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Este vício de poeta
o sentimento trágico da vida*
a tristeza como musgo agarrado às paredes
o alento ___ a alegria da tua chegada parecia 
que na verdade estiveras sempre aqui ___ invisível
e era assim
a luz da casa a cair da janela sobre
os malmequeres que estavam sempre apagados
o cão já recolhido a respirar o sono
levantava a cabeça e parecia sorrir
não havia luz que chegasse para a noite toda
se tornar dia na luz da pele ___ da tua pele
e a palma da mão ___ da minha mão 
a aproveitar o silêncio 
abrindo o caminho permitido para
desertos lisos
serras gémeas 
declives suaves
arbustos limitados
leitos sem rios
que o teu corpo chegado aqui
ao meu vício de poeta
à tragicidade da minha vida
me fazia respirar o sono como o do cão 
com um sorriso de fidelidade canina
o meu instinto quase adormecido suspirava 
com um som como o do musgo
a crescer nos muros da minha alma
que eu não suspeitava ainda viva
depois ___ muitos anos depois morreste
nunca mais te vi
ou fui eu que morri
nunca mais me viste
e fiquei até tão velho como tu
a consumir sozinho este vício de poeta
com este sentimento trágico da vida 
que já não me lembro com quem aprendi. 

                                                                                
*Miguel de Unamuno

 

2 comentários:

  1. A vida diária arrasta-se entre o pó e o espanto,
    O poeta se nutre do que o tempo devorou.
    A dependência é o seu fado, a dor é o seu manto,
    neste altar de ausência que a solidão montou.

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