Foto de Daniel Filipe Rodrigues 

Fala-me de tudo
da cor da casa onde aprendemos a ler
do cheiro da tinta e das madeiras da sala
do guincho do giz naquele negro da parede
dos risos agudos e da voz forte de quem mandava
dos castigos nas mãos a arder em lágrimas 
dos descalços e da sua fome no recreio
da partilha do nosso pão com eles
de ti ao meu lado dias e dias

nunca te vou abandonar ___ disse-te

e hoje já nem me lembro do teu nome

bastou o aroma ao afiar um lápis 
e abriu-se-me a memória 
como aquele sino a tocar para a entrada. 







Vou desenhar a dor
disse o artista 

sentiu que a dor lhe tomava conta dos dedos
era fraca ___ ainda ___ aquela dor
o artista acolheu a sua dor como o acto criativo
temente de que não fosse suficientemente rápido 
para lançar no suporte a dor que tomava forma 
no seu corpo as suas mãos brilharam
como artista pensou na sua dor
como uma flor a despontar sobre o branco

e disse
que a cor seja negra 

e pintou de negro a sua dor que aos poucos 
se fez fogo nas entranhas do artista ___ 
___ e pensou
é sob este fogo que o escultor trabalha o mármore 
e o poeta alinha as palavras

tocai músicos 
as labaredas com que ardem os artistas na sua dor
disse o artista.


 


Foto do autor do texto


O Sol deixou um traço 
no chão do meu quarto
foi a parte de luz
que me coube. 




Imagem de ChatGPT


Tal como a pele das nossas mãos 
a pele do nosso cérebro já não tem
a elasticidade de outros tempos
agora
de tudo o que o magoa 
dificilmente recupera. 




Imagem de ChatGPT



Barcos
fazem caminho pela minha janela
cruzam o mundo
de um lado para o outro. 




Foto do autor do texto



Um lápis branco e um lápis preto
contemplam uma folha de papel
diz o lápis preto para o lápis branco

não dizes nada que se veja 

diz o lápis branco para o lápis preto 

mas eu tenho em mim 
todas as cores do mundo. 




 

Imagem de ChatGPT 



O Natal é a antecâmara onde esperamos para entrar
numa sala cada vez mais pequena 
onde vamos viver trezentos e sessenta e cinco dias. 



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Desejo as todas as minhas leitoras e a todos os meus leitores
uma noite de Natal luminosa plena de belos cânticos 
como se houvesse paz em todo o mundo
e que amanhã seja dia com um sol dourado. 




 

Foto do autor do texto 



Mulher ___ obrigado 
pela dádiva de hoje
a carne 
macia ___ perfumada
o pão 
cozido pelas tuas mãos ___ decididas
o vinho 
de cor sanguínea ___ caloroso
e o silêncio recolhido
pela voz do teu olhar

há dias assim ___ um tempo de ouro
obrigado.

 


 




Esta é a criança 
que os favores do mundo
tornaram homem
a minha vida mudou de mãos 
tantas vezes ou tão poucas
que em cada lugar
ficaram resíduos de ouro do que ouvi
hiatos da minha respiração 
vidros de cor das catedrais que já vi
esta ainda é a criança 
e o seu plangor

são tão longas as noites
que entram pelos meus dias dentro. 


 


Foto de Daniel Filipe Rodrigues


Os poetas
se não tiverem quem lhes dê a mão 
esmagam-se entre duas páginas.







O homem acha que tirar a vida a si próprio 

é desperdiçar a sua vida 

que sendo pobre ainda é valiosa

perante este pensamento o homem decide

matar a fome para continuar vivo. 




Imagem de ChatGPT 




Em toda aquela agonia o homem derramou
sangue no seu lenço branco
e isso durou vários dias até o homem morrer
e deixar vermelho de sangue todo o lenço 
o seu filho homenageou o seu pai
fazendo do seu lenço uma bandeira.



 

Imagem de IKEA


Que de tantos mortos pela Terra
tão poucos ossos se encontram
apenas se contam os 
identificados
classificados
acomodados
nas suas tumbas
e o que se vê é que tanta terra
haja ainda para engolir
homens
mulheres
crianças 
não contando os ardidos
feitos desenhos no vento

que das barrigas da humanidade
se recomponha a humanidade 
em partos de luz e paz
e que se dê seguimento 
à inexplicável invenção nunca inventada 
e sem início infalível que se saiba
deste universo sem medida
mas tão importante como
a orquídea do meu jardim.

 



Ao som de Keith Jarret
só eu a jantar e Keith a tocar 

vem Keith senta-te à minha mesa
não toques em nada a não ser
no teu piano nas teclas negras
da minha sensibilidade
ouço-te com qualquer ementa
estou sozinho contigo

nem sempre temos com quem partilhar
a refeição que coube a cada um
mulher 
como eras bela nos momentos de êxtase. 




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Guilherme Parente
1940 - 2025
Foto de Espaço DOCAS



Imagem de ChatGPT


A minha poesia é como um rio
entre as margens
da euforia e do desalento 
do pecado e da bênção 
do desejo e da rejeição 

os meus poemas 
depois de se calarem 
afogam-se aos poucos
como se fossem escritos
em barcos de papel. 




 

Foto do autor do texto




                                      Ser poeta não é uma ambição minha. 
                                        É a minha maneira de estar sozinho.
                                                                                                Alberto Caeiro 
                                                                                                                            
                                                                                                                                      


Na verdade
tenho o silêncio sentado ao meu lado
é por isso que não falo
afinal o silêncio é nada
por isso escrevo

o que existe mesmo
na lonjura que toda a realidade
ganha na construção do solitário 
são as duas laranjas ao fundo
da minha oficina de poesia. 


 




A ausência preenche todo o espaço 

como se nada fosse tudo

bravos os que ainda transportam em si
sonhos que já foram realidade

como se tudo fosse nada. 







O meu corpo move-se entre o dia e a noite
e assim sou outro a cada movimento 
vejo tudo em volta entre o claro e o escuro
dia
noite
dia
noite
e a tudo lanço o olhar 
que de tão longe o lançar 
perco os olhos muitas vezes
dantes trazias-me os olhos nas mãos 
agora deixas-me cego
desta vez os olhos ficaram-me magoados. 




Imagem de ChatGPT



Ainda não somos uma jangada de pedra
ou somos? 
gritam todos 

alguém pergunta
um almirante que baloiça nas águas 
para a esquerda e para a direita até ao enjoo
que se perfila como comandante
é isso que define que nos encontramos à deriva
desacostados do cais da Europa? 

no burburinho do pânico uma voz se levanta
esse é o homem certo 
para apresentar o Preço Certo! 
aplausos

estamos a navegar à vista
nem a poesia nos mostra o norte.




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Gosto das cidades nocturnas
gosto das cidades diurnas
gosto das cidades
gosto das cidades que cabem dentro da minha aldeia
tal como
gosto de ti à noite 
gosto de ti de dia
gosto de ti
gosto de ti quando cabes dentro de mim. 


 


Foto do autor do texto 



Falo-vos de um caso insólito 
encontrei na minha rua
um poema sem abrigo
magro
sujo
andrajoso
incapaz de se expressar correctamente 
por falta de algumas letras

passei-o a limpo
vestindo-o com novas letras
e todas aquelas necessárias 
para permitir a sua fala

agora colo o poema 
pelas paredes da cidade
para que todos o recolham
e lhe dêem permanente abrigo.

 




Deixaste-me no chão o pão do dia
dobram-se-me as pernas ___ ajoelho
e faço uma oração por ti
uma reza de maldição 

Abram-se o Céu e a Terra
que os Mares te dêem o coberto
da tua casa no monte
que um vulcão irrompa 
no teu dorso e o lume
te ilumine os cabelos até à raiz 
assim correrás de joelhos
até à fenda desmedida
da Jangada de Pedra
e que a boca da terra te receba
como pão seu alimento
assim seja. 

Obrigado pelo pão.