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Tu sabes lá o que é ter oitenta anos
a nostalgia dói mais do que a coluna
parece uma dor que queremos ter
e a coluna que não queremos ter

sabes lá o que são oitenta quilómetros 
sobre ruínas e sob bombas
já debruçado para os oitenta e um
e ter nevoeiro pela frente

sabes lá o que era alguém não ter sapatos 
no início dos oitenta anos ___ quilómetros 
e pedirem-nos uma bucha de pão 
no recreio da primária 

e agora o pão-que-o-diabo-amassou
sobre a secura dos oitenta a pele seca 
das mãos e dos braços e do corpo todo
com oitenta dobras em todas as dobras do corpo

sabes lá o que é ter medo de não dobrar
os oitenta os oitenta e um os oitenta e dois
o medo de ser fechado
no sótão do esquecimento

agora nos oitenta quilómetros ___ anos
já é tarde para cuidar do corpo e do caminho 
voltei a fumar e ainda
sei fazer argolas com o fumo

está no ar o perfume dos crisântemos 
e tenho terra dentro dos sapatos. 




 

2 comentários:

  1. O poema fala sobre a experiência de envelhecer e a dor, lembranças, medo e limitação que vêm com o tempo. Fome, pobreza, ausência de sapatos, crianças pedindo pão; contraste com a própria fragilidade actual. A nostalgia dói mais que a coluna; a memória fica marcada como “dúvidas” e “nevoeiro” pela frente. Medo de não dobrar, de ficar esquecido, de ficar confinado no sótão do esquecimento. O corpo se deteriora, mas permanece a prática de fumar e o manejo do fumo; o cheiro de crisântemos sugere memória e morte. Terra nos sapatos simboliza raiz, permanência, sujeira do passado, chão que sustenta o caminhar.

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    1. A sua leitura tem critério e conclui com uma análise que o autor aprova.

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