Chat GPT



Somos estátuas mudas
sentadas no nosso sofá pedestal
frente ao rectângulo de luz
comemos e bebemos
e damos estalos de prazer com a língua 
no quadrado luminoso homens correm
levados pela multidão 
com um esquife branco ao alto
um vencedor morto
e outro
e outro
e uma criança 
os vencedores são os que morrem
e são erguidos na glória 
sobre a dor dos que ficam

as estátuas também são brancas
de mudez
não são poetas
não são sacerdotes
não são médicos 
não são isto nem aquilo
não são nada se não 
estátuas que trabalham e procriam
e se esmagam contra as paredes 
da vida pelo excesso de velocidade 
de não pensarem em nada

no rectângulo de luz está tudo
o que pensaram para eles
os que pensaram para eles
e os tornam felizes
por não pensarem
tal e qual as estátuas 

numa nuvem de pó no horizonte
adivinha-se um exército de buldôzeres
a aproximar-se.


 


 



As sombras seguiram-me
e com tal velocidade
que me passaram à frente 
assustado tornei-me lento
um nevoeiro pesado
começava a cair sobre a cidade
muitos passos depois
as sombras estavam à minha frente 
tinham ficado à minha espera 
uma voz de mulher disse 
quase como uma pergunta  
 
     por que não és paciente?  
 
não respondi e continuei a andar
sem sair do mesmo sítio 
como se o tempo tivesse parado 
disse  
 
     não gosto de esperar 
     pode ser tempo gasto em vão  
 
a voz da mulher sombra disse 
 
     se esperares talvez te encontres a ti próprio 
     és tu que persegues a tua sombra  
 
o nevoeiro pesado caiu sobre a cidade.


 


 

Foto de Bartolomeu Rodrigues



Em outubro queres falar-me de agosto 
caminho com as folhas do bosque
coladas aos meus pés ___
___ mas tu não vês 
não compreendes que se sai do outono
e se entra de novo no outono
que foi para onde agosto nos empurrou. 


 




Como é angustiante o meu encontro
com a luz baixa do crepúsculo 
o momento de encerrar as portas do dia
espreitar o início da noite por entre os estores
ficar a ver os olhos luminosos
dos animais do céu
ao som dos batimentos do sangue
pelas artérias fora
eu
como um país desértico no crepúsculo 
que se move ao som da sopa da noite 
que já ferve e me alimenta
marco encontro com o novo dia. 


 



 Saúdo os meus leitores/as
e regresso radiante por voltar ao Vosso convívio. 



IA



Eu trago escondido o cântico das mulheres
das reais e das imaginárias 
essa é a população da minha solidão 
das minhas florestas a arder
dos rios em mim que secaram 
das sinfonias que terminaram

das noites guardo tudo 
em palavras dentro da minha boca
tudo em busca dos cânticos das mulheres
tudo se esvai no castigo do fumo
de cigarro atrás de cigarro
trago escondido o cântico das mulheres. 


 



Caros leitores/as
Estarei ausente do Vosso convívio  até ao dia 1 de Agosto
conto com a retoma das Vossas indispensáveis visitas nesse dia. 
A poesia continua. 
Um abraço.



IA



Como último recurso para viver
a vida complicada e absurda
tornei-me prático de ciências ocultas

acabo de comprar
um mocho empalhado
um baralho de tarô
um saquinho de búzios 
e meia dúzia de velas

é madrugada ___ fico 
a combinar as setenta e oito ilustrações 
e à espera do cantar do galo. 


 





Voando me aproximo do mundo
planando desço sobre o rio estreito
aumento a velocidade e corro
no sentido das águas 
aves seguem-me em silêncio 
até sermos um bando 
 
voamos para a certeza
de que o futuro existe

de homens nos tornámos aves
tomaremos novos nomes
num imenso país novo
e de novo nos tornaremos homens
com toda e experiência
de termos estado perto do céu  
 
chegámos ao futuro
onde o tal país novo 
não existe como novo
é um velho país de caçadores 
este nosso voo foi apenas
uma breve passagem pela vida.


 





És clandestino
disse uma voz

nesse tempo 
eu punha a fome em cima da mesa
e dormia num colchão de palha

ser clandestino 
talvez fosse ser livre
nesse tempo
de desejo e de uma casa incerta. 


 


IA



Tomo um atalho
entre as trevas e o silêncio 
ao longe homens em paraquedas
caem como neve
por sobre os muros vejo
mulheres de regador em punho
obrigando as suas flores a viver
cabras a exibirem as hastes
para os cães funcionários 
homens a carregarem cruzes
com metades de Cristo
pessoas descalças 
a empurrarem os seus velhos

chego ao fim do atalho e encontro
um vasto campo de cogumelos. 



 

Foto do autor do texto



A memória 
é uma cafeteira de água a ferver

lembro-me de tudo

da ninhada de gatos debaixo do meu sono
do aroma provocador dos bolos na fábrica das traseiras 
do azul em construção em frente da minha varanda
do pequeno caixão branco que ajudei a passo lento
do rio entre mim e a cidade um imenso mar 
dos domingos e do sol que os pais nos ofereciam

lembro-me de mim como se tivesse existido 
e já soubesse agora quem sou. 

 




Foto do autor do texto



Criança 
Prado
Melodia
Céu 
Futuro
Sossego
escrevo algumas palavras certas
e destas nascem outras
felizes inventos da língua 
de quando era o princípio 
e não existiam palavras infelizes

escrevo sentado na cadeira do tempo
sabe-me a boca a sândalo de dia
e a canela de noite 
escrevo palavras certas e felizes
há um eco que repete as palavras
por isso me algemaram 
mas não me arrependo do poema.


 




Encontro no meu lugar de sempre
uma mulher
uma silhueta sombra de um desejo antigo 
um desenho no lençol branco da espera

e faço do desejo um acto
como uma corrida pela planície 
como em outubro desejar agosto 
como ter encontrado uma definição para tudo

sempre com medo de errar
escrevo-lhe um poema com as mãos 
sobre aquela beleza inesperada e tranquila 
como um invento de uma língua nova

o poema começa e acaba assim
Se o teu sorriso fosse a pintura da tua boca
fazia-te um poema com palavras novas
porque a poesia é uma coisa muito séria.


Foto do autor do texto



É ali que fico
numa mesa do café antigo 
como se fosse o lugar
onde o meu espírito vive
contemplando o mundo 
nessa mesa os mapas inteiros
de países imaginários que deixaram 
os que passaram por ali
círculos de café 
impressões digitais
sons impressos
lamentos
revoltas
despedidas
é ali que fico
numa forma de não estar só 
até que se apaguem as luzes.