Esperando o comboio
Numa central estação de comboios
na solidão de quem viaja sozinho
dou à luz um poema
num parto em silêncio
a mãe chinesa com um filho
ao colo e outro pela mão
sem outras mãos que a ajudem
o velho que fala ao telemóvel
encostando-o à garganta
no buraco de onde sai o som
da sua enfermidade
a mulher de canadianas e mala
equilibrando-se como uma artista
de circo pobre e sem público
nenhum percebe que faz parte
do poema e que ficarão todos juntos
nesta fotografia de palavras
vê-se nas suas caras
que não são turistas
já não descobrem cidades
nem poemas
descobrir cidades sozinho
é uma forma de descobrir
que se está órfão
mas isso eles não sabem
nem de mim nem de si próprios
afinal ganho um poema
mas em cada partida perco
todas as cidades
todos os que estão comigo
todos os que estão nas salas de espera
fico sozinho e órfão
mas estou sereno
fiz um poema
e tenho o sexo adormecido.







