Foto do autor do texto



Uma mulher está numa janela
da sua boca emana 
uma canção de cores
no seu colo uma criança 
que se agita
elas exibem
a inevitável tarefa de viver. 


 


Foto de Ana Luís Rodrigues



Nasceu-me entre os dedos uma flor
da qual não sei o nome
consulto uma enciclopédia 
na letra efe folheando flor a flor
não encontro
é tão raro nascerem-nos flores 
entre os dedos 
que receio não conservar esta 
que me nasceu agora
prometo-lhe não a abandonar
e retorno à vida

para que confie em mim
deixo-lhe a minha mão esquerda
até eu regressar.


 




Quando é noite completa
a que se chama meia-noite
instala-se a ambiguidade diária
sem alternativa 

por um lado 
o silêncio ocupa todo o espaço 
e zune aos ouvidos
quase como um prazer

por outro lado 
prolonga-se o silêncio 
sem alternativa a não ser
o som artificial

é quando compreendo 
a inevitabilidade de existir
apenas uma voz ___ a minha
e isso tem uma designação.


 

 

Foto do autor do texto sobre uma obra de Yayoi Kusama


Ser errante
como aquele que erra
que escolhe o que não devia
que diz o que não podia
que não encontra o caminho que sabia

errar contra muros brancos
errar de janelas fechadas
errar com os sinos imóveis 
errar despido
e caminhando ___ caminhando

todos os erros são de ida
não há erros de regresso.




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Na minha infância nada era adulto
o meu sono era a permanência numa gruta 
escura com animais selvagens 
que corriam sobre mim como fazia 
o nosso gato que corria pela casa fora

na minha infância fui sonâmbulo
caminhei pelo corredor floresta da nossa casa
desembocando na claridade habitada 
pela minha mãe qual feiticeira 
manipulando sobre a nossa roupa 
uma magia fumegante no extremo de uma liana 
em que tropecei e me acordou 
para o pesadelo da realidade 
uma tolice que me envergonhou e terminou 
com uma corrida de novo para a cama

na minha infância nada era adulto
uma ave pousava no parapeito da minha imaginação 
e ali ficava imóvel pensando a possibilidade 
de um poema
até hoje.


 


Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Como gostaria de te reencontrar
árvore da minha infância 
companheira do mesmo espaço 
como gostaria de me abrigar 
sob os teus braços 
abraçar o teu tronco 
como quando te entregava 
as minhas lágrimas infantis
como gostaria de te reencontrar
sem o desencanto
de já não te lembrares de mim 
as árvores têm memória 
as árvores são quase eternas
as árvores não falam
as árvores apenas estremecem.


 


Foto do autor do texto



Suporto tudo

que o esquentador se desligue 
a meio do banho 
que tenha falta de dinheiro
num fevereiro bissexto 
que estejam esgotados os bilhetes 
para o único espectáculo de bonifrates
que não haja dinheiro
nas caixas multibanco da cidade
que chova sobre o estendal
quase seco
que sejam sem fim as greves 
nos transportes urbanos
que caia a república 
mesmo que com trovões 

suporto tudo ___ menos
a prisão inexplicável 
a uma ideia sem futuro. 


 


Foto do autor do texto



Foram todas inúteis as esperas
suspensas de um relógio 
a derramar o tempo sobre a ansiedade

vesti a minha alma com o melhor fato
calcei com sapatos novos a minha vontade
e ali fiquei à espera de Julho
o mês das cerejas
que trarias às mãos-cheias

era Dezembro ___ 
___ ali fiquei como uma estátua
quando me removeram 
deram o meu nome
ao beco onde vivia. 


 


Foto do autor do texto





Ia procurar-te
disseste

Eras bem vinda
respondi

Fez-se tarde
disseste

Mesmo sendo tarde
estou aqui
disse

O teu tempo
não é o meu tempo
respondeste

Pena ter-me perdido no tempo 
sem ti
confessei

São as leis do universo
confirmaste 

Podias ter evitado
a crueldade do tempo
sugeri

Ia procurar-te 
mas já é tarde
desligaste.




Foto de Daniel Filipe Rodrigues


A forma assimétrica do mundo
contém um paralelo
a passar sobre o meu corpo
estranha geografia
que me integra
e me exila
num mapa confuso.




Foto do autor do texto


Sentou-se com um livro na mão 
abriu-o
a televisão estava ligada
Wagner estava ali
um momento para o assalto nostálgico 
de que estava sempre a fugir
estar sozinho era aquilo
sempre o pensamento
de que estava sozinho
pouca importância tinham
os telefonemas dos amigos
tudo antigo
tudo superficial
difícil é ter alguém a quem dizer 
estou a ler e a ouvir Wagner. 






Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Craft diz
um homem precisa de uma mulher

Elga para não levantar uma sombra
ao que Craft disse 
põe a tocar um disco do agrado de Craft

Craft diz
uma forma de não dialogares
é Bach entre nós 
ou a falar com os dois

Elga senta-se no sofá comprido
com despreocupação ___ as suas pernas
visíveis até meio da coxa ___
___ são douradas

Craft diz
um homem precisa de amar uma mulher

Elga levanta-se e vai buscar um copo
que enche até meio com uma bebida
Craft nunca bebe
volta para o sofá e senta-se 
de novo na mesma posição e
finalmente fala
uma mulher não precisa de amar um homem

Craft diz
essa é a grande desconjunção ___
___ desde sempre ___ das paixões 

Elga toca a bebida com os lábios 
depois pergunta
desconjunção com que significado? 
Elga aparenta grande à vontade
e sabedoria no tema

Craft responde
sem tirar os olhos das pernas douradas
com o significado contrário de conjunção 

Elga diz
o amor não é o mesmo
para o homem ou para a mulher
a mulher é mãe e ama

Croft apercebe-se que a fala de Elga
tocou no lugar certo do tema
e diz 
o amor por um filho preenche na mulher
todo o espaço dedicado ao amor

Craft levantar-se e sem mais palavras sai
e pensa
envelhecerás e mais filhos não terás 
e pensa
isto será o início e o fim de um poema. 

_____

Elga morrerá em 2076 
sem memória há longos anos
abandonada num lar de terceira qualidade
pela sua única filha ausente
num país longínquo 
Craft morrerá uma semana depois
num acto de coragem
impedindo-se de respirar. 


 


Foto do autor do texto sobre uma obra (excerto) de Pablo Picasso



Ao largo há um navio imóvel 
decerto esquecido da sua rota
ou talvez esquecido da data da partida
naquele mar vejo muitos navios infelizes
este que vejo agora tem vida
de vez em quando dá à luz
umas fumarolas brancas pela chaminé 
talvez para chamar a atenção 
reparo agora que este navio é o mesmo
do livro de histórias da minha infância 
de onde se ausentou por ter estado
aos anos em abandono

afundo-o no livro de novo
apenas com o meu olhar.