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Tu sabes lá o que é ter oitenta anos
a nostalgia dói mais do que a coluna
parece uma dor que queremos ter
e a coluna que não queremos ter
sabes lá o que são oitenta quilómetros
sobre ruínas e sob bombas
já debruçado para os oitenta e um
e ter nevoeiro pela frente
sabes lá o que era alguém não ter sapatos
no início dos oitenta anos ___ quilómetros
e pedirem-nos uma bucha de pão
no recreio da primária
e agora o pão-que-o-diabo-amassou
sobre a secura dos oitenta a pele seca
das mãos e dos braços e do corpo todo
com oitenta dobras em todas as dobras do corpo
sabes lá o que é ter medo de não dobrar
os oitenta os oitenta e um os oitenta e dois
o medo de ser fechado
no sótão do esquecimento
agora nos oitenta quilómetros ___ anos
já é tarde para cuidar do corpo e do caminho
voltei a fumar e ainda
sei fazer argolas com o fumo
está no ar o perfume dos crisântemos
e tenho terra dentro dos sapatos.

O poema fala sobre a experiência de envelhecer e a dor, lembranças, medo e limitação que vêm com o tempo. Fome, pobreza, ausência de sapatos, crianças pedindo pão; contraste com a própria fragilidade actual. A nostalgia dói mais que a coluna; a memória fica marcada como “dúvidas” e “nevoeiro” pela frente. Medo de não dobrar, de ficar esquecido, de ficar confinado no sótão do esquecimento. O corpo se deteriora, mas permanece a prática de fumar e o manejo do fumo; o cheiro de crisântemos sugere memória e morte. Terra nos sapatos simboliza raiz, permanência, sujeira do passado, chão que sustenta o caminhar.
ResponderEliminarA sua leitura tem critério e conclui com uma análise que o autor aprova.
EliminarAntigamente respeitavam-se os velhos porque aprendiam com eles o que os pais não sabiam e ou não tinham tempo!Os oitenta anos é um marco e actualmente muitos são esquecidos e até mal tratados pela família principalmente pelos filhos.!
ResponderEliminarAs dores são terriveis .A foto e muito bonita!
Beijos e um bom dia
Estou de acordo. De um modo geral, a vida das pessoas de idade, não é feliz.
EliminarBom dia.
Um abraço.
E no entanto veja como está a cabeça desse homem de oitenta anos, capaz de lucidez, belas metáforas e a pulsar de vida. Conheço gente de vinte incapaz de dizer duas coisas com tino, mesmo andando na faculdade. Felizes os oitenta que dobram dores e fumam cigarros porque a privação já não se coaduna com o amanhã. Gostei muito deste poema.
ResponderEliminarO autor/o homem alegra-se com este seu comentário. Agradece as palavras simpáticas e estimulantes. Cigarros é ficção.
EliminarUm abraço.
Melhor ainda se passa sem cigarros! Como nunca fumei não sei avaliar o quanto custa deixar. Um abraço
Eliminar👍
EliminarNinguém sabe... pior, não querem saber, entender... e no entanto, há muita coisa a partilhar...se aceitassem ouvir....
ResponderEliminarBeijos e abraços
Marta
São os dias de hoje e as dezenas de anos de ensino da ignorância.
EliminarUm abraço.
Boa tarde Caro Poeta/Pintor
ResponderEliminarEste poema constrói uma poderosa fusão entre idade e percurso, onde os “oitenta” se desdobram em anos e quilómetros, confundindo corpo e memória.
A dor física e a nostalgia entrelaçam-se com imagens de guerra, pobreza e esquecimento, criando uma atmosfera densa e melancólica.
O fecho, com o perfume dos crisântemos e a terra nos sapatos, sugere uma proximidade inquietante com o fim, mas também uma lucidez poética profundamente tocante.
Deixo um abraço...
:)
Como sempre, os seus comentários são prosa poética que valorizam o texto publicado, tornam-no ainda mais emocional.
EliminarObrigado.
Um abraço.
parabéns por esta lucidez poética, mas é preciso continuar a caminhar
ResponderEliminarUm Abraço
Sim, vamos andando.
EliminarUm abraço.
Eu, que já passei esse marco
ResponderEliminarde ser octogenário
li isso
como se fosse um hino
Vamos encontrar-nos por aqui durante os próximos vinte anos.
EliminarBelo poema!
ResponderEliminarAdorei ler e também ver a imagem da Escola Primária.
A minha foi demolida o que me trouxe muita tristeza.
Abraço
Olinda
A nossa escola deixou-nos memórias.
EliminarUm abraço.
Tive assim uma amiga bem velhinha que dizia bonacheirona, "nunca tive diabetes, nas últimas análises estava tudo bem, vou comer e beber à vara larga a ver se ao menos morro com uma doença, que até parece mal morrer apenas de tanta vida". E de nada se privava no que toca a alimentação. Morreu de noite, a sós; imagino que se foi no meio do silêncio e sem dar conta, os cobertores no seu lugar a dobra do lençol perfeitinha e ela morta e composta.
ResponderEliminarIgnoro o que seja ter oitenta. Mas, por este andar, se calha ainda venho a saber. Valerá a pena?!
Valerá sempre a pena se estivermos lúcidos e... não vivermos na miséria.
EliminarUm abraço.
Oi L
ResponderEliminarA fotografia da Escola Primária não lembra os oitenta mas lembra muito os oito ...
e dá saudade ... Belo poema , chegar aos oitenta poetizando é perfeito !
Beijinhos e bom sábado feliz semana.
Também andei numa escola como aquela. Os oitenta são a vida toda e o momento de fazer o saldo do que se viveu.
EliminarBom fim de semana.
Um abraço. Pp
A vida moderna não se compadece com o passado de cada um.
ResponderEliminarAbraço amigo.
Juvenal Nunes
Isso é que é verdade.
EliminarUm abraço.