Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



O que importa


Pouco importa a beleza física 

se não há luz

pouco importa o timbre da voz

se não há canção 


importa a silhueta do espírito 

importa o desenho da palavra

importa o gesto com que se desnuda

importa o movimento das asas

importa a particularidade do lugar comum

importa a cor do retrato


Muito importa a beleza da luz

e o timbre do canto da vida.







 Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Esperamos-te


Mantivemos o teu corpo 

em repouso extremo

para que o possas vestir de novo 

quando voltares.








Chansons d'amour


Debruas de negro e vermelho

as tuas frases 

e as tuas respostas trazem 

sempre uma pedra no bolso ou

no mínimo ___ uma mão cheia de areia

é inevitável o tropeço 

na travessia de uma conversa

como atravessar sem faixas brancas

numa larga avenida


Debrua de cores e sons as palavras 

pontua as tuas frases

com pequenos pontos dourados

e canta

fala enquanto cantas

e verás que debruando coloridas 

as palavras do teu canto

tudo o que falares

serão ternas canções de amor.

 






 Foto do autor do texto



Antes que amanheça


Ultimamente todos os meus dias

se enchem de longas noites ___

___ claramente essa escuridão 

é um campo lavrado sobre murmúrios 

que quase todos ignoram

choros juvenis 

silvos de partidas

grunhidos animalescos

talvez por isso eu não deva dormir

mas embora persista nessa espiral

do desassossego da insónia 

talvez a cobardia me faça 

procurar o sono que desejo 

profundo e povoado


perante tais noites universais

talvez devesse inibir-me 

de dormir e de comer

inibir-me também do amor carnal

de qualquer prazer do corpo

mas de dia ___ nos curtos dias

em que me esqueço das noites

e dos meus deveres ___

___ talvez alienado 

no escuro de pensar em Deus 

apenas como uma ideia 

     ou um cais no meio da tempestade 

     ou um lenço para guardar as lágrimas 

calço as alpercatas do despojamento

visto o traje da dúvida 

e saio para a chuva ___ torrencial

antes que amanheça.



 


 Foto do autor do texto



As casas


As casas querem-se com os sinais do tempo

ficam as marcas por todo o lado

no chão 

os passos dos que a habitaram

nos tectos 

os suspiros os ais e as gargalhadas

nas paredes 

as marcas dos retratos e dos sorrisos fotográficos 


cada casa é a última casa

com uma paisagem em cada janela

com um destino em cada porta

com paredes que assistiram à verdade 

que guardam silenciosamente 

os descendentes dos descendentes


tudo é autêntico e simples ___ nas casas

até ao dia em que se descobre que 

na casa também habita a sua própria ruína 

então 

tudo se torna complicado

e os sinais de tantas vidas

se revelam sem significado ___ um monte de entulho.



 


 Foto do autor do texto



O Belo, o horrível 


Misturamos o Belo com o horrível

e dizemos que isso é a vida ___ natural

acreditamos que esse é um equilíbrio necessário 

mas não é mais do que a desistência 

por falta de meios.






 Foto do autor do texto



Poemas da minha infância



Pai


O meu pai morreu hoje outra vez

ficou ali estendido no corredor

da nossa casa

já morreu três vezes

mas está sempre vivo

na catequese ouvi dizer 

que Deus não teve princípio 

nem terá fim

o meu pai é filho de pai incógnito 

e não consegue morrer

se calhar o meu pai é Deus.





Foto do autor do texto



Falar e viver

Acerta o teu passo com a tua respiração 

não faças como eu

que falo enquanto respiro

e caminho enquanto me calo

temo ___ por isso 

ficar com os pulmões sombrios

como causa da falta de harmonia

entre o que respiro e o que falo


é difícil viver e falar ao mesmo tempo

há uma certa casualidade quando

se encontram coisas que marcaram

a nossa vida

se acertares o passo com a tua respiração 

nunca serás surpreendido

e adormecerás como se morresses.



 


 Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



Ilusão do poder

Esperas confiante 

que o nosso caminho não se cruze

a menos que tudo dependa de um sinal teu

na clara evidência ___ para ti

de que as águas correrão a um aceno teu

de que o vento virá quando um desejo teu

de que o fogo se apagará segundo um desígnio teu

de que o vermelho se tornará azul apenas com o teu olhar


esperas confiante

não te afogares nas águas revoltas

não seres levada pelo vento intenso

não arderes no fogo imparável 

não cegares num dia impreciso

e que assim o nosso caminho não se cruzará

senão a um sinal teu 


ao certo

… é mais fácil encontrar um camelo 

que já passou pelo buraco de uma agulha

e anda a passear na cidade

do que entrares no reino dos deuses

com ou sem bagagem


espero confiante 

porque já alguém disse antes algo parecido.