Imagem de ChatGPT 



Há uma certa fadiga
nesta praça da saudade
de tantos anos vezes tantos anos
empurrando verdades 
ou mentiras pelo empedrado 
em madrugadas de inverno
rebenta-me a pele da língua 
de tanta fadiga que tenho
que saudade nesta praça da saudade
de quando ainda não se trocava
sangue por petróleo. 



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



A passividade
como forma de se manter a vida inalterável 
é a forma de ser vivo-morto
no mundo em constante alteração.




Foto do autor do texto 



NOTÍCIA NOS JORNAIS

Detidos vinte e cinco indivíduos, homens e mulheres, todos nascidos no mês de Abril em anos diferentes, por proferirem ou escreverem palavras obscenas como
fome
pão 
exploração 
sexo 
curiosidade
cultura
liberdade
esperança 
estas e outras palavras e expressões que foram agora declaradas inexistentes por fomentar a agitação, a descrença e a revolta. 

Interrogados os indivíduos 
foi descoberto que um homem e duas mulheres tinham um plano para construir um jardim clandestino nas traseiras das suas casas

um homem confessou continuar a ter curiosidade pela anatomia íntima da mulher

a dois homens foram descobertos esboços para uma pintura na empena de um prédio com mensagens de recepção amigável a gente estrangeira 

a uma mulher foram apreendidos vários exemplares de um opúsculo com poemas de significado social implícito e com capas de cor vermelha

dois casais informaram não ter inscrito os seus filhos na respectiva paróquia com vista à frequência das aulas de catequese, facto agravado por as crianças não terem sido baptizadas

uma mulher declarou ter perdido a esperança na humanidade. 

Todos os detidos viviam em regime de mancebia apenas com autorização lavrada na conservatória do registo civil. 

Nas palavras declaradas inexistentes não se incluiu a antiga palavra AMOR desde que pronunciada ou escrita com a grafia A MOR que significa superioridade hierárquica. Com benevolência se permite a utilização desta forma (A MOR) menos explícita, para indicar algo que tenha um afloramento sentimental que, sem exagero, poderá ser tolerado. 

Os detidos prestaram as suas declarações, sem necessidade de meios coercivos, por estarem convencidos da justeza e bondade dos seus actos. Assim sendo, foram distribuídos por várias zonas do país para executarem trabalhos de interesse do Estado (apanha da pêra rocha, varejamento das oliveiras, tosquia de gado, limpeza de igrejas e cemitérios, experimentação laboratorial de produtos farmacêuticos, etc.) num processo de substituição dos indivíduos oriundos de outros países, que executam essas tarefas, para onde serão recambiados a custas dos países de origem. 
Bem entendido que não poderão contactar-se entre si ou com outros detidos tomando as suas refeições e dormindo em espaços limitados a um só indivíduo com instalação sanitária básica ao nível do solo. 

A todos os que vivem neste nosso país, os detidos se sentirão reconhecidos, por ser o nosso povo a custear a sua sobrevivência em serviços para o bem da nação e com respeito pelos princípios da convivência pacífica com os nossos aliados internacionais. 

 



 

Imagem de ChatGPT
 



Uma mulher
com idade para ser avó
ocupa-se da mesma actividade
que o seu neto
um dedo move-se
para cima e para baixo
num rectângulo luminoso

sobre o colo da avó 
caem do rectângulo mágico 
bocados de nada. 


 

Foto do autor do texto



Em nome de Deus um padre 
derrama uma pouca de água 
sobre a inteligência inicial
contida numa cabeça de criança 

a criança fez-se homem
e toda a vida transportou 
a cruz da incompreensão 
do anonimato de Deus.


 


Imagem de ChatGPT 



O homem está em Viena
no seu quarto alugado
sentado à mesa
que lhe serve de secretária 
luta com a insónia 
às três da manhã 
ouve os cascos de cavalos
no empedrado e escreve

Passou à minha porta a carruagem do filho de Napoleão 

o homem apagou a luz
do pequeno candeeiro de vidro verde
deitou a cabeça sobre as mãos 
sobre a secretária 
e adormeceu. 



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues 

Fala-me de tudo
da cor da casa onde aprendemos a ler
do cheiro da tinta e das madeiras da sala
do guincho do giz naquele negro da parede
dos risos agudos e da voz forte de quem mandava
dos castigos nas mãos a arder em lágrimas 
dos descalços e da sua fome no recreio
da partilha do nosso pão com eles
de ti ao meu lado dias e dias

nunca te vou abandonar ___ disse-te

e hoje já nem me lembro do teu nome

bastou o aroma ao afiar um lápis 
e abriu-se-me a memória 
como aquele sino a tocar para a entrada. 







Vou desenhar a dor
disse o artista 

sentiu que a dor lhe tomava conta dos dedos
era fraca ___ ainda ___ aquela dor
o artista acolheu a sua dor como o acto criativo
temente de que não fosse suficientemente rápido 
para lançar no suporte a dor que tomava forma 
no seu corpo as suas mãos brilharam
como artista pensou na sua dor
como uma flor a despontar sobre o branco

e disse
que a cor seja negra 

e pintou de negro a sua dor que aos poucos 
se fez fogo nas entranhas do artista ___ 
___ e pensou
é sob este fogo que o escultor trabalha o mármore 
e o poeta alinha as palavras

tocai músicos 
as labaredas com que ardem os artistas na sua dor
disse o artista.


 


Foto do autor do texto


O Sol deixou um traço 
no chão do meu quarto
foi a parte de luz
que me coube. 




Imagem de ChatGPT


Tal como a pele das nossas mãos 
a pele do nosso cérebro já não tem
a elasticidade de outros tempos
agora
de tudo o que o magoa 
dificilmente recupera. 




Imagem de ChatGPT



Barcos
fazem caminho pela minha janela
cruzam o mundo
de um lado para o outro. 




Foto do autor do texto



Um lápis branco e um lápis preto
contemplam uma folha de papel
diz o lápis preto para o lápis branco

não dizes nada que se veja 

diz o lápis branco para o lápis preto 

mas eu tenho em mim 
todas as cores do mundo. 




 

Imagem de ChatGPT 



O Natal é a antecâmara onde esperamos para entrar
numa sala cada vez mais pequena 
onde vamos viver trezentos e sessenta e cinco dias. 



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Desejo as todas as minhas leitoras e a todos os meus leitores
uma noite de Natal luminosa plena de belos cânticos 
como se houvesse paz em todo o mundo
e que amanhã seja dia com um sol dourado. 




 

Foto do autor do texto 



Mulher ___ obrigado 
pela dádiva de hoje
a carne 
macia ___ perfumada
o pão 
cozido pelas tuas mãos ___ decididas
o vinho 
de cor sanguínea ___ caloroso
e o silêncio recolhido
pela voz do teu olhar

há dias assim ___ um tempo de ouro
obrigado.

 


 




Esta é a criança 
que os favores do mundo
tornaram homem
a minha vida mudou de mãos 
tantas vezes ou tão poucas
que em cada lugar
ficaram resíduos de ouro do que ouvi
hiatos da minha respiração 
vidros de cor das catedrais que já vi
esta ainda é a criança 
e o seu plangor

são tão longas as noites
que entram pelos meus dias dentro. 


 


Foto de Daniel Filipe Rodrigues


Os poetas
se não tiverem quem lhes dê a mão 
esmagam-se entre duas páginas.







O homem acha que tirar a vida a si próprio 

é desperdiçar a sua vida 

que sendo pobre ainda é valiosa

perante este pensamento o homem decide

matar a fome para continuar vivo. 




Imagem de ChatGPT 




Em toda aquela agonia o homem derramou
sangue no seu lenço branco
e isso durou vários dias até o homem morrer
e deixar vermelho de sangue todo o lenço 
o seu filho homenageou o seu pai
fazendo do seu lenço uma bandeira.



 

Imagem de IKEA


Que de tantos mortos pela Terra
tão poucos ossos se encontram
apenas se contam os 
identificados
classificados
acomodados
nas suas tumbas
e o que se vê é que tanta terra
haja ainda para engolir
homens
mulheres
crianças 
não contando os ardidos
feitos desenhos no vento

que das barrigas da humanidade
se recomponha a humanidade 
em partos de luz e paz
e que se dê seguimento 
à inexplicável invenção nunca inventada 
e sem início infalível que se saiba
deste universo sem medida
mas tão importante como
a orquídea do meu jardim.

 



Ao som de Keith Jarret
só eu a jantar e Keith a tocar 

vem Keith senta-te à minha mesa
não toques em nada a não ser
no teu piano nas teclas negras
da minha sensibilidade
ouço-te com qualquer ementa
estou sozinho contigo

nem sempre temos com quem partilhar
a refeição que coube a cada um
mulher 
como eras bela nos momentos de êxtase. 




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Guilherme Parente
1940 - 2025
Foto de Espaço DOCAS



Imagem de ChatGPT


A minha poesia é como um rio
entre as margens
da euforia e do desalento 
do pecado e da bênção 
do desejo e da rejeição 

os meus poemas 
depois de se calarem 
afogam-se aos poucos
como se fossem escritos
em barcos de papel. 




 

Foto do autor do texto




                                      Ser poeta não é uma ambição minha. 
                                        É a minha maneira de estar sozinho.
                                                                                                Alberto Caeiro 
                                                                                                                            
                                                                                                                                      


Na verdade
tenho o silêncio sentado ao meu lado
é por isso que não falo
afinal o silêncio é nada
por isso escrevo

o que existe mesmo
na lonjura que toda a realidade
ganha na construção do solitário 
são as duas laranjas ao fundo
da minha oficina de poesia.