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Tu sabes lá o que é ter oitenta anos
a nostalgia dói mais do que a coluna
parece uma dor que queremos ter
e a coluna que não queremos ter

sabes lá o que são oitenta quilómetros 
sobre ruínas e sob bombas
já debruçado para os oitenta e um
e ter nevoeiro pela frente

sabes lá o que era alguém não ter sapatos 
no início dos oitenta anos ___ quilómetros 
e pedirem-nos uma bucha de pão 
no recreio da primária 

e agora o pão-que-o-diabo-amassou
sobre a secura dos oitenta a pele seca 
das mãos e dos braços e do corpo todo
com oitenta dobras em todas as dobras do corpo

sabes lá o que é ter medo de não dobrar
os oitenta os oitenta e um os oitenta e dois
o medo de ser fechado
no sótão do esquecimento

agora nos oitenta quilómetros ___ anos
já é tarde para cuidar do corpo e do caminho 
voltei a fumar e ainda
sei fazer argolas com o fumo

está no ar o perfume dos crisântemos 
e tenho terra dentro dos sapatos. 




 

24 comentários:

  1. O poema fala sobre a experiência de envelhecer e a dor, lembranças, medo e limitação que vêm com o tempo. Fome, pobreza, ausência de sapatos, crianças pedindo pão; contraste com a própria fragilidade actual. A nostalgia dói mais que a coluna; a memória fica marcada como “dúvidas” e “nevoeiro” pela frente. Medo de não dobrar, de ficar esquecido, de ficar confinado no sótão do esquecimento. O corpo se deteriora, mas permanece a prática de fumar e o manejo do fumo; o cheiro de crisântemos sugere memória e morte. Terra nos sapatos simboliza raiz, permanência, sujeira do passado, chão que sustenta o caminhar.

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    1. A sua leitura tem critério e conclui com uma análise que o autor aprova.

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  2. Antigamente respeitavam-se os velhos porque aprendiam com eles o que os pais não sabiam e ou não tinham tempo!Os oitenta anos é um marco e actualmente muitos são esquecidos e até mal tratados pela família principalmente pelos filhos.!
    As dores são terriveis .A foto e muito bonita!
    Beijos e um bom dia

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    1. Estou de acordo. De um modo geral, a vida das pessoas de idade, não é feliz.
      Bom dia.
      Um abraço.

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  3. E no entanto veja como está a cabeça desse homem de oitenta anos, capaz de lucidez, belas metáforas e a pulsar de vida. Conheço gente de vinte incapaz de dizer duas coisas com tino, mesmo andando na faculdade. Felizes os oitenta que dobram dores e fumam cigarros porque a privação já não se coaduna com o amanhã. Gostei muito deste poema.

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    1. O autor/o homem alegra-se com este seu comentário. Agradece as palavras simpáticas e estimulantes. Cigarros é ficção.
      Um abraço.

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    2. Melhor ainda se passa sem cigarros! Como nunca fumei não sei avaliar o quanto custa deixar. Um abraço

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  4. Ninguém sabe... pior, não querem saber, entender... e no entanto, há muita coisa a partilhar...se aceitassem ouvir....
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. São os dias de hoje e as dezenas de anos de ensino da ignorância.
      Um abraço.

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  5. Boa tarde Caro Poeta/Pintor
    Este poema constrói uma poderosa fusão entre idade e percurso, onde os “oitenta” se desdobram em anos e quilómetros, confundindo corpo e memória.
    A dor física e a nostalgia entrelaçam-se com imagens de guerra, pobreza e esquecimento, criando uma atmosfera densa e melancólica.
    O fecho, com o perfume dos crisântemos e a terra nos sapatos, sugere uma proximidade inquietante com o fim, mas também uma lucidez poética profundamente tocante.
    Deixo um abraço...
    :)

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    1. Como sempre, os seus comentários são prosa poética que valorizam o texto publicado, tornam-no ainda mais emocional.
      Obrigado.
      Um abraço.

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  6. parabéns por esta lucidez poética, mas é preciso continuar a caminhar
    Um Abraço

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  7. Eu, que já passei esse marco
    de ser octogenário
    li isso
    como se fosse um hino

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  8. Belo poema!
    Adorei ler e também ver a imagem da Escola Primária.
    A minha foi demolida o que me trouxe muita tristeza.
    Abraço
    Olinda

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  9. Tive assim uma amiga bem velhinha que dizia bonacheirona, "nunca tive diabetes, nas últimas análises estava tudo bem, vou comer e beber à vara larga a ver se ao menos morro com uma doença, que até parece mal morrer apenas de tanta vida". E de nada se privava no que toca a alimentação. Morreu de noite, a sós; imagino que se foi no meio do silêncio e sem dar conta, os cobertores no seu lugar a dobra do lençol perfeitinha e ela morta e composta.
    Ignoro o que seja ter oitenta. Mas, por este andar, se calha ainda venho a saber. Valerá a pena?!

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    1. Valerá sempre a pena se estivermos lúcidos e... não vivermos na miséria.
      Um abraço.

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  10. Oi L
    A fotografia da Escola Primária não lembra os oitenta mas lembra muito os oito ...
    e dá saudade ... Belo poema , chegar aos oitenta poetizando é perfeito !
    Beijinhos e bom sábado feliz semana.

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    1. Também andei numa escola como aquela. Os oitenta são a vida toda e o momento de fazer o saldo do que se viveu.
      Bom fim de semana.
      Um abraço. Pp

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  11. A vida moderna não se compadece com o passado de cada um.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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