Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



À CHEGADA VINHA SÓ EU. 

“... eu cá vim a pé o tempo não estava de feição…”
Jacques Prévert


Rio-me discretamente quando me dizem que somos
descendentes de navegantes
eu, que nem sei nadar nem seria capaz de me deixar aprisionar 
num cruzeiro como se estivesse em residência vigiada. 
Não devemos ser todos assim, com medo do mar como eu, 
descendente de uma doméstica e de um empregado no comércio 
numa linhagem da mais pura vulgaridade
com artistas, alcoólicos e loucos nos antepassados. 
Agora é assim fazemos juízos de tudo e de todos
com a grande possibilidade de erro 
por não conhecermos as pessoas e elas se oferecerem
intencionalmente à nossa observação. É um equívoco provocado. 
Já não conhecemos ninguém a não ser pelas televisões 
e só as avaliamos pelas suas máscaras. 
É desolador, a vida toda cheia de actores e só agora vejo que 
também participei no espectáculo mas, o que é certo, 
é que já ninguém se lembra de mim, morreram todos. 
Por tudo isto vim a pé o tempo não esteve de feição. 



2 comentários:

  1. Resumo curto: O poeta chegou a pé e o tempo estava mau.

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  2. Que andemos a pé e sem máscaras, não é preciso navegar para chegar longe.

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