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Nos domingos da minha infância 
o sol nascia sempre sobre o meu quintal
eu ficava a olhar o roxo luminoso
das campainhas e o branco dos malmequeres 
que cresciam até à altura dos meus olhos

certos domingos a minha mãe 
aparava-me o cabelo ainda loiro
e as minhas irmãs imitavam a função 
com os seus pequenos dedos em tesoura
no cabelo estopa das suas bonecas

sobre o meu quintal havia
um pequeno quadrado grande de céu 
e eu deitava-me no chão a sonhar
com os olhos cheios de azul ___
___ no meu quintal só faltava o mar

do céu caía um mar de pequenos frutos
amarelos que eu acreditava passarem
por entre a árvore de onde de facto nasciam
jamais esquecerei aquele azul do céu 
que me cabia e era só meu

é curta a longa vida dos artistas
a obra não fica completa
do céu que contemplo agora no catre
onde descanso da minha velha vida
já não há manhãs novas 
nem caem do céu frutos dourados
o cabelo não desponta
e as mães morrem ___ o que é injusto

é trágica a vida dos artistas. 


 

25 comentários:

  1. O poema evoca a infância, a simplicidade do quintal, a fusão entre natureza e memória familiar. Imagens de céu azul, flores, cabelos loiros, brinquedos, zombando da passagem do tempo. A vida do artista é descrita como trágica pela dificuldade de completar o sonho, a arte que não termina de “completar o céu” e a ausência de novas manhãs, frutos dourados caindo do céu. Resta uma melancolia de realize de que a realidade não corresponde à aspiração artística.

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    1. O contraponto entre as memórias iniciais e a realidade do presente.

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  2. Bom dia Poeta,
    Um poema sublime que me reportou também à minha infância.
    Amanheceres que não se repetem, mas qie deixaram gratas lembranças, na saudade cravada no peito.
    Beijinhos e bom domingo.
    Emília



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    1. É bom despertar essas recordações na memória dos meus leitores/as.
      Um abraço.

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  3. Os artistas criam a obra, mas não traçam o destino da vida.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  4. Gostei muito desta recordação da tua infância que me levou à minha! A imagem é muito bonita!
    Beijos e um bom domingo!

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    1. É um gosto que os leitores/as se identifiquem com o que o poema recorda.
      Bom domingo.
      Um abraço.

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  5. Há sempre memórias desses domingos em que tudo parecia ser possível...
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Tudo era possível porque ainda não conhecíamos nada.
      Um abraço.

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    2. Bom dia, um dia de Sol pontilhado de chuviscos.
      Gosto de chuva. Quando chovia sentia que
      o Céu derramava sobre as nossas cabeças graças
      das mais escolhidas. Recebia a água que encharcava
      o meu vestido e ia cantado até à casa da minha
      avó.
      Bom domingo.
      Um Abraço
      Olinda

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    3. Portanto belas memórias, de vez em quando algo nos faz recordar.
      Um abraço.

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  6. A infância é um marco nas nossas vidas.
    Sua nostalgia é totalmente justa _ e seus sonhos parecem com o meus .
    Bom domingo e boa semana. Seguimos juntos e separados L , isso também importa.

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    1. As memórias de infância são parecidas quando se pertence à mesma geração. É bom recordar.
      Boa semana.
      Um abraço.

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    2. Mas sabes? A mim,
      acredites ou não
      a memória funciona
      como tábua de salvação

      (e tua poesia também tem esse condão)

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    3. Salvamo-nos com o que já salvámos da nossa vida.
      Obrigado.

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  7. que sensibilidade...não tenho palavras...obrigada....

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  8. Morrem as mães dos artistas e as outras mães; e as que não são mães; e toda a gente.
    Sobre aquilo que vai de certeza chegar, não vale a pena tecer grande elocubração, é deixar-se ir quando vier e entretanto viver a pensar noutra coisa.
    Boa semana e até 4ª

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    1. Isso é muito real, os artistas alteram e ficcionam a realidade.
      Boa semana, quarta-feira cá estaremos.
      Um abraço.

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  9. Caro Poeta/Pintor
    Achei-o profundamente comovente pela forma simples e luminosa com que revisita a infância.
    O poema começa mergulhado em cores, gestos e pequenos rituais domésticos, quase como um álbum de memórias banhado de azul e dourado, mas vai-se transformando, aos poucos, numa reflexão amarga sobre a passagem do tempo, a perda e a finitude.
    Tocou-me especialmente o contraste entre o quintal imenso da infância e o “catre” da velhice, como se toda a vida coubesse entre esses dois espaços.
    E aquele verso final “as mães morrem ___ o que é injusto” — chega com uma verdade desarmante, humana e universal.
    É um poema delicado, nostálgico e dolorosamente belo.
    Este trabalho poético, revela a sensibilidade do autor e confesso, deixou-me comovida até às lágrimas.
    Muito obrigada!
    Boa semana com saúde e paz.
    :)

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    1. O seu comentário, como sempre, é esclarecedor e preciso na análise. O melhor elogio para o autor passa pelo momento de comoção da leitora sendo esse estremecimento o momento da fusão autor leitor. Grato pela atenção que dedica aos meus escritos.
      Um abraço.

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  10. Tudo muda, até a forma como vemos as coisas.
    Boa semana caro amigo.
    Um abraço.

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    1. Ao longo da vida, somos vários, conforme a idade.
      Boa semana.
      Um abraço.

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