Foto de Daniel Filipe Rodrigues


Ficou tudo como estava
o corpo rendeu-se ao apelo 
e deixou-se aprisionar
foi levado para outro lugar
deixou tudo como estava
um poema seguiu-o
e obrigou-o a respirar

vinte anos depois regressou
e estava tudo como estava
nesse dia completou o poema 
e escreveu
     tenho o corpo inteiro
     aqui os deuses respiram
     estou vivo. 


 


10 comentários:

  1. A repetição cria peso; o corpo aparece como refém e instrumento de uma criação que persiste no tempo. O regresso reforça a ideia de imobilidade e liberdade simultâneas; a conclusão celebra a vitalidade do eu e a presença dos deuses no corpo. Breve, enigmático, com tom meditativo.
    A fotografia do primogénito é linda de morrer.

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    1. O Corpo como continente de tudo em nós. O seu comentário é esclarecedor.

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  2. O "eu" muda constantemente e o físico, os lugares também... Liberta-se e aprisiona-se ao mesmo tempo...
    E escreve-se, reescreve-se histórias....
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Se estamos livres para a mudança podemos correr riscos.
      Um abraço.

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  3. Gosto da janela, quem sabe o que já por ela passou, quantos sorrisos foram dados à rua, quantas vezes uma fronte enrugada de melancolias se apoiou na vidraça que não vemos, quantas interrogações condensaram na atmosfera, quantos risos infantis ali assomaram, quantas sombras por ela passaram sem a ver...um enfim de vida é o que ela mostra.
    quanto ao poema, confesso não ter estaleca para ele, não imagino o que queira dizer. Também eu gostaria de ter assim um corpo: renascido após vinte anos de morto. Não é verdade, o que eu gostaria mesmo era de, como o poeta, morrer por algum tempo, mas mais breve, imagino que num sono do qual acordava mais disposta à luta. Vinte anos era tempo a mais:).
    Bom fim de semana

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    1. O seu comentário é um poema.
      Bom fim de semana também.
      Um abraço.

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  4. O corpo partiu mas não morreu: o poema que o seguiu forçou-o a respirar e esses vinte anos podem ser vinte minutos... O corpo volta, agora com identidade divina: "Aqui os deuses respiram/estou vivo".

    Divina, também, é a janela que não me deixa descolar os olhos dela. Vou roubar-lha, L.

    Um forte abraço

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    1. A poesia salva-nos mas... só a nós, que temos essa ilusão.
      Um abraço.

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  5. Boa tarde Poeta,
    Um poema belíssimo.
    Um afastamento, um poema (vida) incompleto num reencontro em que o poema se completou com essencial sempre presente.
    Gostei imenso da fotografia.
    Beijinhos e bom fim de semana.
    Emília

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    1. Se a vida toda fosse poesia que tranquilo seria o mundo.
      Bom fim de semana.
      Um abraço.

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