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Uma mulher está numa janelada sua boca emanauma canção de coresno seu colo uma criançaque se agitaelas exibema inevitável tarefa de viver.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
Nasceu-me entre os dedos uma florda qual não sei o nomeconsulto uma enciclopédiana letra efe folheando flor a flornão encontroé tão raro nascerem-nos floresentre os dedosque receio não conservar estaque me nasceu agoraprometo-lhe não a abandonare retorno à vidapara que confie em mimdeixo-lhe a minha mão esquerdaaté eu regressar.
Quando é noite completaa que se chama meia-noiteinstala-se a ambiguidade diáriasem alternativapor um ladoo silêncio ocupa todo o espaçoe zune aos ouvidosquase como um prazerpor outro ladoprolonga-se o silênciosem alternativa a não sero som artificialé quando compreendoa inevitabilidade de existirapenas uma voz ___ a minhae isso tem uma designação.
Ser errantecomo aquele que erraque escolhe o que não deviaque diz o que não podiaque não encontra o caminho que sabiaerrar contra muros brancoserrar de janelas fechadaserrar com os sinos imóveiserrar despidoe caminhando ___ caminhandotodos os erros são de idanão há erros de regresso.
Na minha infância nada era adultoo meu sono era a permanência numa grutaescura com animais selvagensque corriam sobre mim como faziao nosso gato que corria pela casa forana minha infância fui sonâmbulocaminhei pelo corredor floresta da nossa casadesembocando na claridade habitadapela minha mãe qual feiticeiramanipulando sobre a nossa roupauma magia fumegante no extremo de uma lianaem que tropecei e me acordoupara o pesadelo da realidadeuma tolice que me envergonhou e terminoucom uma corrida de novo para a camana minha infância nada era adultouma ave pousava no parapeito da minha imaginaçãoe ali ficava imóvel pensando a possibilidadede um poemaaté hoje.
Como gostaria de te reencontrarárvore da minha infânciacompanheira do mesmo espaçocomo gostaria de me abrigarsob os teus braçosabraçar o teu troncocomo quando te entregavaas minhas lágrimas infantiscomo gostaria de te reencontrarsem o desencantode já não te lembrares de mim
as árvores têm memória
as árvores são quase eternasas árvores não falamas árvores apenas estremecem.
Suporto tudoque o esquentador se desliguea meio do banhoque tenha falta de dinheironum fevereiro bissextoque estejam esgotados os bilhetespara o único espectáculo de bonifratesque não haja dinheironas caixas multibanco da cidadeque chova sobre o estendalquase secoque sejam sem fim as grevesnos transportes urbanosque caia a repúblicamesmo que com trovõessuporto tudo ___ menosa prisão inexplicávela uma ideia sem futuro.
Foram todas inúteis as esperassuspensas de um relógioa derramar o tempo sobre a ansiedadevesti a minha alma com o melhor fatocalcei com sapatos novos a minha vontadee ali fiquei à espera de Julhoo mês das cerejasque trarias às mãos-cheiasera Dezembro ______ ali fiquei como uma estátuaquando me removeramderam o meu nomeao beco onde vivia.
Sentou-se com um livro na mãoabriu-oa televisão estava ligadaWagner estava alium momento para o assalto nostálgicode que estava sempre a fugirestar sozinho era aquilosempre o pensamentode que estava sozinhopouca importância tinhamos telefonemas dos amigostudo antigotudo superficialdifícil é ter alguém a quem dizerestou a ler e a ouvir Wagner.
Craft dizum homem precisa de uma mulherElga para não levantar uma sombraao que Craft dissepõe a tocar um disco do agrado de CraftCraft dizuma forma de não dialogaresé Bach entre nósou a falar com os doisElga senta-se no sofá compridocom despreocupação ___ as suas pernasvisíveis até meio da coxa ______ são douradasCraft dizum homem precisa de amar uma mulherElga levanta-se e vai buscar um copoque enche até meio com uma bebidaCraft nunca bebevolta para o sofá e senta-sede novo na mesma posição efinalmente falauma mulher não precisa de amar um homemCraft dizessa é a grande desconjunção ______ desde sempre ___ das paixõesElga toca a bebida com os lábiosdepois perguntadesconjunção com que significado?Elga aparenta grande à vontadee sabedoria no temaCraft respondesem tirar os olhos das pernas douradascom o significado contrário de conjunçãoElga dizo amor não é o mesmopara o homem ou para a mulhera mulher é mãe e amaCroft apercebe-se que a fala de Elgatocou no lugar certo do temae dizo amor por um filho preenche na mulhertodo o espaço dedicado ao amorCraft levantar-se e sem mais palavras saie pensaenvelhecerás e mais filhos não teráse pensaisto será o início e o fim de um poema._____Elga morrerá em 2076sem memória há longos anosabandonada num lar de terceira qualidadepela sua única filha ausentenum país longínquoCraft morrerá uma semana depoisnum acto de coragemimpedindo-se de respirar.
Ao largo há um navio imóveldecerto esquecido da sua rotaou talvez esquecido da data da partidanaquele mar vejo muitos navios infelizeseste que vejo agora tem vidade vez em quando dá à luzumas fumarolas brancas pela chaminétalvez para chamar a atençãoreparo agora que este navio é o mesmodo livro de histórias da minha infânciade onde se ausentou por ter estadoaos anos em abandonoafundo-o no livro de novoapenas com o meu olhar.