Um desenho


Meu filho

toma este lápis 

e contorna a minha mão 

sobre o papel ___

___ que vês? 


A tua mão 

pai! 


Agora pousa a tua mão 

dentro da minha

e eu desenho-a

com o mesmo lápis ___

___ que vês? 


A minha mão dentro da tua

pai! 


Repara meu filho

como cabes dentro de mim

e tudo isto assim ___

___ com os nossos corpos

e as nossas almas


Um dia meu filho

terás a tua mão já grande

com o meu punho fechado

dentro dela


Guarda contigo o nosso desenho

um dia caberei eu dentro de ti

em forma de memória.



 

Dedicado aos meus três filhos,  

todos com talento para as artes. 



 


Foto do autor do texto a partir do documentário
 "Quando os impressionistas quiseram pintar as paredes". 




 

Memórias

 

Poderia talvez escrever as minhas memórias 


Não daqueles diários belos e tranquilos 

em que tudo está certo 

com infâncias felizes e uma vida abastada 

com histórias bem dispostas de famílias grandes

coniventes e bem sucedidas 


Poderia talvez escrever as minhas memórias 


Mas em páginas nada belas nem tranquilas 

com tempos e lugares errados 

com uma infância assassinada 

com mosaicos de atitudes e decisões falhadas 

e com pedras em falta que estragaram o desenho final 

com noitadas impuras vividas à luz do dia 

e muitos corpos dissolvidos em fogos 

que explodiam à mínima falta de paciência 

louça suja 

copos vazios 

camas desfeitas 

mãos desencontradas e unhas roídas 

árvores de natal nunca acabadas

correrias e chegadas sempre tardias

foices perdidas na ceifa

Histórias que encheriam páginas  

com a vertigem da velocidade 

de um comboio desgovernado 

desobedecendo a todos os sinais da prudência 

colhendo quem se cruzava  

na passagem sem guarda 

no tempo incerto


Pior ___ talvez o Diário Remendado do Pacheco


Escreverei sim sobre a vida em pequenas doses 

para que não nasça de repente e irreversível 

toda a crueldade das palavras.




 

 


 Foto do autor do texto tomada de um presépio popular






Nos bairros antigos


Estão à janela por todo o lado

as coscuvilheiras


têm as faces vermelhas

pelas carícias vigorosas dos seus homens 

e riem-se das outras 

das que faltaram hoje à tertúlia 

as coscuvilheiras


cochicham sobre as que vão passear

as suas pestanas de compra

enquanto sacodem os tapetes

com sonoro e sem cuidado 

as coscuvilheiras


recolhem a casa quando escutam

o genérico do episódio dramático de hoje 

que lhes enche o espaço que têm no coração 

no intervalo preparam com desvelo

o lanche para os filhos que chegam da escola

as coscuvilheiras


à noite ficam de novo com as faces vermelhas

pelas carícias vigorosas dos seus homens

têm quase sempre dor de cabeça 

por isso dormem e sonham com uma visita

à Disneylândia


As coscuvilheiras terão sem contestação 

lugar eterno nas janelas do céu.






 Foto de Augusto Rodrigues 





Recordo-me


A infância era isto

o bater de um coração pequenino

e a transformação das coisas

ficando sempre tudo igual


O mundo todo 

era composto por crianças 

e nada era decisivo

a não ser o sol de domingo 


Sem surpresas amanhã 

e nos outros dias todos estaríamos 

nos lugares de sempre 

e todos nos reconheceríamos


O mundo era imóvel 

e o nosso coração pequenino 

era a razão dos outros

dos que nos pegavam ao colo


A tristeza não existia ainda ___

___ nem a palavra

e a alegria era um gato 

aos saltos na minha cama


Muitos anos depois

muitos domingos sem sol ___

___ depois

o meu coração pequenino 

cansa-se com tanta saudade.




 


Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM





Queixa contra desconhecidos


Um dia chegará a tua vez

a tua voz não terá eco e

nada do que disseres terá som

quem te ouvir virará a cara 

a sorrir para os outros

e verás como um desses outros

rodará um dedo apontado à cabeça 

enquanto encolhe os ombros

Após cada palavra sentirás 

a revolta mas ___ sorrirás também 

já que nenhum deles te viu nascer


Um dia chegará a tua vez

de pousares como uma ave

sobre os ombros de todos

cansado da viagem

pelo contínuo da noite por onde

um homem transporta o coração.






Na publicação de ontem, devido à forma como se apresentava o conteúdo, o texto publicado foi, por alguns leitores, atribuído a António Salvado. Esclareço que o poema é da minha autoria. 

A menção ao poeta António Salvado foi uma pequena homenagem no dia da sua ausência.