Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Esperando o comboio


Numa central estação de comboios

na solidão de quem viaja sozinho 

dou à luz um poema

num parto em silêncio 


a mãe chinesa com um filho

ao colo e outro pela mão 

sem outras mãos que a ajudem


o velho que fala ao telemóvel 

encostando-o à garganta

no buraco de onde sai o som

da sua enfermidade


a mulher de canadianas e mala

equilibrando-se como uma artista

de circo pobre e sem público 


nenhum percebe que faz parte

do poema e que ficarão todos juntos 

nesta fotografia de palavras

vê-se nas suas caras 

que não são turistas

já não descobrem cidades

nem poemas


descobrir cidades sozinho 

é uma forma de descobrir

que se está órfão 

mas isso eles não sabem

nem de mim nem de si próprios


afinal ganho um poema 

mas em cada partida perco 

todas as cidades

todos os que estão comigo

todos os que estão nas salas de espera

fico sozinho e órfão 

mas estou sereno

fiz um poema

e tenho o sexo adormecido.



 





Falo para mim próprio daqui a cem anos 


És antigo 

do tempo ainda do sortilégio da tecnologia

das conexões globais

e da presença instantânea na cara do outro


encerra a tua infância de vez

para que nunca mais tenhas de voltar

a esses lugares antigos


estás no futuro 

sem que saibas ainda o que isso é 

mas ainda assim que não se interrompa a esperança 

da descoberta como acto vivificante


ainda que ficar à espera nem sempre seja compensador

aproveita para não desarrumar a memória

não metas as mãos na tristeza


dizem que

a melancolia é um encargo dos poetas

por isso enquanto esperas canta uma canção inútil 

para mostrares que ainda estás vivo


és antigo

encerra a tua infância 

estás no futuro.



 

Foto do autor do texto



Hipoteca


No meu último amor

hipoteco o brio para comprar a paz

é tarde para investimentos de risco.





Foto de Daniel Filipe Rodrigues


Vivo morto


Já estou morto e ainda ninguém sabe

telefonam-me e como me ouvem falar

não sabem que já morri

os meus continuam a pôr um lugar na mesa

esperam que eu chegue a casa

como falto julgam que durmo fora


eu ___ já morto consulto um mapa

para determinar onde a morte me levou

a geografia nunca foi o meu forte

e os cuidados com o corpo também não 

descubro então vários lugares que são 

apenas um numa exígua imensidade

e fico a saber que morrerei mais vezes

assim ___ numa sucessão de mortes

a que chamam vida


     Para mim morreste! 


disseram-me ___ 

___ e eu morri e vivi de novo.



 

Foto do autor do texto 



Viagem


Olho para a minha mala 

encostada à parede

espera pela viagem ___

___ a mala é nova

e a viagem que fará é antiga

em direcção ao que foi

o meu lugar de partida.




 




A primeira morte do meu pai


O meu pai vem devagar

pelo corredor ___ longo ___

da nossa casa 

há pouca luz no tecto branco

o meu pai apoia-se 

com a mão direita na parede pintada

com decoração a imitar mármore 

o meu pai cai de joelhos

e depois sobre o seu lado esquerdo

há um cheiro estranho no ar

eu grito

            mãe! 

o meu pai não fala ___ parece morto

o seu corpo expeliu o que estava 

a mais ___ o que o estava a matar

senti que era o fim do mundo

que mais tarde descobri ser pânico 


o meu pai morreu pela primeira vez

nesse dia

eu fui valente e não chorei 

o meu pai morreu a última vez 

quarenta anos depois

foi há muitos anos

eu fui valente e não chorei.



 

Foto do autor do texto 



Tenho companhia em casa


A solidão decidiu morar na minha casa 

quando chego páro o motor do carro

e espero uns momentos

vejo que não há luz e que tudo está em silêncio 

ela já lá está ___ chega sempre antes de mim

decido dormir num hotel

para não me encontrar com ela

quando abro a porta do quarto

já ela está deitada na cama à minha espera

julgo que a minha solidão é mais do que uma

ou está em todo o lado ___ como se diz de Deus

decido dormir com ela mas


ando sempre descalço para ela não dar por mim.



 

 

Foto do autor do texto tomada do canal Mezzo



O nosso mar


Trago-te um búzio com o mar dentro

todo o mar possível ___

___ que não existe

mas que te ofereço 

para que não esqueças 

que foi nesse mar 

que o nosso amor se afogou.