Arte inútil 


Olho para a folha branca 

sobre a mesa

muito branca

um quadrado de luz

fico a olhar

e a pensar


pinto uma ligeira cor 

suave cor de pele

em quadrado

e duas pinceladas

uma de cor laranja 

e outra preta

escrevo

     como no amor

     já nada tenho a dizer 

     na pintura


não fiquei triste

afinal a arte é inútil.



 

Foto do autor do texto




Infância IX


Escondia-me no meu quarto às escuras

e chamava a minha mãe com uma voz aflita

zangava-se a minha mãe com a brincadeira


Um dia 

a minha mãe chamou-me com uma voz aflita

zanguei-me com a escuridão e com a morte

e nunca mais brinquei ao quarto escuro.








Foto do autor do texto



Fica quieto


Nada se resolve 

entrelaçando os dedos

e fazendo esgares de dor

cada sulco na lisura da vida

são traços a esculpir a estátua 

em que nos vamos tornando

e dói 

por vezes dói 

mas nada se resolve

entrelaçando os dedos

e fazendo esgares de dor


fica quieto e assume

que és uma estátua 

não há maior força 

do que ser capaz de parar

o fim do mundo dentro de nós.



 

Foto do autor do texto



Estar no silêncio 


Às vezes um poema

é tirar palavras do

silêncio

silêncio 

de onde não é possível sair.





Foto de Daniel Filipe Rodrigues



A utopia


Abrimos as mãos 

e a esperança escorre-nos

pelos dedos

ao mesmo tempo que 

calamos o grito que trazemos

no céu da boca porque

não há campos que

não possam ser invadidos

nem abrigos invioláveis 

no medo ___ metemos

as mãos à boca

para calar os versos impróprios

escrevemos o poema

com os olhos 

para não sermos descobertos

sentamo-nos na nossa própria sombra

e meditamos

sabemos que está incompleto

o projecto para a utopia.



 



Fahrenheit


Hoje acordei e disse-te

Bom dia

tinha acabado o meu sonho

e eras tu vivendo nele

disse-te

Bom dia

e era o primeiro dia

em que ia folhear o livro

de páginas todas brancas que ficou

do nosso romance inacabado


um bando de papagaios

escolheu o nosso jardim

pensando terem chegado ao paraíso 


tudo branco no entanto

sem som

disse-te

Bom dia

e ao meu lado o deserto

todo branco e silencioso 

com um ligeiro sopro

de Fahrenheit do meu corpo 

na tua almofada.



Foto do autor do texto 




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



As vozes e o silêncio 


As vozes dos outros chegam-me

pelos alicerces da minha casa

baixo o som da música 

que tenho sempre a tocar e ouço 

sobretudo vozes de mulheres

e crianças que choram

os sons ficam ali imóveis 

misturam-se com a música 

e com a minha respiração 

há uma injustiça 

no espaço que o silêncio ocupa 

há uma injustiça 

na distribuição das vozes.



 

Foto do autor do texto



Armário/memória 


Guardo as minhas memórias num armário 

     o último copo de um encontro

     o charuto ardido de um amigo

     bilhetes de avião já voados

     cartões de hotéis com e sem estrelas

     lápis e canecas de museus  

     um cravo antigo ainda vermelho

     nomes ___ muitos já eivados de tristeza

     os brinquedos dos meus filhos


escuto a tua voz que vem de dentro 

desse armário/memória 

o que dizes ___ não entendo

mostra-me o teu corpo

é a única memória que me falta.