar por aqui", como alguém disse antes de mim. Obrigado pelo estímulo.
EliminarUm abraço.
Estamos na corda bamba...sem rumo... náufragos num deserto de ideias...
ResponderEliminarÉ bom saber que há ainda quem saiba escrever a palavra amor com todas as letras no lugar...~
Beijos e abraços
Marta
Já estamos na resistência.
EliminarUm abraço.
as ameaças às palavras proscritas pairam no ar.
ResponderEliminarresistência. resistência. resistência
Abraço
Foi exactamente o que eu disse no comentário anterior por estar de acordo consigo.
EliminarUm abraço.