Foto de Folha de Pernambuco




As pequenas tartarugas 
a correrem para o mar
um elevador cansado
a gritar com o esforço da subida
os operários com as mãos inchadas
a abrirem as marmitas 
um banco de jardim a envelhecer
já morreu de um lado
camisas num estendal
a agitarem-se de braços abertos
a mulher perante o olhar do homem
a dizer que lhe dói a cabeça 
o pastor a doirar as suas ovelhas
ao sol que é de todos
uma figura de Cristo mais pequena 
que o real e com faltas de tinta
mulheres a rezarem 
com lágrimas em vez de palavras
o escritor escondido sob um ror de papéis 
a corrigir o que lia noutro ror de papéis 
um grupo de homens vestidos de árvores 
em volta de um mapa sem conclusões 

eu que sou como que um apátrida 
como que um furriel da carreira da vida
fico-me a ver o mundo da minha janela
uma bola de fogo ao longe
depois um enorme cogumelo de fumo
e percebo que o mundo ainda está vivo.


 


 

1 comentário:

  1. O poema retrata cenas diárias, humanas e trabalhadas, com um tom melancólico e observador. Vê-se esforço, dor, fé, rotina e a percepção de um mundo vivo e ainda resistindo, mesmo ante dificuldades. A voz do eu lírico é de alguém marginalizado (apatrídea, furriel) que observa pela janela o que acontece ao redor, tentando encontrar sentido na vida.

    ResponderEliminar