Hoje falei outra vez com a Primavera 
ela disse-me
como eu gostaria de ficar a viver aqui
para sempre.






Fotos do autor do texto 


Foto do autor do texto



Encontrei a Primavera perto da minha casa
disse-me
que estava por aqui a passar férias até ao Verão.



Foto antiga da autoria de um pai



Descasco as cenouras as batatas as cebolas
ajudo a minha companheira a fazer a sopa
choro com a cebola
o chão a levantar-se para me tornar mais alto
o tempo a encantar a minha vida
e tudo isto me faz sentir na minha infância 
chego ao balcão da cozinha já sou adulto
o tempo a marcar a minha vida igual
peço-lhe
por favor faz-me sopa de letras.


 





A afinidade espiritual

é o mar chão 

uma brisa pela folhagem

e dormir num sonho

acompanhado. 





IA



Sobre um poema de José Gomes Ferreira 
Música de Fernando Lopes Graça 


Este é o canto que nos une
estas são as mãos da resistência 
esta é a voz da nossa força 
mesmo que muitos tenham já caído 
cantamos e cantamos e cantamos
à nossa janela aberta
continuando na busca da luz ideal
sem cansaço 
e vejo-te de bandeira ao alto
sem cansaço 
esta é a nossa jornada 
este é o canto que nos une
 
 


Não fiques para trás, ó companheiro
É de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro,
Segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao sol desta canção.

Aqueles que se percam no caminho,
Que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
E até mortos vão ao nosso lado.

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao sol desta canção.

 






Será então 
aquilo que me dizes
que eu devo aceitar
como verdade

sim eu sou a verdade
disseste

agora é o momento que nos deslumbra
ouço o ranger das folhas nas árvores 
isso é a verdade? 
perguntei

essa é a tua verdade
não a minha
disseste

celebrar uma tardia Primavera 
calar um desejo adiado
conter uma lágrima alegre
isso é a verdade? 
perguntei

isso não é a verdade
isso é a poesia
disseste

haverá verdade na poesia? 
haverá poesia na verdade? 
fico a meditar. 


 


Foto de autor desconhecido 



Dispo o Outono
quando chega a Primavera 
troco de palavras 
para dizer o mesmo
em vez de boca
digo lábios 
em vez de grito
digo queixa
em vez de lágrimas
digo pranto
em vez de melancolia
digo emoção 
em vez de solidão 
digo exílio 
em vez de luz
digo claridade 
em vez de nós 
digo eu

dispo a Primavera 
quando chega o Outono
em vez de delírio 
digo poesia. 


 


 

Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



Sei que os corações batem sózinhos e silenciosos
menos um que protesta e se agita para chamar a atenção 
constituindo-se numa ameaça para ele próprio 
o velho coração ___ gasto
neste cansaço de fazer tudo por si próprio 
sem consciência de que está confinado a um corpo
ou a um lugar como as árvores ___ pára para ouvir 

silêncio 

tudo à minha volta fica imóvel 
um coração bate do outro lado do mundo.


 


IA



É tudo tão rápido entre nós 
nem tenho tempo de percorrer o teu corpo todo 
nem tenho um momento para tomar o peso do teu seio 
é tão passageira a ansiedade que me provoca o teu desejo 

és tão vertiginosa entre o princípio e o fim 
é tão desatento o teu olhar que não tenho memória 
para te guardar com os olhos 
é tudo tão rápido entre nós 

e tudo acontece no lado insuficiente da noite 
sem palavras sem promessas sem perguntas
talvez porque o amor é um tema muito antigo 
e já desistimos de o compreender.


 


 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Foi assim ___ quase inesperado
o outro a mostrar-se como um desconhecido
o sangue a latejar no meu pescoço 
um peso nas pálpebras 
um clarão repentino dentro da cabeça 
de tão importante o momento
tudo o resto parecia menor
     o ocidente em armas
     o terramoto no oriente
     a pobreza por todo o lado 
     os hospitais na falência 
nada era mais importante 
que os bocados de mim dispersos
por tantos anos

num momento sem que saibamos porquê
um desgosto juvenil entristece-nos
como se fosse agora
tudo se passou entre mim e eu próprio.


 





As ondas 

as ondas

as ondas

batem fortes as marés 

no chão que encontram

o mar ruge como os leões. 








Da série Poemas da minha infância 


Malmequeres 

Desfolho malmequeres 
pela menina do segundo andar
tudo fica confuso
gosta de mim umas vezes
não gosta de mim outras vezes
a minha mãe é que não gosta 
que eu acabe com os malmequeres

     assim não há amor que resista! 
diz ela. 




 

Foto do autor do texto



Já fui criança no tempo em que ser criança 
não era ser um adulto pequeno

já andei à pendura em carros eléctricos 
no tempo em que escolhiamos o nosso percurso

já fiz a pé o caminho de casa para a escola
e depois para casa quando o mundo era pequeno

já soube gostar de mulheres com simplicidade
no tempo em que o amor demorava

já comi cerejas peras e maçãs 
no tempo em que elas de facto existiam

já fui dador de sangue no tempo
em que éramos pessoas

já sou do tempo em que o homem ainda matava
pela terra e já ambicionava a lua

já vivi no tempo
em que Deus era uma dúvida 

já me resta pouco tempo para ser de outro tempo 
o meu calendário parou. 


 



Foto do autor do texto 




Chegado aos confins do tempo
como é libertadora a insensatez
como é criativa a ambiguidade
como é jovial a incoerência 

estar contra a corrente
ser um inadaptado
estar insatisfeito
ainda ser contestatário 

sensato __ concreto __ coerente
é que fizeste um bolo de limão 
que eu vou desenformar
como se te despisse. 



 




Cada dia é um sítio grave
as ameaças são da cor da terra
o medo é onde se assentam os pés 
   
um poeta já não é nada 
estar vivo ou estar morto
são estados naturais e confusos 
 
um poeta já é substituível ___ então 
aconchega-se nos restos de ternura
e prepara-se para o Outono.