Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Suponho que te moves
que acendes a luz sobre a casa
suponho que são teus
os passos que ouço 

és tu

não sabes então que
já não moro nesta casa
que deixei tudo como estava
em nossa memória ___ por respeito 

mas ficou por nascer o nosso filho

suponho que chove em volta
da casa que foi nossa
sabes que nunca gostei da chuva
que isso me impedia de fumar lá fora

ia-me com o fumo

suponho que apreciarás
o ar puro pelas janelas abertas
os cortinados com vida
a brisa ___ a vida ondulando

sem vida

suponho que fecharás
o livro que esqueci aberto
suponho que encherás um saco preto
com o resto da minha roupa

e que lhe darás destino

suponho que te sentarás a pensar
no que já parece antigo
mas que foi ontem ___ incrédula 
com o passar do tempo

sem tempo agora

suponho que acharás 
que estou longe aqui mesmo
e ambos pensaremos se ainda
será possível a poesia. 


 


18 comentários:

  1. O poema funciona como um espelho e um mapa aberto, onde o significado final só se completa no encontro com a mente de quem o lê.
    A fotografia é linda de morrer.

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    1. Sempre descubro muito boas interpretações nos seus comentários.
      A foto é um instantâneo, saber ver faz o fotógrafo.

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  2. Que bonito, o que move o poeta !
    Estar' longe' aqui mesmo' é uma metáfora emocional e aí mora a poesia.
    Um abraço, Luís

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  3. Gostei do "Deixei tudo como estava" e da justificação - por respeito. Mesmo que fora de moda, o respeito é uma atitude eu diria que quase galante.
    Boa noite, Nuvens

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    1. O respeito é uma qualidade antiga, vamos tentar lembrar os mais novos.
      Um abraço.

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  4. é sempre possível a poesia
    Um abraço

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  5. A poesia é sempre possível... afasta os fantasmas, ilumina a noite e respeita as nossas lágrimas, a nossa dor...dissipa o medo... deixa-nos respirar....
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Tu és de facto um grande poeta embora, entras sempre no sotão de emoções demasiadas vezes e tão absurdas!Eu digo o que sinto e não fiques zangado embora eu é para o lado que durmo melhor😏😏😏
      Beijos e um bom dia!

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    2. Todos as interpretações e comentários são válidos, os seus, de facto, com a vantagem de serem muito humorísticos, o que aprecio.
      Um abraço.

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  6. Boa tarde Caro Poeta/Pintor
    O poema constrói-se num registo intimista e melancólico, onde a repetição de “suponho” reforça a tentativa dolorosa de imaginar a continuidade da vida após a ausência.
    Há uma delicadeza muito humana nos pequenos detalhes domésticos, a chuva, o fumo, os cortinados, o livro aberto que transformam a casa numa extensão da memória e do luto. O verso “mas ficou por nascer o nosso filho” surge como um golpe silencioso, carregando uma das imagens mais profundas do texto.
    Gostei particularmente da forma como o poema oscila entre presença e vazio, entre aquilo que ainda parece vivo e aquilo que já pertence apenas à recordação.
    O fecho deixa no ar uma pergunta belíssima e inquietante: se a poesia consegue sobreviver quando o amor e o tempo parecem suspensos.
    Eu acho que sim...mas é a minha opinião que vale o que vale.
    Espero que tenha um bom fim-de-semana, apesar do calor imenso.
    :)

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    1. Cara Piedade, o seu comentário é de grande sensibilidade de análise, apesar de ser o autor do escrito a sua análise toca a minha sensibilidade como se estivesse perante um texto escrito por outro.
      Bom fim de semana, fiquemos então à sombra.
      Um abraço.

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  7. A poesia também pode ser uma manifestação afetiva.
    Bom fim de semana.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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    1. Sim, assim haja quem a receba com esse espírito.
      Um abraço também.

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  8. a poesia é a irmã pobre da escrita (dizem)
    eu discordo
    a poesia é presença, ausència, amor e liberdade em arte dramática ou talvez não...
    para mim é luz e sempre será.....

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