Diz-me que em fevereiro ainda teremos
em comum o nosso calendário
ainda que lhe apaguemos uns dias
anoiteça cedo em outros
e a algumas noites sucedam outras noites

os nossos fevereiros de para sempre
serão irrecuperáveis se não houver
mais roupa estendida lá fora
e leite a aquecer no bico de lume
das nossas manhãs 

diz-me que em fevereiro estaremos de volta 
mesmo que neve sobre fevereiro ___ o nosso 
e mesmo que os sons das crianças a brincar
sejam só na nossa imaginação 
a preencher metade do nosso passado

pensando bem não mais me dirás 
que temos um fevereiro comum
e que este fevereiro passado será 
no meu futuro calendário o mês maior
e a fevereiro sucederá outro fevereiro.


 


12 comentários:

  1. Dois sentidos: continuidade (persistência) e memória.

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  2. O Fevereiro deste ano será inesquecível para todos os portugueses que o viverem. Mas há sempre mais para lá dos cataclismos naturais: a uns calham alegrias e esperança e a outros um céu de chumbo. É a vida.

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    1. O céu de chumbo é o que está aqui por cima. Uma desolação.
      Um abraço.

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  3. Este Fevereiro está a limpar as obras dos INGINHEIROS que ao longo dos anos aprovaram construções e nas antigas só fazem remendo
    e o que sobra metem no bolso o povo que se amanhe! É uma tristeza!
    Beijos e um bom dia!

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  4. Um poema de fevereiro que é, afinal, um poema de memória e de ausência.
    Tocou-me essa ideia de um “calendário comum” que se desfaz no tempo , delicado, melancólico e muito humano....

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  5. Pouco importa o mês... é estar vivo e saber viver cada momento... mesmo que haja lágrimas...que fazem parte da vida e da memória...
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Fevereiro dá jeito por as despesas serem mais curtas.
      Um abraço.

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  6. Caro Poeta/Pintor
    Gostei muito da forma como Fevereiro surge aqui como metáfora de um tempo partilhado íntimo, doméstico, quase sagrado.
    As imagens da roupa estendida e do leite ao lume trazem uma ternura quotidiana que contrasta com a consciência da perda e da irreversibilidade.
    Esse “calendário comum” que deixa de o ser é uma ideia belíssima e dolorosa.
    O fecho, com a repetição de Fevereiro no futuro, reforça essa sensação de ciclo que continua, mas já nunca igual.
    Um poema subtil, nostálgico e profundamente sensível.
    :)

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    1. Muito interessante o pormenor da sua análise. É um gosto ler e reler os seus comentários e voltar a ler o meu escrito.
      Muito Obrigado.
      Um abraço.

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