Foto de Folha de Pernambuco




As pequenas tartarugas 
a correrem para o mar
um elevador cansado
a gritar com o esforço da subida
os operários com as mãos inchadas
a abrirem as marmitas 
um banco de jardim a envelhecer
já morreu de um lado
camisas num estendal
a agitarem-se de braços abertos
a mulher perante o olhar do homem
a dizer que lhe dói a cabeça 
o pastor a doirar as suas ovelhas
ao sol que é de todos
uma figura de Cristo mais pequena 
que o real e com faltas de tinta
mulheres a rezarem 
com lágrimas em vez de palavras
o escritor escondido sob um ror de papéis 
a corrigir o que lia noutro ror de papéis 
um grupo de homens vestidos de árvores 
em volta de um mapa sem conclusões 

eu que sou como que um apátrida 
como que um furriel da carreira da vida
fico-me a ver o mundo da minha janela
uma bola de fogo ao longe
depois um enorme cogumelo de fumo
e percebo que o mundo ainda está vivo.


 


 

16 comentários:

  1. O poema retrata cenas diárias, humanas e trabalhadas, com um tom melancólico e observador. Vê-se esforço, dor, fé, rotina e a percepção de um mundo vivo e ainda resistindo, mesmo ante dificuldades. A voz do eu lírico é de alguém marginalizado (apatrídea, furriel) que observa pela janela o que acontece ao redor, tentando encontrar sentido na vida.

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    1. Muito esclarecido este seu comentário em que o final toca uma, minha, sensibilidade essencial. Perfeito.

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  2. Este teu poema tocou-me muito porque as guerras têm um começo e um fim com desgaste de destruição e mortos! Sei bem o que sofri e vi e não consigo esquecer até hoje! Depois de anos a história repete-se!
    Beijos e um bom dia!

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    1. Valido muito este teu comentário e essa experiência. É por isso que temos de lembrar que a Paz não é um bem adquirido para sempre.
      Bom domingo.
      Um abraço.

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  3. Nem sempre é fácil encontrar um sentido na vida... por vezes, continuamos a sentir-nos isolados ...
    Beijos e abraços
    Marta

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  4. O mundo está vivo, mas não aposto que se recomende, Nuvens.

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  5. Bem reflexivo o poema _ como tudo é idêntico ! as mãos trabalhadas, as lágrimas as palavras a bola de fogo ao longe um banco no jardim a envelhecer ... perfeita coincidência L .perfeita ! e o mundo segue vivo. Maravilhoso seu poema.
    Gosto do seu estilo inconfundível . Um abraço

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    1. Muito simpático o seu comentário. Este é o nosso mundo.
      Um abraço.

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  6. Ainda há vida para além das guerras.
    Das janelas vê-se tudo.
    Boa semana.
    Abraço.

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  7. O mundo que dizes estar vivo
    eu diria que já é zumbi

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  8. O mundo estará sempre vivo enquanto nós o defendermos desses miseráveis que o tentam matar.
    Um Abraço

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    1. Pode demorar, mas esses miseráveis serão derrotados. É preciso compreender o fenómeno.
      Um abraço.

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