Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



À CHEGADA VINHA SÓ EU. 

“... eu cá vim a pé o tempo não estava de feição…”
Jacques Prévert


Rio-me discretamente quando me dizem que somos
descendentes de navegantes
eu, que nem sei nadar nem seria capaz de me deixar aprisionar 
num cruzeiro como se estivesse em residência vigiada. 
Não devemos ser todos assim, com medo do mar como eu, 
descendente de uma doméstica e de um empregado no comércio 
numa linhagem da mais pura vulgaridade
com artistas, alcoólicos e loucos nos antepassados. 
Agora é assim fazemos juízos de tudo e de todos
com a grande possibilidade de erro 
por não conhecermos as pessoas e elas se oferecerem
intencionalmente à nossa observação. É um equívoco provocado. 
Já não conhecemos ninguém a não ser pelas televisões 
e só as avaliamos pelas suas máscaras. 
É desolador, a vida toda cheia de actores e só agora vejo que 
também participei no espectáculo mas, o que é certo, 
é que já ninguém se lembra de mim, morreram todos. 
Por tudo isto vim a pé o tempo não esteve de feição. 



10 comentários:

  1. Resumo curto: O poeta chegou a pé e o tempo estava mau.

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  2. Que andemos a pé e sem máscaras, não é preciso navegar para chegar longe.

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  3. Todos somos esquecidos...todos fazemos juízes de valores sem olhar verdadeiramente para dentro...
    Navegamos em águas turbulentas, mas é possível viajar por águas calmas e reencontrar-se...
    Beijos e abraços
    Marta

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  4. Tens toda a razão mas meu amigo a história repete-se com políticos que só que querem poleiro! Gosto muito do mar mas jamais entrar num barco iria sim a nadar! Tenho a esperança que mais dia menos dia tudo voltará à normalidade.
    Beijos e uma boa tarde

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  5. Também sou uma filha de ninguém, nasci e cresci longe do mar e creio, como Sophia, que metade da minha alma é maresia. Coisas.
    Parece-me que as mostras hoje excedem e muito o domínio da tv.
    Boa noite

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