Nos domingos da minha infância
o sol nascia sempre sobre o meu quintal
eu ficava a olhar o roxo luminoso
das campainhas e o branco dos malmequeres
que cresciam até à altura dos meus olhos
certos domingos a minha mãe
aparava-me o cabelo ainda loiro
e as minhas irmãs imitavam a função
com os seus pequenos dedos em tesoura
no cabelo estopa das suas bonecas
sobre o meu quintal havia
um pequeno quadrado grande de céu
e eu deitava-me no chão a sonhar
com os olhos cheios de azul ___
___ no meu quintal só faltava o mar
do céu caía um mar de pequenos frutos
amarelos que eu acreditava passarem
por entre a árvore de onde de facto nasciam
jamais esquecerei aquele azul do céu
que me cabia e era só meu
é curta a longa vida dos artistas
a obra não fica completa
do céu que contemplo agora no catre
onde descanso da minha velha vida
já não há manhãs novas
nem caem do céu frutos dourados
o cabelo não desponta
e as mães morrem ___ o que é injusto
é trágica a vida dos artistas.

O poema evoca a infância, a simplicidade do quintal, a fusão entre natureza e memória familiar. Imagens de céu azul, flores, cabelos loiros, brinquedos, zombando da passagem do tempo. A vida do artista é descrita como trágica pela dificuldade de completar o sonho, a arte que não termina de “completar o céu” e a ausência de novas manhãs, frutos dourados caindo do céu. Resta uma melancolia de realize de que a realidade não corresponde à aspiração artística.
ResponderEliminarO contraponto entre as memórias iniciais e a realidade do presente.
EliminarBom dia Poeta,
ResponderEliminarUm poema sublime que me reportou também à minha infância.
Amanheceres que não se repetem, mas qie deixaram gratas lembranças, na saudade cravada no peito.
Beijinhos e bom domingo.
Emília
É bom despertar essas recordações na memória dos meus leitores/as.
EliminarUm abraço.
Os artistas criam a obra, mas não traçam o destino da vida.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Os artistas dão-se mal com o destino.
EliminarUm abraço também.
Gostei muito desta recordação da tua infância que me levou à minha! A imagem é muito bonita!
ResponderEliminarBeijos e um bom domingo!
É um gosto que os leitores/as se identifiquem com o que o poema recorda.
EliminarBom domingo.
Um abraço.
Há sempre memórias desses domingos em que tudo parecia ser possível...
ResponderEliminarBeijos e abraços
Marta
Tudo era possível porque ainda não conhecíamos nada.
EliminarUm abraço.
Bom dia, um dia de Sol pontilhado de chuviscos.
EliminarGosto de chuva. Quando chovia sentia que
o Céu derramava sobre as nossas cabeças graças
das mais escolhidas. Recebia a água que encharcava
o meu vestido e ia cantado até à casa da minha
avó.
Bom domingo.
Um Abraço
Olinda
...ia cantando...
EliminarPortanto belas memórias, de vez em quando algo nos faz recordar.
EliminarUm abraço.
A infância é um marco nas nossas vidas.
ResponderEliminarSua nostalgia é totalmente justa _ e seus sonhos parecem com o meus .
Bom domingo e boa semana. Seguimos juntos e separados L , isso também importa.
As memórias de infância são parecidas quando se pertence à mesma geração. É bom recordar.
EliminarBoa semana.
Um abraço.
Mas sabes? A mim,
Eliminaracredites ou não
a memória funciona
como tábua de salvação
(e tua poesia também tem esse condão)
Salvamo-nos com o que já salvámos da nossa vida.
EliminarObrigado.
que sensibilidade...não tenho palavras...obrigada....
ResponderEliminarEu é que agradeço.
EliminarMorrem as mães dos artistas e as outras mães; e as que não são mães; e toda a gente.
ResponderEliminarSobre aquilo que vai de certeza chegar, não vale a pena tecer grande elocubração, é deixar-se ir quando vier e entretanto viver a pensar noutra coisa.
Boa semana e até 4ª
Isso é muito real, os artistas alteram e ficcionam a realidade.
EliminarBoa semana, quarta-feira cá estaremos.
Um abraço.
Caro Poeta/Pintor
ResponderEliminarAchei-o profundamente comovente pela forma simples e luminosa com que revisita a infância.
O poema começa mergulhado em cores, gestos e pequenos rituais domésticos, quase como um álbum de memórias banhado de azul e dourado, mas vai-se transformando, aos poucos, numa reflexão amarga sobre a passagem do tempo, a perda e a finitude.
Tocou-me especialmente o contraste entre o quintal imenso da infância e o “catre” da velhice, como se toda a vida coubesse entre esses dois espaços.
E aquele verso final “as mães morrem ___ o que é injusto” — chega com uma verdade desarmante, humana e universal.
É um poema delicado, nostálgico e dolorosamente belo.
Este trabalho poético, revela a sensibilidade do autor e confesso, deixou-me comovida até às lágrimas.
Muito obrigada!
Boa semana com saúde e paz.
:)
O seu comentário, como sempre, é esclarecedor e preciso na análise. O melhor elogio para o autor passa pelo momento de comoção da leitora sendo esse estremecimento o momento da fusão autor leitor. Grato pela atenção que dedica aos meus escritos.
EliminarUm abraço.
Tudo muda, até a forma como vemos as coisas.
ResponderEliminarBoa semana caro amigo.
Um abraço.
Ao longo da vida, somos vários, conforme a idade.
EliminarBoa semana.
Um abraço.