Foto de Daniel Filipe Rodrigues 



Sonho


Tenho sonhos despropositados

sobre o amor

porque este alterna sempre

entre o desejo de ficar

e a necessidade de partir

tenho sonhos despropositados ___

___ sonho o que posso 

nessa ausência do amor

pés descalços sobre as nuvens 

escadas de acesso a jardins

mulheres rosadas em abismos

árvores floridas de pequenas aves

crianças sentadas à espera do dia

 

e o mundo que não chega  

nem o amor se insinua

nem de dia

nem de noite

por isso vou sonhando.



 

Foto do autor do texto



Voltei mas vou partir


Voltei ao antigo restaurante da cidade

aquele em que jantávamos há trinta anos

nesses jantares bebias-me

em pequenos tragos consentidos 

partilhava contigo o meu sangue

sempre acreditando na renovação da vida

nunca usei a palavra amor

por ter um significado demasiado vago

preferia dizer 

que pulsávamos nas veias um do outro

ou que víamos pelos mesmos olhos


nessas noites em que aceitavas ficar comigo

rasgávamos os nossos desencontros

nestes encontros em que não nos reconheciamos

tal a paisagem exótica que exibiamos

um para o outro em imagens e sons

até o sol dessa noite se extinguir ___

___ depois lia-te poemas até adormeceres


de manhã voltávamos a ser dois amigos

até novo jantar no antigo restaurante da cidade

em que te oferecia o meu sangue renovado ___

___ um dia foi fatal o nosso desencontro 

não mais sangue naquela mesa

não mais poemas na nossa cama


Nunca mais deixei de jantar

no antigo restaurante da cidade 

nos nossos dias habituais 

trinta anos depois vou partir

deixo num sobrescrito este poema

pedindo que te seja entregue

se por acaso voltares um dia

deixo-te ainda o meu chapéu.



 

Foto do autor do texto



Prepara-me


Penteia-me e pinta-me os olhos e os lábios 

dá-me um pouco de cor no rosto

aperta a minha mão antes de entrar

no lado escuro da vida

terei muita gente à minha espera

quero ter boa aparência.





Foto do autor do texto



A imperfeição das coisas


Em algum lugar do mundo 

ou em todos os lugares do mundo

a imperfeição das coisas

     nega à terra a morte da sede

     seca-lhes a vida

a imperfeição das coisas

     faz com que as árvores 

     dêem os frutos ao chão 

     como se a terra tivesse fome

a imperfeição das coisas

     dá frutos do amor que nascem

     alheios à sua imperfeição 

a imperfeição das coisas

     consome no fogo dançando 

     à volta das crianças 

     e dos fugitivos esfomeados

a imperfeição das coisas

     são os homens imperfeitos

     criadores da terra e do céu 

     são os animais

     são as árvores 

     são as flores

a imperfeição das coisas

     é a Terra e o Céu.



 

Vídeo do autor do texto



Trazes contigo a minha infância 


Cheiras à escola da minha infância 

trazes-me pela mão 

com a ternura daqueles tempos 

compreendes que

é como se estivesse a aprender 

tudo outra vez ___ 

___ ficas triste que me esqueça 

de tudo outra vez

mas não me castigas

como era na minha infância 

apertas a minha mão com afecto


cheiras à escola da minha infância 

quando me beijas ao cair da noite

e me pedes que adormeça 

sonho contigo

como se também fosses minha mãe 

descubro nessa vertigem sonâmbula

o medo de que faça frio no verão 

e que as paredes do meu quarto

se encham de sexos de mulher

rindo ___ rindo ___ rindo


até que é manhã e o teu cheiro

à escola da minha infância 

me acorda lentamente 

com um murmúrio que não entendo

com carinho tomas a minha mão 

que pousas no lugar 

mais misterioso de onde se nasce

e me perguntas 

                           estás feliz?



 




Sopa fria


É desanimador servirem-nos uma sopa fria

e sendo fria a sopa

apenas poderá servir de alimento

a uma estátua ___ fria ___ desanimada

as estátuas são em si mesmas tranquilas 

talvez eternas sem necessidade de alimento 

para o corpo e para o espírito que

afinal as estátuas não têm 

embora tendo o corpo ___ frio e rígido 

ninguém lhes fornece sopa

ou outros alimentos ___ mesmo frios

porque as estátuas não morrem


não comam sopas frias

nem convidem estátuas para a vossa mesa.



Foto e escultura do autor do texto