As tuas tranças naquele tempo 


Eras bela naquele tempo 

de uma beleza límpida. 

O único exotismo eram as tuas tranças

que desenhavas com labor em ésses e ésses 

até ao fim de um abecedário

de letras todas iguais. 


Depois brincavas com elas 

como um terno chicote no meu rosto

até eu te desfazer esses versos que trazias nos cabelos. 


E só isto ____ porque palmilhei uma vida, 

até aqui, com o desejo amordaçado. 

Naquele tempo guardei-te na minha caixa de imagens 

com um impulso emocionado do meu dedo. 


Conservo um retângulo de papel Impresso a preto e branco 

onde dourei a lápis de cor o teu cabelo 

junto a uma trança inteira com um laço vermelho.






Como meio de defesa

Ocorreu-me uma ideia 

Vedar a entrada ao cupim.

Ide bater a outra porta 

Digo eu na minha escrita. 


Não sei da sua eficácia 

mas dou-lhe a informação 

sento-me e faço de morto 

talvez afaste o papão.

Para ter credibilidade 

assino a informação 

actuo com seriedade 

para que não haja objecção.











Um vómito de ventura


Tardava o renascimento da primavera do mal

como uma aurora dourada.

Aqueles que não acreditavam 

que das pedras tumulares se levantaria

a infâmia, a calúnia, a aleivosia

esfregaram os olhos descrentes. 


Deixaram florescer os cardos e as plantas parasitas

que a natureza cega produz. 

E vozes já se ouvem e alguns escutam

no fundo da sua raiva um vómito 

que a sua ignorante esperança aprova 

como a ventura que chegou para a vingança.

Avisem-se,

passem palavra!




Albrecht Dürer 



Dormir 


Vou dormir nos restos do dia. 

Recosto-me com um livro 

apenas com a luz fundamental 

respirando devagar 

até as vozes das páginas

me chegarem aos olhos. 

Depois durmo

como se ensaiasse a minha morte. 




 




Histórias de amor


Hoje estou tão feliz, pá! 

Tomei banho com um gel caro

que sibilou para a minha mão 

como claras em castelo

com um aroma de rico. 

Depois almocei uma pizza

entregue ao domicílio 

e que muito lentamente

ficou toda para mim. 

Sentei-me a ler a carta

que ficou da tua despedida

tive de fazer uma pausa

para conseguir digerir-te. 

A seguir tive de ir ver

um filme erótico esquecido

que foi ficando adiado

sempre com justificação. 

Jantei cerveja dourada

com um ovo grande cozido 

mais uma cerveja ___

___ mais outra. 

Assisti emocionado

ao Concerto de Paris

que caiu na minha noite ___

___ já noite. 

Dormitei

e pronto, 

achei que já estava habituado

ao novo normal estranho. 

Os pobres não podem ter histórias de amor. 

Hoje estive tão feliz, pá! 




 




Falecem as palavras


Ao longe vê-se melhor.


No calor da disputa falha-nos o olhar 

e cuidar onde andam as mãos 

e as palavras. 

Deixamos escorrer a bravura 

que nos tolhe os movimentos e 

os pássaros que chocam contra o vidro

apedrejam-nos os ouvidos. 

Tolda-se-nos o olhar barricado e 

as palavras são cubos de água congelada 

que escaldam a tepidez da pele da boca 

no encontro dos dentes ___ enormes. 

E como se tornam longas as palavras. 

Falece o equilíbrio 

             a sensatez

             a sabedoria. 


Ao longe vê-se melhor. 

Vou desmontar a árvore de Natal 

já estamos na Primavera. 




 





Sózinho no poema


Como se as nossas línguas 

pendessem mortas das nossas bocas

alguém nos oferece os restos das músicas 

que já ninguém quer. 

Eles não sabem é que a felicidade 

é um jogo de sorte ou azar

que a roleta do tempo

grava na memória. 

Matamos os pecados

mas morremos com eles um pouco

até serem eles a deixarem-nos

naquele deserto de números 

em que as lágrimas ___ as lágrimas 

estão sozinhas no poema.





Fracção de uma escultura de Eduardo Chillida. Foto do autor do texto. 




No outono os prados do tempo 


Em cada móvel que afasto da parede 

tenho um prado de bolor a florescer 

é o tempo teimoso

a cobrir os nossos haveres

a cobrir as nossas memórias. 


Ocorre-me então folhear a vida

e ficar a ouvir o som das folhas a virarem 

onde encontro os meus dedos infantis

em alguns dos momentos abandonados. 


Foi tudo tão rápido 

desde o primeiro ao último sorriso

que deixámos nas imagens. 

Sinto frio no meu olhar

agasalho as minhas velhas ideias

para queimar esta frialdade 

do bolor a florescer. 




 


Foto de Daniel Rodrigues 



Manchas escondidas


Sento-me na minha cama

fazendo traços de luz

no silêncio da idade. 

Mingua-me o desejo

e ainda ontem confessei

esta febre no meu peito. 

Cada poeta cada farsante

só eu sei onde estão 

as manchas no meu corpo. 




 





Morre por uma causa


Esta é a forma de te tornares grande. 

Lança as tuas raivas ao charco

dos teus remorsos, 

constrói andaimes na tua esperança 

sem gritos nem choros 

contra tudo, contra ti 

a favor de ti e dos outros. 

Lambe as horas de fome

quando nada te restar

e tiveres de pôr a boca à espera. 

Livra-te de comeres os gostos

e os desgostos que encontrares

em cada suposto amor. 

Só te tornarás grande quando

te deixares matar por uma causa. 

E mesmo assim 

luta pelo direito ao estertor

não deves morrer sem exibir a tua 

___ Morte.








A voz da tua pele


Faço um poema no teu ventre

escrevo com o meu dedo

na tua pele branca

          Agora

e sinto a tua respiração 

em ondas cada vez mais alterosas

e convincentes. 

Acrescento

          desejo

        rumor

        enlevo

        amora

esta é a música do meu dedo 

na tua pele

como o canto dos pássaros ___ 

___ na tua pele. 

Desta sensação não é possível falar

sem o crepitar de luzes

no alto das colinas

até ao naufrágio dos sentidos. 

Depois

as palavras são sal lançado ao fogo. 


Deixo escrito no teu ventre

          Adeus.







Inventário de palavras


Faço um inventário das palavras 

perdidas. 

Perdi-as porque nunca estive atento 

e acordo sempre outonado. 

Invento palavras que tenham a ver 

com a minha identidade 

até ao cansaço da língua. 

Nem todas as palavras são nossas 

então, apodero-me também 

das que estão distraídas e utilizo-as 

em pensamentos, 

em acusações, 

em transfusões de verdades. 

Perdi muitas em cartas que escrevi e 

deixei fugir algumas das que me acordaram. 

Faço um inventário das palavras perdidas 

guardo estas

          groselha 

          pedra 

          Geneviève

          Atlântico 

          Paris 

          muro 

          ponte 

          carta 

Estou pronto para ouvir as que não perdi 

dou tempo às outras 

para que liquidem as mensagens 

para que dedilhem sons

para que se matem pelo direito à poesia.

 


Foto Gulbenkian/YouTube 




Poema ao Artista desaparecido


Aquele era o lugar onde a pedra se recriava

afagada por duas mãos sábias também de terra

jazentes hoje mais perto e mais fundo. 

Aquele lugar agora escuro e sujo

de onde brotarão ervas sem flores

já nem conserva o resto das tuas cores, 

a faísca do teu cinzel, 

o eco da tua fala. 

As figuras nascidas do teu génio 

de cada mulher que libertaste da pedra

viverão para sempre em algum lugar

depois de ti, depois de mim

até ambos sermos esquecidos.



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Foto do autor do texto


O teu casaco


Chegaste

e nada do que disseste

fez sentido. 

O teu casaco era o mesmo

desde há muito quando

desceste a escada cantando. 

O regresso não existe

o regresso não passa

de um lamento entre dentes. 

Os golpes na memória 

mudaram os lugares ___

___ e as pessoas

a paisagem mudou e

está povoada de fantasmas. 

Leva o teu casaco contigo dentro

antes que o percas também.