Foto do autor do texto



Cicatrizes


Vá ___ que o mundo novo

seja em breve

já tenho o corpo cheio de cicatrizes

quando me vestirem confirmem

a brutalidade da luta

pelo mundo novo adiado


pacientemente adiado

entre a raiva e o desígnio 

convoco então 

o prazer dos sentidos

para ter o entendimento 

do efémero 

e na agonia canto vitorioso

as cicatrizes do meu corpo.



 

Foto de Ana Luís Rodrigues



Com música 


A dor dos homens

está contida 

sob um pisa-papéis 

com que nos prendem


põem a tocar

a música que nos agrada

e dançam 

à nossa vista


ninguém ouve o grito

e chove em dilúvio 

sobre a nossa liberdade 

embora com música 


todos temos nomes

mas invocam-nos por números

sabemos tudo sobre

tristeza angústia frustração fome


embora com música 

ah

falta a violência 

embora com música.





Foto do autor do texto


As lágrimas 


À noite 

folheio os lençóis da minha cama

como se procurasse uma história perdida

naquele rectângulo de luar

já é verão deito-me descoberto

e sobre a tua almofada

vejo as lágrimas escuras L’Oréal

que deixaste

amanhã compreenderei que há razão 

para que a morte se lembre

dos nossos melhores 

ela recolhe os poetas

alimenta-os

e torna-os imortais


esta é a história perdida na minha cama

de umas lágrimas escuras L’Oréal

e do poema que chegou tarde ___

___ no cinzeiro ficou a tua boca.



 


Pintura (excerto) de Fernando Botero


Infância XI


-Pai

por que tenho de pagar bilhete 

se viajo ao teu colo? 


-Meu filho

porque és uma pessoa 

embora pequenina e assim 

pagas apenas meio-bilhete


-Então a nossa vizinha Laura

que é anãzinha

se viajar ao colo do marido 

só paga meio-bilhete?







No interior do lugar de exílio 


Traço um circunferência no meu lugar de exílio 

demarco o conteúdo sabendo que a vida

é ela própria o lugar de exílio 

com comoção vos recebo 

à porta da circunferência do meu lugar de exílio 

sei que não poderão ficar

peço-vos então que levem o meu nome

e o ofereçam 

a cada criança que chore

a cada humano sem tecto

a cada artista a quem cerziram a boca

a cada um ___ um nome

a cada um ___ o seu lugar de exílio 


traço uma circunferência à volta do meu desejo.



 



Foto (fragmento) de LEONARDO WOLF



Para os madrugadores

Escrita escura para os madrugadores

é o que faço 

oculto as marcas ilegíveis 

nas impressões que deixo

para os que são grandes 

e para os que são pequenos 

nos seus dias ___

___ digo-vos até 

que os grandes só existem

porque existem os pequenos

e para todos existe a madrugada 


findo o poema acordo ___ sim

e tenho as orquídeas abertas no jardim. 


 





O abandono sobre a mesa


Sobre a mesa descansam

as ideias

os projectos

os pensamentos 

tudo em forma de abandono

contra a minha vontade

 

estando no entanto esta adiada 

transfiro toda a acção para a tela

onde se combate

a vontade e a dúvida 

o luminoso e o obscuro

a certeza e o engano


quando o choro de uma criança 

nos acorda da letargia

e a realidade nos agride

no nosso estado poético 

estamos doentes acamados  

sobre a mesa do nosso abandono.


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Dia Mundial da Poesia

A poesia é um par de canadianas
com que ando sem pôr os pés no chão.


 

Foto do autor do texto



De onde vêm as palavras?


De onde vêm as palavras? 

que bocas antigas inventaram

de grunhidos e suspiros se fizeram 

para chamar e reconhecer

a força do trabalho e os seus instrumentos 

esses que fizeram 

das dores

do frio

do medo 

as palavras sem letras

as que ensinaram de boca em boca

que repetimos agora

sem que tenhamos esquecido

os grunhidos e os suspiros 

as dores

o frio

o medo

em cada palavra em cada som

o peso da humanidade


um grupo de homens e de mulheres 

conversam e alguém pergunta

de onde vêm as palavras?

esse foi feito prisioneiro.