Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Suponho que te moves
que acendes a luz sobre a casa
suponho que são teus
os passos que ouço 

és tu

não sabes então que
já não moro nesta casa
que deixei tudo como estava
em nossa memória ___ por respeito 

mas ficou por nascer o nosso filho

suponho que chove em volta
da casa que foi nossa
sabes que nunca gostei da chuva
que isso me impedia de fumar lá fora

ia-me com o fumo

suponho que apreciarás
o ar puro pelas janelas abertas
os cortinados com vida
a brisa ___ a vida ondulando

sem vida

suponho que fecharás
o livro que esqueci aberto
suponho que encherás um saco preto
com o resto da minha roupa

e que lhe darás destino

suponho que te sentarás a pensar
no que já parece antigo
mas que foi ontem ___ incrédula 
com o passar do tempo

sem tempo agora

suponho que acharás 
que estou longe aqui mesmo
e ambos pensaremos se ainda
será possível a poesia. 


 


1 comentário:

  1. O poema funciona como um espelho e um mapa aberto, onde o significado final só se completa no encontro com a mente de quem o lê.
    A fotografia é linda de morrer.

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