Foto de Daniel Filipe Rodrigues 



A professora a meio da tarde
apontando no quadro 
as palavras difíceis 
e difícil para mim
era o meu pai no hospital

o silêncio em casa
a televisão e a telefonia proibidas
pela minha mãe 
a autoridade
a dor
o medo
o respeito pela ausência 

eu sem saber 
se o meu pai voltava
e quais as palavras mais difíceis 
quando eu rezava calado
pelo meu pai
que não eram as mesmas
que a professora escrevia
no quadro a meio da tarde

quase horas de regressar a casa
a meio da tarde
também era meio da tarde
no hospital
e o meu pai sem regressar

afinal o meu pai estava a morrer
outra vez ___ nunca me habituei
nada é mais assustador
do que a morte do pai. 



 

23 comentários:

  1. Poesia sobre a distância entre escola, casa e hospital.
    A voz da professora e as palavras no quadro contrastam com as palavras que o eu-poético usa em oração silenciosa.
    A fotografia é uma forma de demonstrar que a morte do pai é o tema central, o maior susto, a falta de habitar o mundo sem ele.

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    1. Tenho muito apreço pelos comentários dos/das meus/minhas leitores/as. As interpretações são valiosas para o autor que, não raramente, relê aquilo que publicou.

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  2. Bom dia Caro Poeta/Pintor
    O poema constrói-se a partir de um contraste muito poderoso: o da aprendizagem formal (“as palavras difíceis” no quadro) e a aprendizagem emocional imposta pela vida (“o meu pai no hospital”). Essa dualidade é o seu eixo central, enquanto a professora ensina palavras, a criança confronta-se com aquilo que não tem linguagem suficiente para nomear: o medo da perda, a fragilidade do pai, a autoridade silenciosa da mãe.
    A repetição de “a meio da tarde” funciona quase como um relógio emocional, marcando um tempo suspenso, onde tudo acontece em paralelo, a aula, o hospital, a espera. Esse recurso reforça a sensação de impotência: o mundo continua, mas para o autor tudo está parado na mesma inquietação.
    Particularmente forte é a ideia de que “as palavras mais difíceis” não são as do quadro, mas aquelas que se dizem em silêncio, na oração, no medo contido. Aqui, o poema atinge um ponto de grande maturidade: mostra que há experiências que ultrapassam a linguagem ensinada, exigindo uma outra forma de compreensão, mais íntima e dolorosa.
    O verso “o meu pai estava a morrer / outra vez nunca me habituei” introduz uma dimensão quase cíclica da perda , como se a morte fosse uma presença repetida, nunca assimilada. Esse “outra vez” é devastador, pois sugere não apenas o acontecimento, mas a memória dele, a sua permanência.
    O fecho “nada é mais assustador / do que a morte do pai” é directo, quase seco, e por isso mesmo extremamente eficaz. Não há metáfora que suavize: há apenas a verdade, dita sem protecção.
    É um poema que não procura adornar a dor, limita-se a mostrá-la. E é precisamente nessa contenção que reside a sua força.
    Um trabalho poético de grande intensidade que me comoveu até às lágrimas.
    Deixo um abraço.
    :(
    https://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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    1. Muito interessante e completo este seu comentário. Diria que é tão emocional como o próprio texto que mereceu a sua pormenorizada atenção. É um gosto e a justificação da existência deste espaço.
      Muito Obrigado.
      Um abraço.

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  3. Os comentários ao poema fazem análise exaustiva e pormenorizada do mesmo. Portanto, eximo-me a tal. Digo que me lembrou um pouco alguma escrita de Lobo Antunes, não sei onde exactamente, mas a toada geral tem assim um eco que me fez lembrá-lo. De resto, o receio da perda é esse "esparvoamento" tão presente que elide e retira importância a tudo o mais.
    Bom Dia!

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    1. O seu comentário é, para o autor, muito útil também. Lobo Antunes é, decerto, uma influência mesmo que inconsciente.
      Um abraço.

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  4. Parece impossível que a vida continue indiferente ao nosso sofrimento. Senti isso muitas vezes, compreendo tão bem este poema. Parece que fazemos as mesmas coisas mas com um vazio lá dentro e nada do que acontece nos parece real. Um poema tocante.

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    1. Um vazio que só nos ocupa a nós no nosso interior.
      Um abraço.

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  5. „A análise literária funciona como uma faca de dois gumes: pode ser um mecanismo de cura e entendimento profundo (biblioterapia) ou um agente estressor que leva à exaustão emocional, dependendo do distanciamento crítico e da carga emocional da obra.„

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    1. Pelo que me parece, isso é o que pode acontecer ao crítico. Certo?

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  6. Este poema toca pela sua simplicidade desarmante e pela forma como cruza o quotidiano escolar com o medo profundo da perda.
    A repetição de “a meio da tarde” cria um eco emocional que liga dois mundos, a sala de aula e o hospital, revelando como, para a criança, o tempo deixa de ser neutro e passa a ser carregado de angústia.
    É um texto triste, mas de uma verdade muito clara e sentida....

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    1. As marcas ficam e reaparecem, de quando em vez, muito depois do tempo da escola e da morte do pai.
      Obrigado pelo comentário, tão emotivo
      Um abraço.

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  7. Sim, é estranho perder o pai .
    Perdi o meu também. E ainda não me habituei.

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  8. As palavras difíceis que a professora aponta no quadro
    estão desfasadas com o sofrimento relacionado ao
    facto de o pai se encontrar no hospital.
    Duas realidades diferentes e que não há meio de terem
    um ponto de apoio.
    Poema muito emotivo.
    Um abraço
    Olinda

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  9. Não há nada pior do que a partida daqueles que amamos.
    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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    1. Partilho da sua opinião.
      Saúdo a sua vinda e o seu comentário.

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  10. Olá, Luís!
    Passei por aqui para agradecer o miminho que encontrei na caixa do correio. Lindo, lindíssimo nos seus tons primaveris. Obrigada!
    Claro que li o poema acima, e entendo a dor que o poeta sente, porque a sinto há 28 anos. Uma dor que não passa, uma saudade sem fim. Comovi-me com os seus. Não é a primeira vez.
    Um beijo. Muita saúde, poeta/pintor.

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  11. Comovi-me com os seus versos. Não é a primeira vez... que «como» palavras.

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    1. É uma dolorosa situação que toca a todos.

      É um gosto enviar um postalzinho aos amigos.
      Um abraço.

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  12. Uma homenagem a seu pai. Comovente, meu Amigo Luís. Eu perdi o meu aos sete anos. Nunca esqueci o dia.
    Tudo de bom.
    Um beijo.

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    1. Nunca esqueceremos embora o tempo vá esbatendo os factos.
      Um abraço.

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