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Ao som de Mahler 


Sinto com os meus dedos

todas as dobras do teu corpo 


ao som de Mahler 


consigo entender o fascínio 

do caminhar das mãos sobre os suspiros 


ao som de Mahler 


o encontro com o possível

mundo do impossível 


o êxtase repentino


como pássaros a morrerem às dezenas

em fuga para um lugar seguro


ao som de Mahler.






 

Foto do autor do texto



Falo por alguém que vai

a caminho da perfeição 


Aqui estou como se dormisse sentada

com a cabeça a pender abaixo do ombro

pensam que durmo mas vejo tudo

por detrás dos meus óculos de luz

a todos pareço já imperfeita 

mas ninguém vê que sou 

como água deslizando para a terra

chegarei ao país onde estão 

os que vivem devagarinho

e aí tudo será eterno


sairei do tempo em breve

como água deslizando para a terra.



 

Foto do autor do texto




Numa noite acreditaram


Foi numa noite

antiga noite

dedilhadas todas as cordas

de uma viola delta* em diálogo 

com uma harpa dolente que desiste

se encontraram dois estranhos 

com sorrisos de criança 

dançaram mágoas comuns

numa falsa clareza

até ao fim da noite

da antiga noite


então os estranhos conheceram

as suas diferentes cores

os seus diferentes símbolos 

e as palavras desiguais

invadiram-lhes as entranhas


foi numa noite

antiga noite

em que dois estranhos apesar

das diferentes cores

e dos diferentes símbolos 

adormeceram num lugar quente

com os corpos coincidentes

ao som de uma viola delta em diálogo 

com uma harpa dolente que desiste

transformando a raiva em desejo

e o desejo em angústia 

por acreditarem no amor. 


 

*homenagem ao poeta Fernando Grade




Foto do autor do texto



Já fui dois


O triste sulco do tempo no meu corpo 

lembra-me

as mãos dadas que ficaram

numa cama longínqua 

numa cidade já fria

cujo nome escrevi no meu diário 


o sulco do tempo riscou também 

todo o meu diário 

e acabará por me matar

porque só estive vivo

quando eu ___ éramos dois

e ainda tinha festa de aniversário.



 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



O meu coração 

sou eu e não sou eu


Espero-te

e em cada ruído julgo que chegas

mas o som

é o meu coração a bater

um coração relógio a bater

dentro de uma caixa escura

já não reconheço os teus passos

de há tanto tempo

não se aproximarem 

por isso


sento-me a uma mesa

com uma toalha em vermelho escuro

ponho à minha frente a caixa

que contém o meu coração 

e digo-lhe


vou separar-me de ti ___ coração

fizeste-me sentir amargurado e inquieto

por mim

vou entrar na clandestinidade

e deixarei de respirar 

e tu ___ morre por mim sem me o dizeres.


 

Foto do autor do texto


Um segredo não se conta


Força-te a contar um segredo

a quem tens à mão 

vá ___ tenta

tu precisas de partilhar essa amargura

não importa com quem

terás então a tua mão direita

cheia de outras mãos 

e a crença de que afinal

em ti o mundo é um lugar

de felicidade imprevisível 


foi isto que Alessia me disse

no último Natal que passei em Florença 

momentos antes de lhe ter confessado

que já não a amava


fiquei numa situação comparável 

à que temos quando paramos de andar

por termos uma pastilha elástica 

colada à sola do sapato.



 


Foto do autor do texto



Na espera


Na tua ausência 

suspendo a respiração 

respiro apenas saudade

pelos poros do meu corpo


ficarei desnudado

à tua espera.