Foto de Daniel Filipe Rodrigues
A professora a meio da tardeapontando no quadroas palavras difíceise difícil para mimera o meu pai no hospitalo silêncio em casaa televisão e a telefonia proibidaspela minha mãea autoridadea doro medoo respeito pela ausênciaeu sem saberse o meu pai voltavae quais as palavras mais difíceisquando eu rezava caladopelo meu paique não eram as mesmasque a professora escreviano quadro a meio da tardequase horas de regressar a casaa meio da tardetambém era meio da tardeno hospitale o meu pai sem regressarafinal o meu pai estava a morreroutra vez ___ nunca me habitueinada é mais assustadordo que a morte do pai.

Poesia sobre a distância entre escola, casa e hospital.
ResponderEliminarA voz da professora e as palavras no quadro contrastam com as palavras que o eu-poético usa em oração silenciosa.
A fotografia é uma forma de demonstrar que a morte do pai é o tema central, o maior susto, a falta de habitar o mundo sem ele.
Tenho muito apreço pelos comentários dos/das meus/minhas leitores/as. As interpretações são valiosas para o autor que, não raramente, relê aquilo que publicou.
EliminarBom dia Caro Poeta/Pintor
ResponderEliminarO poema constrói-se a partir de um contraste muito poderoso: o da aprendizagem formal (“as palavras difíceis” no quadro) e a aprendizagem emocional imposta pela vida (“o meu pai no hospital”). Essa dualidade é o seu eixo central, enquanto a professora ensina palavras, a criança confronta-se com aquilo que não tem linguagem suficiente para nomear: o medo da perda, a fragilidade do pai, a autoridade silenciosa da mãe.
A repetição de “a meio da tarde” funciona quase como um relógio emocional, marcando um tempo suspenso, onde tudo acontece em paralelo, a aula, o hospital, a espera. Esse recurso reforça a sensação de impotência: o mundo continua, mas para o autor tudo está parado na mesma inquietação.
Particularmente forte é a ideia de que “as palavras mais difíceis” não são as do quadro, mas aquelas que se dizem em silêncio, na oração, no medo contido. Aqui, o poema atinge um ponto de grande maturidade: mostra que há experiências que ultrapassam a linguagem ensinada, exigindo uma outra forma de compreensão, mais íntima e dolorosa.
O verso “o meu pai estava a morrer / outra vez nunca me habituei” introduz uma dimensão quase cíclica da perda , como se a morte fosse uma presença repetida, nunca assimilada. Esse “outra vez” é devastador, pois sugere não apenas o acontecimento, mas a memória dele, a sua permanência.
O fecho “nada é mais assustador / do que a morte do pai” é directo, quase seco, e por isso mesmo extremamente eficaz. Não há metáfora que suavize: há apenas a verdade, dita sem protecção.
É um poema que não procura adornar a dor, limita-se a mostrá-la. E é precisamente nessa contenção que reside a sua força.
Um trabalho poético de grande intensidade que me comoveu até às lágrimas.
Deixo um abraço.
:(
https://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/
Muito interessante e completo este seu comentário. Diria que é tão emocional como o próprio texto que mereceu a sua pormenorizada atenção. É um gosto e a justificação da existência deste espaço.
EliminarMuito Obrigado.
Um abraço.
Os comentários ao poema fazem análise exaustiva e pormenorizada do mesmo. Portanto, eximo-me a tal. Digo que me lembrou um pouco alguma escrita de Lobo Antunes, não sei onde exactamente, mas a toada geral tem assim um eco que me fez lembrá-lo. De resto, o receio da perda é esse "esparvoamento" tão presente que elide e retira importância a tudo o mais.
ResponderEliminarBom Dia!
O seu comentário é, para o autor, muito útil também. Lobo Antunes é, decerto, uma influência mesmo que inconsciente.
EliminarUm abraço.
Parece impossível que a vida continue indiferente ao nosso sofrimento. Senti isso muitas vezes, compreendo tão bem este poema. Parece que fazemos as mesmas coisas mas com um vazio lá dentro e nada do que acontece nos parece real. Um poema tocante.
ResponderEliminarUm vazio que só nos ocupa a nós no nosso interior.
EliminarUm abraço.
„A análise literária funciona como uma faca de dois gumes: pode ser um mecanismo de cura e entendimento profundo (biblioterapia) ou um agente estressor que leva à exaustão emocional, dependendo do distanciamento crítico e da carga emocional da obra.„
ResponderEliminarPelo que me parece, isso é o que pode acontecer ao crítico. Certo?
EliminarEste poema toca pela sua simplicidade desarmante e pela forma como cruza o quotidiano escolar com o medo profundo da perda.
ResponderEliminarA repetição de “a meio da tarde” cria um eco emocional que liga dois mundos, a sala de aula e o hospital, revelando como, para a criança, o tempo deixa de ser neutro e passa a ser carregado de angústia.
É um texto triste, mas de uma verdade muito clara e sentida....
As marcas ficam e reaparecem, de quando em vez, muito depois do tempo da escola e da morte do pai.
EliminarObrigado pelo comentário, tão emotivo
Um abraço.
Sim, é estranho perder o pai .
ResponderEliminarPerdi o meu também. E ainda não me habituei.
Acontecimentos que ficam gravados.
EliminarUm abraço.
As palavras difíceis que a professora aponta no quadro
ResponderEliminarestão desfasadas com o sofrimento relacionado ao
facto de o pai se encontrar no hospital.
Duas realidades diferentes e que não há meio de terem
um ponto de apoio.
Poema muito emotivo.
Um abraço
Olinda
Sim, duas realidades que dificilmente se casam.
EliminarUm abraço.
Não há nada pior do que a partida daqueles que amamos.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Partilho da sua opinião.
EliminarSaúdo a sua vinda e o seu comentário.
Olá, Luís!
ResponderEliminarPassei por aqui para agradecer o miminho que encontrei na caixa do correio. Lindo, lindíssimo nos seus tons primaveris. Obrigada!
Claro que li o poema acima, e entendo a dor que o poeta sente, porque a sinto há 28 anos. Uma dor que não passa, uma saudade sem fim. Comovi-me com os seus. Não é a primeira vez.
Um beijo. Muita saúde, poeta/pintor.
Comovi-me com os seus versos. Não é a primeira vez... que «como» palavras.
ResponderEliminarÉ uma dolorosa situação que toca a todos.
EliminarÉ um gosto enviar um postalzinho aos amigos.
Um abraço.
Uma homenagem a seu pai. Comovente, meu Amigo Luís. Eu perdi o meu aos sete anos. Nunca esqueci o dia.
ResponderEliminarTudo de bom.
Um beijo.
Nunca esqueceremos embora o tempo vá esbatendo os factos.
EliminarUm abraço.