Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM





Lobos em nós 


Há lobos 

sentados na nossa amabilidade

às portas da nossa consciência 

que nos consomem neurónio a neurónio

e que impedem a nossa própria passagem

para dentro de nós ___ 

___ não temos meios nem armas

para os afastarmos

antes da chegada dos caçadores

A matilha 

alimenta-se da nossa condescendência

escuto-lhes o uivo.





 


António Salvado

1936 - 2023





Foto de Daniel Filipe Rodrigues 






A verdade

A verdade é uma velha

que caminha com uma bengala

está grávida 

e surpreendentemente canta.






 


 Foto (fracção) de Daniel Filipe Rodrigues





Altar mental


Todos os que amei

estão agora no meu altar mental


O Álvaro

companheiro de carteira

com quem dividia a bucha

O Vasco

que me carregava a mala

para virmos da escola a jogar à pedra

A Ivone

que me revelou o peito

quando me ensinou a dançar 

O Armando

a quem emprestei dois livros

e que os vendeu sem nunca me ter dito

A Rosa 

que queria casar comigo 

mas os pais mudaram de casa 

e nunca mais soube dela ___ vi-a ontem 

no mesmo lar onde está a minha irmã 

mas não lhe disse nada

deixei-a ficar morta como os outros


Todos os que amei

estão agora santificados 

no meu altar memorial a quem

de vez em quando limpo o pó recordando-os 

e depois fecho as portinhas do altar

e vou à minha vida.




 


Foto do autor do texto a partir do documentário
 "Quando os impressionistas quiseram pintar as paredes". 




Acerca-te


Compreenderás o desequilíbrio de meios entre nós 

da intensidade diferente das nossas vozes 

do desencontro das palavras em que muitas 

foram abolidas e outras assassinadas 

da incompatibilidade das nossas crenças 

ou na ausência delas do despudor do fingimento 

Dizemos cada um ao mesmo tempo coisas diferentes 

e esquecemos que trazemos em nós o nosso futuro 

sem o sabermos e que um dia as nossas palavras 

agora desconhecidas terão um significado certeiro


Acerca-te 

vem ver de mais perto o que aqui está escrito

Também se aprende a desamar.






 Foto de Daniel Filipe Rodrigues





Que farei de tanta abundância? 


O último comboio partiu

ao longe o ponto vermelho

vai-se esquecendo aos poucos

as luzes da gare apagam-se

Que farei de tanta ausência 

dos princípios da noite

da madrugada

dos seis jogos de pratos

e talheres

e copos

da lata cheia de bolachas

das roupas da cama

e de duas almofada

dos sapatos de domingo

Que farei das fotografias antigas

da minha voz ___ calada

do chamamento do meu corpo


Que farei de tanta abundância? 

Espero que voltes

para morreres comigo

não demores

ou terei de me deixar morrer sozinho 


Perdi de vista o último comboio.




 


 Foto do autor do texto




Meu único amigo


Já quase não leio

nem escrevo

estou todo o dia

junto a uma janela

à espera que aconteça alguma coisa


já ninguém me diz ___ espera 

vai acontecer alguma coisa

a luz arrepende-se e retira-se

uma porta abre-se e fecha-se

mas não entra ninguém 

não vejo ninguém 


Já nada me é concedido

a não ser sopa e um murmúrio 

ah ___ e pão 

é importante o pão 

um laço comum ainda 

com o mundo dos outros


está escuro ___ retirou-se a luz

é o momento certo

para terminar o poema

amanhã peço para te enviarem

esta carta poema

meu único amigo.




 



Foto do autor tomada da dobra do seu dedo indicador esquerdo. 



 

A nossa nudez


Na tua nudez 

há um mapa antigo 

um caminho que conheço 

uma paisagem adormecida

com o rosado de um rio

que nasce entre montes distantes

e desagua num desfiladeiro

sempre misterioso

Na tua nudez há a terra

e o país onde vivo 

e o chão 

e o dia e a noite 

e uma jangada

onde nos salvamos 

da morte prematura

Na tua nudez há a minha nudez.