a morte traz à tona uma boa miserabilíssima humana. às vezes começa logo no velório. a velocidade da passagem de bestial a besta muitas vezes ultrapassa o mais veloz dos bólides. e assim, vendo as "costas" dos outros, vamos imaginando as nossas, talvez por isso mesmo importa seguir a senda que traçámos enquanto vivos, depois de mortos nada importa
Caro Poeta/Pintor Há poemas que precisam de muitas palavras para dizer pouco; este faz exactamente o contrário: com poucas palavras, abre uma reflexão bastante mais larga do que a sua extensão deixaria supor. “O que disserem de ti depois de morreres” coloca-nos desde logo perante o território da memória e daquilo que os outros constroem sobre quem já não pode responder. O poema não afirma simplesmente que depois da morte se contarão mentiras. A sua observação é mais subtil: essas mentiras virão “à mistura com coisas justas”. É precisamente essa mistura entre verdade e falsidade que lhes dará credibilidade. A mentira raramente precisa de ser absoluta para convencer; basta-lhe conservar alguns fragmentos de verdade. O efeito mais interessante nasce, porém, da conclusão: “por isso / é melhor que te mantenhas vivo.” Aparentemente ligeira, quase humorística, ela contém uma ironia amarga. Estar vivo significa ainda poder contestar, corrigir, desmentir, defender a própria versão dos acontecimentos. Depois da morte, essa possibilidade desaparece e a narrativa fica entregue aos outros. O poema fala, assim, da morte, mas também da fragilidade da verdade, da construção da memória e do poder da palavra alheia. E fá-lo sem solenidade excessiva: prefere a ironia, a economia verbal e um remate inesperado. É talvez essa combinação de lucidez e humor que lhe dá a força porque, no fundo, aquilo que parece um conselho divertido (“é melhor que te mantenhas vivo”) deixa no leitor uma pergunta bem menos divertida: quanto daquilo que ficará de nós será verdade e quanto será apenas uma mentira suficientemente bem acompanhada de verdade para parecer verdadeira? A imagem embora seja da IA está muito bem enquadrada. Boa semana, ou o que resta dela. :)
Os seus comentários são sempre muito lúcidos e esclarecedores. É compensador para mim, ler todas as suas considerações e, confirmar que os meus pensamentos encontram eco e identificação nos meus leitores/as, em alguns, certamente. Obrigado. Um abraço.
O poema, breve e mordaz, constrói-se sobre uma ideia paradoxal: depois da morte, a verdade sobre alguém mistura-se inevitavelmente com a mentira. E é justamente a presença de algumas “coisas justas” que torna as mentiras mais convincentes. Com ironia e lucidez, o poema transforma essa constatação numa conclusão inesperada e quase humorística: mais vale permanecer vivo. Por detrás do humor, fica uma reflexão inquietante sobre a memória, a reputação e a facilidade com que a verdade se deixa contaminar pelo que dela se conta...
Um comentário valioso que estabelece cumplicidade com o texto do autor. Depois de ser impossível repormos a verdade, estamos à mercê dos nossos amigos e inimigos. Um abraço.
O que dá credibilidade aparente na mentira é calma emocional de quem a conta. portanto o que dizerem sobre mim acreditarão. Conto com você ,,, rs Um beijo, Luís
Manter-se vivo apenas pelo que os outros dirão quando já nem por cá andemos?! E eu quero lá saber do que digam. Ou façam. Ou pensem. Terei o livro fechado, sem palavra que me chegue. Não dou a mim nem a ninguém tal importância. O existir na boca ou na mente dos outros após a vida que se viveu, que importância tem para cada um que foi e já não é?! Os que da lei da morte se vão libertando são de outra natureza. E, ainda assim não são eles que vivem, mas a obra; são extrínsecos à afectação.
Quem tem descendência tem alguma preocupação com a imagem que restará de nós. O facto de já não sabermos de nada não altera a vilania dos que nos calúniam. Um abraço.
Há quem não se lembre de nós em vida, mas aparece chorosa na morte e relembra a pessoa com carinho no velório.... Há aqueles que se lembram de nós em vida e na morte com carinho e amizade. Nem sempre há coerência nem na vida nem na morte... Beijos e abraços Marta
Boa noite Poeta, Um poema magnífico, como sempre, com o seu cunho tão pessoal. Curto mas cheio de reflexão e ironia, sobre a forma como a nossa história pode ser contada pelos outros depois da morte. Enquanto vivos, ainda temos voz para defender a nossa verdade. Beijinhos, Emília
No somos eternos y algún día tendremos que partir.
ResponderEliminarSaludos
Sin duda, algún día nos llamarán.
EliminarUn abrazo.
VIiva ou morta ,estou me maribando para quem falam de mim e é para o lado que durmo melhor! A imagem é muito bonita!
ResponderEliminarBeijos e um bom dia!
Aprecio essa boa disposição. Não sabemos o que dirão de nós mas talvez fosse bom terem saudades de nós.
EliminarBom dia.
Um abraço.
Bom, em princípio, depois de morto já não poderá ouvir:)
ResponderEliminarAssim, talvez melhor se importar com aquilo que dizem agora.
Ou...não se importar de todo!
Prevejo as dentaduras a baterem em nome do defunto.
EliminarUm abraço.
Acredito
ResponderEliminarno teu vatícinio
e tudo farei
para me manter vivo
e tu
segue as pegadas
do teu conselho
Estou a esforçar-me por isso.
Eliminara morte traz à tona uma boa miserabilíssima humana.
ResponderEliminaràs vezes começa logo no velório.
a velocidade da passagem de bestial a besta muitas vezes ultrapassa o mais veloz dos bólides.
e assim, vendo as "costas" dos outros, vamos imaginando as nossas, talvez por isso mesmo importa seguir a senda que traçámos enquanto vivos, depois de mortos nada importa
Estou muito de acordo consigo. Sendo assim... que siga a música!
EliminarUm abraço.
Caro Poeta/Pintor
ResponderEliminarHá poemas que precisam de muitas palavras para dizer pouco; este faz exactamente o contrário: com poucas palavras, abre uma reflexão bastante mais larga do que a sua extensão deixaria supor.
“O que disserem de ti depois de morreres” coloca-nos desde logo perante o território da memória e daquilo que os outros constroem sobre quem já não pode responder. O poema não afirma simplesmente que depois da morte se contarão mentiras.
A sua observação é mais subtil: essas mentiras virão “à mistura com coisas justas”. É precisamente essa mistura entre verdade e falsidade que lhes dará credibilidade. A mentira raramente precisa de ser absoluta para convencer; basta-lhe conservar alguns fragmentos de verdade.
O efeito mais interessante nasce, porém, da conclusão: “por isso / é melhor que te mantenhas vivo.” Aparentemente ligeira, quase humorística, ela contém uma ironia amarga. Estar vivo significa ainda poder contestar, corrigir, desmentir, defender a própria versão dos acontecimentos. Depois da morte, essa possibilidade desaparece e a narrativa fica entregue aos outros.
O poema fala, assim, da morte, mas também da fragilidade da verdade, da construção da memória e do poder da palavra alheia. E fá-lo sem solenidade excessiva: prefere a ironia, a economia verbal e um remate inesperado. É talvez essa combinação de lucidez e humor que lhe dá a força porque, no fundo, aquilo que parece um conselho divertido (“é melhor que te mantenhas vivo”) deixa no leitor uma pergunta bem menos divertida: quanto daquilo que ficará de nós será verdade e quanto será apenas uma mentira suficientemente bem acompanhada de verdade para parecer verdadeira?
A imagem embora seja da IA está muito bem enquadrada.
Boa semana, ou o que resta dela.
:)
Os seus comentários são sempre muito lúcidos e esclarecedores. É compensador para mim, ler todas as suas considerações e, confirmar que os meus pensamentos encontram eco e identificação nos meus leitores/as, em alguns, certamente.
EliminarObrigado.
Um abraço.
O poema, breve e mordaz, constrói-se sobre uma ideia paradoxal: depois da morte, a verdade sobre alguém mistura-se inevitavelmente com a mentira. E é justamente a presença de algumas “coisas justas” que torna as mentiras mais convincentes. Com ironia e lucidez, o poema transforma essa constatação numa conclusão inesperada e quase humorística: mais vale permanecer vivo. Por detrás do humor, fica uma reflexão inquietante sobre a memória, a reputação e a facilidade com que a verdade se deixa contaminar pelo que dela se conta...
ResponderEliminarUm comentário valioso que estabelece cumplicidade com o texto do autor. Depois de ser impossível repormos a verdade, estamos à mercê dos nossos amigos e inimigos.
EliminarUm abraço.
O que dá credibilidade aparente na mentira é calma emocional de quem a conta. portanto o que dizerem sobre mim acreditarão.
ResponderEliminarConto com você ,,, rs Um beijo, Luís
A mentira, hoje em dia, já não envergonha os autores da mentira.
EliminarObrigado pela confiança.
Um abraço.
Manter-se vivo apenas pelo que os outros dirão quando já nem por cá andemos?! E eu quero lá saber do que digam. Ou façam. Ou pensem. Terei o livro fechado, sem palavra que me chegue.
ResponderEliminarNão dou a mim nem a ninguém tal importância. O existir na boca ou na mente dos outros após a vida que se viveu, que importância tem para cada um que foi e já não é?! Os que da lei da morte se vão libertando são de outra natureza. E, ainda assim não são eles que vivem, mas a obra; são extrínsecos à afectação.
Quem tem descendência tem alguma preocupação com a imagem que restará de nós. O facto de já não sabermos de nada não altera a vilania dos que nos calúniam.
EliminarUm abraço.
Está a refletir sobre o seu legado pessoal e o impacto que tem na vida dos outros?
ResponderEliminarDiz respeito a todos. A reflexão a meu respeito nunca me revelará o que virá sobre mim depois de mim.
EliminarHá quem não se lembre de nós em vida, mas aparece chorosa na morte e relembra a pessoa com carinho no velório....
ResponderEliminarHá aqueles que se lembram de nós em vida e na morte com carinho e amizade.
Nem sempre há coerência nem na vida nem na morte...
Beijos e abraços
Marta
Nunca saberemos.
EliminarUm abraço.
É muito melhor mantermo-nos vivos... Sempre criativo, meu Amigo Luís.
ResponderEliminarUm beijo.
Sim, vale a pena.
EliminarUm abraço.
Boa noite Poeta,
ResponderEliminarUm poema magnífico, como sempre, com o seu cunho tão pessoal.
Curto mas cheio de reflexão e ironia, sobre a forma como a nossa história pode ser contada pelos outros depois da morte. Enquanto vivos, ainda temos voz para defender a nossa verdade.
Beijinhos,
Emília
Pena não podermos ver o que dizem de nós. Nem era preciso ver... só ouvir.
EliminarUm abraço.