Caverna Cueva de Las Manos, na Argentina. - Getty Images


A suposição ___ o engano
de que o amor é um direito de todos
assim como aquela frase justa que repetimos
o sol é para todos
e o Sol sem que ele próprio ou quem o criou 
saiba que só aquece os que já não têm frio 
 
o amor
um desperdício de pulsações 
do coração a forçar as artérias 
às vezes durante anos
e nós em silêncio 
para não perder os sons do outro
que é ele verdadeiramente que pulsa em nós 
e que às vezes não pulsa nele próprio 
mesmo que o seu coração funcione mas
sem mensagens
sem espanto
sem encantamento
sem luz
e o amor ou a ausência dele a matar-nos
lentamente
ternamente
e nós a repetirmos
a suposição ___ o engano 
 
assusta-me não acreditar no amor
e ficar assim
de mãos dadas comigo mesmo. 

 


 

Imagem de ChatGPT


Quantas mariposas no meu jardim
uma por cada nome
dos vivos
e dos não vivos
num voo silencioso

como a chegada da carta desejada
como um afago para adormecer
como o coração a bater de desejo 
como o último suspiro de uma criança 
como o bater de pálpebras de um moribundo 
como o aceno de uma despedida sem regresso

como a nossa última lágrima 

a beleza está em tudo
como no voo de uma mariposa. 




Imagem de ChatGPT
 



Quem me dera ter um corpo
foi o que eu sempre quis
ter um corpo
um lugar onde morar
onde guardar aquilo que sou
ter um corpo
para apresentar aos meus
e aos outros
é às mulheres 
às que gostaria de ter amado
nunca compreendi
que se todos têm um corpo
por que castigo
não me foi dada a possibilidade 
de ter um corpo
por isso 
tenho sido ignorado
nem nome tenho
nem coisas
aquelas comezinhas coisas
de que um corpo precisa
sapatos
casacos e calças 
escova de dentes
uma cadeira
um espelho
isso é que eu gostava de ter
se tivesse um corpo ___ um espelho
para ter a certeza que era eu

por não ter um corpo
disseram-me
não tens onde cair morto
na verdade
o que não tenho é com que cair morto. 



 

Foto do autor do texto


Escrevo em vez de falar
tenho na minha boca 
um mar inteiro
um deserto inteiro
um branco de terror
um medo das respostas
a luz de um candeeiro a petróleo 
esta dor no peito
é um segredo
que me impede de falar

alguém leu este poema
e chamou pelo meu nome
não respondo ___ escrevo. 


 


 

Depois de
“Um Chá no Deserto"
de Bernardo Bertolucci

 

Há lágrimas em frente ao deserto 
mente-se com o mesmo fervor
com que se fala verdade
o deserto é ___ ali mesmo
atrás já não há nada
o chão foi-se comendo a ele próprio 
somos o vómito da terra
que nos há-de engolir de novo

ficou tudo azul
é a agonia
Tânger já não existe
dizem. 


 






As palavras não conseguem dizer tudo
recuso as palavras 
que distraem os sentidos
que não vão ao fim das coisas
prefiro os sons
os ais
os suspiros
os cliques
os sussurros
os risos
os urros 
 
dor é silêncio  
 
fiquei sem palavras 
caiu-me um pássaro morto sobre a mesa.


 


Foto do autor do texto 



1967

Éramos jovens nesse tempo
encontrei-te prostrado num jornal
só a tua face 
como eu ainda te recordava como vivo

guerra é matar e morrer. 



 

Foto do autor do texto 



Não se esqueçam dos intervalos 
entre as palavras 
entre os dias
entre as refeições 
entre o nascimento dos filhos 
entre os amores
entre os corpos
entre os sentimentos  
 
nós próprios nesta continuidade
somos uma sucessão de intervalos
entre o primeiro e o último  
 
acerto o meu relógio 
e marco a hora de despertar. 


 


 

Foto do autor do texto



Lenço é separação ___ diz o povo
o que ficou de ti
foi um saco do Grand Palais
do lenço que te ofereci 
que fará parte da minha colecção 
de inutilidades
os vindouros vão perguntar

para que guardou ele isto? 

e lançarão todas as minhas recordações 
no lixo comum.