Imagem de ChatGPT 


 

Todos os dias
arranco à minha língua as palavras necessárias 
o espírito a esvair-se pelo bico de um lápis 
e as palavras ali estremecendo
é sempre noite adiantada
e antes que o dia se acomode 
o poema adormece

então ___ corto a noite a meio
durmo numa metade e à outra metade
misturo-a com farinha ___ água ___ sal
será o meu pão da manhã. 


 







Disseste

tenho pressa ___ vou partir
faz-me um poema de uma só palavra

escrevi

voutersaudadestuasabraça-me. 





Imagem de ChatGPT



Atrevo-me a medir o tempo
o que passou e o que falta
luz e sombra
palavras e silêncio 
realidade e ilusão 
música 
vozes de criança 

as mãos ___ as manchas
a falta de talento para a matemática 
errar de propósito 
as contas do tempo
o que passou e o que falta
como se cada minuto fosse
um átomo do corpo que se perde 

fica-se na contemplação da obra
que outrora sentámos nos joelhos. 


 


Foto do autor do texto



Escrevo
não sei se com a minha mão ___
___ se com a tua
ou se com a tua mão na minha

disseste com simplicidade
     és tu que me guias eu só te inspiro

afinal
escrevo de mão dada contigo.


 


Imagem de ChatGPT 



A pele acolhimento
de mãos à procura 
a cor do rosto
o hálito 
o silêncio 
o peito respirando
e as mãos à procura
na incerteza
do que vai acontecer
a pele ___ o arrepio
o agora ou nunca
o tempo pára aqui

pensávamos nós.


 

Foto de Ana Luís Rodrigues


Eu disse-te
que só falaria em tom de poesia
disseste 
     isso é uma bela forma de falar
foi há muito tempo
hoje pela primeira vez
disseste
     afinal a poesia é inútil.


 




Farei longos poemas 

enquanto te penteias

e como me inspiras

quando soltas estrelas 

em cada gesto

digo-te

     o meu lugar é no outono

respondes

     irei contigo nos teus poemas

e partimos deslumbrados

com as estrelas e a poesia


ambos sabemos

que não voltaremos a encontrar-nos. 


 


Imagem de FREEP!K


Já sou um retrato parecido comigo mesmo
cresceu-me a pele mais do que o corpo
contra minha vontade
nada entendemos dos fenómenos químicos 
no entanto temos tudo isso nas entranhas
não sabemos nada sobre as voltas 
que a Terra dá em torno da luz e no entanto
distinguimos o dia da noite

virá o dia sem tempo 
para rever ao espelho a minha aparência 
serei então o primeiro dos que ficarem
e assim confirmarei para todos a nossa finitude
serei talvez feliz pela compensação que tiver
dos séculos que vivi em algumas décadas 
de tudo despojado nesse instante

sentirei nos pés a frescura da relva
terei a família que perdi à minha espera
e todos arrumaremos a mesa e a cama
para receber os que vierem

gostei da recepção todos sabiam que eu vinha
porque lhes cheirou a torradas
e não era a hora do pequeno-almoço. 


 


Salvador Dali (excerto)


Já sou um retrato parecido comigo mesmo
cresceu-me a pele mais do que o corpo
contra minha vontade
nada entendemos dos fenómenos químicos 
no entanto temos tudo isso nas entranhas
não sabemos nada sobre as voltas 
que a Terra dá em torno da luz e no entanto
distinguimos o dia da noite

virá o dia sem tempo 
para rever ao espelho a minha aparência 
serei então o primeiro dos que ficarem
e assim confirmarei para todos a nossa finitude
serei talvez feliz pela compensação que tiver
dos séculos que vivi em algumas décadas 
de tudo despojado nesse instante


(continua) 


 


Imagem de Artguru 



Já sou um retrato parecido comigo mesmo
cresceu-me a pele mais do que o corpo
contra minha vontade
nada entendemos dos fenómenos químicos 
no entanto temos tudo isso nas entranhas
não sabemos nada sobre as voltas 
que a Terra dá em torno da luz e no entanto
distinguimos o dia da noite


  (continua) 



 

Imagem de Artguru


Gosto de contemplar a lentidão 
com que se fecham os portões da penitenciária 
dava tempo a que um penitente se escapasse 
até poderia ser eu mas não 
acho que todos pensam que a prisão é lá fora
uma prisão é um bairro uma baía um anfiteatro 
uma construção diferente em cada dia só céu e chão aqui
não há mar nem mulher como disse Ruy Belo 
nem marés vivas nem roseiras com rosas digo eu
quando os portões fecham tudo fica em segurança 
era assim que pensava Franz* no livro que trouxe da biblioteca
aqui não há dúvidas nem certezas não há questões controversas para discussão ou a precisarem de resposta 
as dúvidas que tenho resolvo-as à noite a olhar para o tecto 
com a vida a pulsar na minha cabeça 
a dúvida é escrever ou não escrever estas cartas para as quais 
nunca tive resposta já nem sei se existes ou se a tua sensibilidade 
é como o som do ferrolho da cela quando me encerram 
isto é outra realidade 
tu agora és apenas a minha imaginação à noite a olhar para o tecto 
com a vida a pulsar na minha mão 
estou tranquilo e consciente. 


Carta de um presidiário à sua mulher

*BERLIM ALEXANDERPLATZ



Foto de Tripadvisor




Pedi uma limonada com hortelã ___ hoje
nesta tarde chuvosa de Outono 
na mesma mesa em que nos encontrávamos 
no Carette de Paris na esplanada
coberta pelo túnel de arcos
tenho na minha mão a chave da que foi
a nossa casa ___ chave inútil 
que conservo como uma relíquia 

trago na carteira junto à tua foto
a tristeza numa pequena bandeira
do teu país violado
no verso a tua boca em baton vermelho 
que deixaste na partida

já nem sei se vives ou se já és heroína 
nesse inferno onde combates 
tenho no meu bolso uma carta oficial
que há uma semana tento ignorar
vai fazer-se velha no meu bolso
vai sobreviver-te ainda que não seja verdade
sinto a tua boca na limonada com hortelã 
como um beijo. 

 

Imagem de ChatGPT 


 

Imagem de ChatGPT



Atravesso o rio num lugar à sorte
em fuga
os predadores estão próximo 
alguém grita como aviso

     é um oceano não há outra margem

faço o caminho a pé em águas baixas 
um vento talvez divino
alisa as águas e ergue-as
numa escada líquida 
que subo a correr até ao mais alto
onde alguém me empurra
acordo a cair do sonho
com a chuva a bater na janela

vejo ao longe a luz difusa da sala 
o nevoeiro invadiu a minha casa.


 


Imagem de ChatGPT 



Quero dividir contigo o peso da vida
como se a vida fosse dentro de um saco
e cada um de nós com a sua asa
preocupados com o equilíbrio 
a cruzar as vozes e os olhares
e a saber andar sem tocar o chão 
penso
no que somos capazes de inventar
para definir a felicidade

e assim se inventa uma frustração 
num saco roto por onde se esvai a vida
tão certo
que mesmo pegando nas duas asas
ao mesmo tempo
se vai deixando tudo pelo caminho

pode haver um lado bom nisto tudo
se o saco for forte e reutilizável 
assim será possível transportar
mais vidas e com o peso de outros tempos
voltando sempre atrás para recuperar 
a carga perdida

será possível até nascer outra vez
e recomeçar 
e ter os mesmos desejos
usar as mesmas palavras
cometer os mesmos erros
até ter de transportar a vida
nas próprias mãos 
ou dividir contigo o peso da vida

até perceber que me devo ver livre
do supérfluo
dos fantasmas da infância 
das palavras que nos deprimem
dos perdões impossíveis
das ideias absurdas sobre felicidade 
da chuva triste sobre a cidade
da inutilidade da poesia

confesso que senti uma dor no peito
ao fazer este poema. 



 

Imagem de ChatGPT 



Quero dividir contigo o peso da vida
como se a vida fosse dentro de um saco
e cada um de nós com a sua asa
preocupados com o equilíbrio 
a cruzar as vozes e os olhares
e a saber andar sem tocar o chão 
penso
no que somos capazes de inventar
para definir a felicidade

e assim se inventa uma frustração 
num saco roto por onde se esvai a vida
tão certo
que mesmo pegando nas duas asas
ao mesmo tempo
se vai deixando tudo pelo caminho

pode haver um lado bom nisto tudo
se o saco for forte e reutilizável 
assim será possível transportar
mais vidas e com o peso de outros tempos
voltando sempre atrás para recuperar 
a carga perdida

será possível até nascer outra vez
e recomeçar 
e ter os mesmos desejos
usar as mesmas palavras
cometer os mesmos erros
até ter de transportar a vida
nas próprias mãos 
ou dividir contigo o peso da vida

 (continua)