Imagem de ChatGPT 




O desgosto vem
como um comboio em velocidade
contra o meu coração. 




 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues 




A poesia salva quem quiser salvar-se
ainda que nos tenhamos condenado a nós próprios 
sem consciência disso

e de que queremos nós salvar-nos

de termos comido o fruto proibido
quando ainda não tínhamos dentes no cérebro 
ou quando já não os tínhamos
? 
de ser difícil aplacar a nossa carne
que deixámos a grelhar nos tições do desejo 
? 
de eliminar com a pintura a negro 
aqueles a quem recusamos
? 
de matar e de morrer pela desordem
que as bocas já não resolvem
? 
ou de termos sido metidos nisto
sem sermos ouvidos
? 
estou a tentar salvar-me. 




 


Lamento não ter falado mais contigo
aliás nunca falei contigo
que tu saibas
mas falei
e fui teu amigo solidário quando te definiam
não pelo que te saía da boca
mas pelo que te entrava na boca
eram os que viviam bêbedos 
com a sua normalidade
tu não sabes 
mas muitas vezes falei contigo dos teus poemas
e sempre me deixei convencer
pela sua beleza pela sua justeza
era uma forma de estarmos juntos

lamento não ter falado mais contigo
agora ___ apesar de tudo
vamos continuar a falar dos teus poemas
sou todo ouvidos. 


Hoje não morreu Jorge Palma.




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Sou persistente e repito-me
adiciono mais uma palavra
mais um breve pensamento ___ longo
ficando o espaço em equilíbrio difícil 
o que ficou é tudo em segunda mão 
os discos de Paul Anka em silêncio 
os meus lenços de adorno ainda com cor
as fotos das minhas antigas amantes sem rosto

as primeiras mãos foram as antigas mãos 
que eram o meu destino
nesse tempo tudo me parecia definitivo
e tudo assim me parecia porque eu sou temporário 
perguntei a Ciclope se é feliz só com um olho
ele disse que nunca tinha sentido
falta de um outro olho
agora sinto o teu corpo e isso me basta. 

 




Foto do autor do texto


Eis-me aqui
em versos
em silêncios 
em grotescos esgares
sozinho 
por isso

partículas deste todo
são feridas
sob a pele
em silêncio 
em versos
em doloridos gestos

eis-me aqui
para que açoitem
os meus versos
os meus silêncios
estas partículas de mim
sem benevolência 

depois o pó 
o vento
o silêncio 
os versos
e tudo deixa de existir
sem piedade.




Imagem de ChatGPT 




Estou no limbo
nesse lugar a que quase todos pertencemos
é o abismo com os seus círculos 
 
estou no limbo
tal a diversidade das minhas transgressões 
rejeito o dogma
rejeito o divino
rejeito a fé 
mas não rejeito a transcendência da poesia

numa gota de sangue de uma ave
tomo o gosto do seu canto. 


 


 

Imagem de ChatGPT 


A vida
foi-me entregue assim
nas mãos 
com cânticos 
o modo de a usar
foi como um doce
lambuzei-me com ela
até ao exagero
até à doença 
até ao susto

a vida
sem instruções de uso
sem prazo de validade
sem possibilidade de recusa
com a infantilidade de a viver
em modo de infinitude
negando Deus e os seus milagres 
foi-me oferecido um fim 
para o qual não me avisaram
à nascença involuntária 

a vida
é uma trágica ditadura
entregue à tarefa do tempo
com quem convivo 
encaro-o pacificamente
sento-me à mesa com ele
e peço 
dois chás e duas madalenas
isto é a vida
e o modo de a usar. 


 



 

Foto de Atlas Obscura


Quando acordo 
e ouço a tua voz dentro de mim
sempre acredito
que é dessa vez que vais nascer. 




Foto do autor do texto 


Já tudo me cansa
a paisagem urbana colada à janela da frente
os telhados como muros na janela de trás 

já tudo me cansa
menos o abrir do dia lá fora
os saltos dos melros lá fora
a certeza de ter alma
escutar a música nas palavras dos livros
embora no silêncio que está por todo o lado

de resto 
esqueço-me de tudo 
menos que
já tudo me cansa.