Foto do autor do texto



Um momento incompreensível 


Dei comigo sentado na cama 

de manhã 

pensei estar a acordar

mas alguém que não reconheci

chorava de mãos postas

na sua aflição 

e dizia

     deixem-no estar deitado!

e eu sentado na cama

não compreendia que não ouvissem

a minha voz ___ perguntei

     que dia é hoje? 

alguém disse

     está morto! 

pensei

talvez seja verdade

sinto-me tão só todos os dias.



 

Elas amanhecem no café 

De tão cedo parece que acordam 

sentadas à mesa ___ juntas

nunca são menos de três e nunca mais de seis

ocupando então duas mesas

com falas e gargalhadas que ocupam

todas as mesas do café 

são o eco umas das outras

são irmãs no que consomem 

um carioca e um queque

e falam no que as consome por igual

sentem-se igualmente injustiçadas 

no fim das suas vidas profissionais

e pelos maridos inúteis que têm em casa

todas regressaram aos estudos na universidade 

e omitem “sénior” quando falam disso

o que lá aprendem interessa-lhes pouco

o que conta são as excursões 

já foram ao Porto e ao “Passeio dos Três Castelos”

gostam dos espectáculos do coro

de que não fazem parte 

só lá andam as que “têm a mania”

e a professora é “aquela embirrante das finanças”

também gostam dos aniversários umas das outras

levam um bolo sem decoração 

e dizem ter menos dois ou três anos

todas percebem mas todas fazem o mesmo

elas nunca viajaram para “o estrangeiro” 

mas vão muitas vezes “à terra” que é a mesma

do marido onde afinal se conheceram

e dizem 

nunca conheci outro homem

Deus me livre!

sonharam ir à Madeira que é quase ir ao estrangeiro 

mas nunca acordaram com a mala feita ___

___ os filhos depois os netos

precisam muito delas ___ agora é tarde 

e temos de estar perto do hospital

podemos ter uma urgência

como quando o marido ficou aflito da próstata

nada de grandes ausências de casa

já não somos novas

já não há diversão ___ nem em casa

porque sou velha mas ainda gosto

diz uma e as outras aprovam suspirando

mais valia irmos para freiras 

diz uma e as outras riem alto

e dobram-se batendo com as mãos no colo


são horas ___ no café vão pôr as mesas

para os almoços

acabou a liturgia dos sábados de manhã 

contrariadas voltam ao convento

para mais uma semana 

de rezas entaladas na garganta.


Foto do autor do texto 



Foto: Said Khatib/AFP publicada na Folha de Pernambuco



Um poeta na Palestina

fala com o seu filho morto


Meu filho não consigo

explicar-te o que é a vida

nem por instinto

não consigo justificar o acto

ou o nascimento da vontade

que te trouxe pela mão 

o mistério existe

por detrás de nós ___

___ à traição 

por sermos seres inexplicados

incapazes de tirar a limpo

a nossa origem comum

do mesmo ovo

do mesmo sol

da mesma água 

todos prisioneiros 

de deuses inexistentes 


meu filho não consigo

explicar-te por que não 

preocupa o mundo

que estejamos vivos ou mortos

ainda assim

resisto com o teu nome

na minha boca.



 

Foto do autor do texto



O teu corpo apesar de tudo


Gosto do teu corpo ainda mais

quando o comparo com o meu

gosto ___ quando decido gostar  

mais do teu corpo do que do meu

e gosto de te o proclamar


apesar disso digo-te

que o prazer do corpo pode ser

a antecâmara do desentendimento 

porque o prazer distende o espírito 

e então as palavras ficam comuns


o prazer não é o mesmo que a cumplicidade 

o prazer dilui-se nas palavras comuns

então vamo-nos rendendo aos poucos

sempre exibindo o nosso vigor

nas palavras comuns


a vulgaridade é aflitiva

e os corpos apenas aguardam

a sua próxima vez

enquanto o espírito adormece ___

___ mas gosto do teu corpo.




Foto do autor do texto



De mim para mim


Que nunca mais me dê por vencido

cada vez que ouço bater uma porta

como se abandonasses para sempre

este nosso país.








Fascinam-me os enigmas


Os sonhos são as nossas reservas

de felicidade ou de pesadelo 

é como entrar numa sala de cinema

sem saber que filme vai correr


hoje sonhei com Frida Kahlo

dormi com ela na leitura da sua biografia

um sonho mágico nas cores e nas formas

e a sua voz dizia

     dorme comigo na certeza

     de que resistiremos à escuridão 

e assim foi

acabei o sonho 

adormecendo dentro do sonho

sobre o tufado púbis de Frida Kahlo.



 

Foto do autor do texto



O umbigo 


É intemporal esta ferida

a que chamam umbigo 

a fenda que nos ligou à tranquilidade 

e de onde quisemos sair

na nossa inconsciência 

sobre o desconhecido 


sabemos de onde viemos mas

não sabemos para onde vamos

que direi sobre isto

aos meus filhos?