Foto do autor do texto



Simbolicamente 


Invoco o meu corpo

tomo na minha mão direita 

o meu sexo 

como ___ simbolicamente eu

ponho a minha mão esquerda 

sobre o umbigo 

como ___ o meu princípio 

fecho os meus olhos

como ___ o meu fim

e penso

Porque o homem está acabado… 

… Ele ressuscitará, livre

de todos os seus Deuses.*


 

*Em itálico versos de Rimbaud



 

Foto do autor do texto



Fica o perfume


Penso 

sobre as mulheres que morreram

loucas pelo abandono

vagueiam sem descanso

pelas pensões pobres

do centro das cidades

em sombras e suspiros

que ninguém sabe

onde se movem ___


___ fica o seu perfume

que cada um identifica 

como uma punição.



 

Foto do autor do texto



Dos contos para o romance


Tenho tendência para esquecer tudo

e enlear de novo o meu braço 

à volta da tua cintura

guardarei na estante da minha memória 

o nosso livro de contos controversos 

chamado Cem Anos de Solidão 


escreveremos então um longo romance 

com um sabor a sol de verão de infância 

e ficaremos para sempre com o título 

nas nossas bocas O Adeus às Armas.



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Nuno Júdice

1949 - 2024




Foto do autor do texto



Vazio ___ quase tudo


Nada se parece mais com uma ausência 

do que uma cama aberta

com o contorno de uma cabeça na almofada

para nos moer o desgosto há sempre

um cabelo que nos prende o olhar

e não o colhemos quase como se não 

aceitássemos que alguém já não volta


há lugares inevitavelmente falidos

para tudo o que tenha a ver com o amor

uma cama vazia é um desses lugares

e então começamos a acreditar

que isso tem a ver com o nosso definhamento

os braços mais finos

as pernas sem pêlos

a barriga mais ousadamente gorda

os dentes dentro do copo de água 

com a pastilha efervescente a murmurar


a cama aberta connosco dentro

e com a insónia ao lado

as voltas e mais voltas a enrolar a falta de sono

as dores nos ombros

e finalmente a queda vertiginosa no sonho

estranho que nos deixa a boca seca aberta

para a floresta de livros de poesia ao nosso lado


bom dia! 

e tudo recomeça na paisagem

com um poema.






Até à vista


Os teus olhos estão acordados

mas dormem ao mesmo tempo

acredito que ainda respires

mas já longe


que a dor da alma 

é a que mais nos interpela

disseste

é o âmago que nos dói 

já que o corpo é apenas uma camada

onde mora a nossa alma


e pronto

não mais dia nem noite

não mais chuva nem sol

não mais calor nem frio

não mais curvas no caminho 

agora tudo é infinito

já que nada mais existe

depois desta madrugada.




 

Foto do autor do texto



Cansaço


Estou cansado

sei que estas palavras são como um choro

sobre o mapa da vida

estas palavras têm o mesmo valor

quando suspiro depois  

do desejo consumado e digo

estou cansado!


este corpo que corre a afogar-se

na memória absurda do que foi o abandono

confessa em silêncio

estou cansado!





Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Morcegos


Adormecemos numa caverna

de cabeça para baixo 

feitos clandestinos raros

querem-nos extintos

sangue

seco

sobre 

séculos 

submissos

morcegos são os outros.



 




A poesia não interrompe um período de tristeza 

o irremediável ronda aquele que não tem defesa  


Hoje o autor não tem poesia.





Foto do autor do texto



 Melancolia

Às duas da manhã 

as fotos na minha frente 

animam-se

quem ali foi fotografado

pergunta-me por si próprio 

apenas com os olhos

apenas com os olhos

percebo tudo

sou eu que estou imóvel 

dentro de uma moldura

melancólica 

e já esqueci tudo. 



 




Da série "Poemas do futuro"



Por ti ___ o sacrifício 


Um corte rápido 

fino e frio

sem dor

e o sangue quente 

a derramar-se 

pelo meu ombro

pelo meu peito. 


Espero Florença 

que me recebas em paz

neste acto de amor por ti. 


Florença 2027