Foto de Daniel Filipe Rodrigues 


Já não creio em nada
a dor do corpo e do espírito 
sempre reaparece nas madrugadas
como chumbo
ou como um animal pesado
aninhado no abdómen 
como se a vida fosse um corpo humano
nascendo na boca
e morrendo nas plantas dos pés 
e a dor do corpo e do espírito 
será o sinal divino
de que as blasfémias são castigadas
sem pau nem pedra

esta dor mata-me
hei-de ressuscitar mesmo descrente
nem que seja noutra boca. 


 


 

22 comentários:

  1. O poeta capta com precisão cirúrgica aquela agonia existencial e física que parece pesar mais durante a noite.
    O poema profundamente visceral e doloroso contrasta com a beleza bucólica da fotografia.

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  2. Quando a crueza da dor humana é justaposta à serenidade da natureza, ambos os elementos ganham mais força.

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    1. No silêncio, a dor humana faz-se ouvir silenciosamente com mais intensidade.

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  3. As noites podem ser longas e doridas...a dor torna-se mais forte, mais palpável...a resposta pode estar em abrir uma janela e apreciar a beleza da natureza...
    Enfim, voltar a respirar...
    Beijos e abraços
    Marta

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  4. As dores sobretudo durante a noite são tramadas mas todos os humanos têm ferramentas quando se tem uma cama, almofada e um colchão, mas os que nada têm o que diriam? e os feridos das malditas gerras! Fiquei agoniada e sentei-me no banco da bela foto!
    Beijos e um bom domingo!

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    1. É verdade, há quem esteja no Inferno na Terra.
      Bom domingo.
      Um abraço.

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  5. De alguma dor se morre, ou vai morrendo, assim é a lei que nos habita da ponta dos cabelos à ponta dos pés.
    Ressurreições a sério apenas conheço (por ler e ouvir falar) a de Cristo e a de Lázaro (cujo nem sei se voltou a morrer logo a seguir). E não me acredito a querer reviver.

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    1. A poesia é um espaço de liberdade e também de absurdo.
      Um abraço.

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  6. Es dificíl convivir con el dolor.
    Después de mi prolongada au sencia, vuelvo a visitarte.

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    1. Me alegra tu regreso; hacía mucho que no venías. Me alegra que hayas venido; este lugar no ha sido olvidado.
      El dolor es un estado del cuerpo y del alma, y ​​todos lo sufriremos tarde o temprano.
      Un abrazo.

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  7. A descrença não ajuda.
    Mas acreditar em quê?
    Boa semana.
    Abraço.

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    1. A descrença conduz o homem a soluções erradas e perigosas.
      Boa semana.
      Um abraço.

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  8. Um poema de dor e descrença, onde o corpo se torna lugar de passagem entre a morte e a possibilidade de renascimento. Há nele uma força imagética inquietante, sobretudo nesse animal pesado que se aninha no abdómen e nessa ressurreição final “noutra boca”. Um poema sombrio, mas estranhamente luminoso na sua última promessa....

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    1. A poesia conduz-nos ao irreal, pela observação do real e de todo o absurdo da vida.

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  9. Boa tarde Caro Poeta/Pintor
    Há poemas que não procuram uma resposta para a dor: procuram uma linguagem onde a dor possa respirar. Este é um deles.
    A descrença que abre o poema não é propriamente ausência de fé, mas talvez o resultado de uma luta prolongada entre o corpo, o espírito e aquilo que os transcende. A dor reaparece nas madrugadas “como chumbo”, pesada e inevitável, mas logo ganha uma dimensão quase animal, tornando-se presença física, criatura alojada no abdómen. O corpo deixa então de ser apenas corpo: transforma-se em metáfora da própria existência.
    Especificamente poderosa é a imagem da vida “nascendo na boca / e morrendo nas plantas dos pés”. Entre esses dois extremos, a existência percorre o corpo inteiro, como se nascer e morrer fossem movimentos de uma mesma matéria. E, quando a dor é lida como possível “sinal divino”, o poema instala uma tensão amarga entre blasfémia, castigo e descrença.
    Mas o verso final desloca tudo. “Hei-de ressuscitar mesmo descrente” contém a contradição essencial do poema: mesmo sem acreditar, o sujeito poético conserva uma espécie de impulso para além da morte. E ressuscitar “noutra boca” é talvez a mais bela e inquietante das imagens: sobreviver na palavra, no desejo, na memória ou no corpo de outro.
    É um poema que começa por negar a fé e termina, paradoxalmente, inventando uma forma de ressurreição. E talvez seja justamente aí que a poesia encontre a sua própria espécie de crença.
    Boa semana!
    :)

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    1. Maravilhoso este seu comentário, a sua leitura dá valor a este texto. Sobreviver noutro corpo, como o absurdo pode ser poético.
      Boa semana.
      Um abraço.

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  10. Quando ressuscitares, avisa-me
    Talvez, então, juntos
    possamos mudar o mundo...

    Abraço poético

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  11. Boa tarde Poeta,
    Um poema belo e ao mesmo tempo desconcertante!
    «O poeta parece dizer que, mesmo quando a fé se desfaz e a dor domina o corpo e o espírito, permanece no ser humano uma misteriosa vontade de sobreviver à morte — nem que seja através da palavra e da memória de outro».
    O seu poema deixou-me muito pensativa e reflexiva!
    Um beijinho,
    Emília

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    1. A sua interpretação é perfeita. Podemos ressuscitar na memória dos outros.
      Um abraço.

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