Hoje falei outra vez com a Primavera
ela disse-me
como eu gostaria de ficar a viver aqui
para sempre.
ela disse-me
como eu gostaria de ficar a viver aqui
para sempre.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
Descasco as cenouras as batatas as cebolasajudo a minha companheira a fazer a sopachoro com a cebolao chão a levantar-se para me tornar mais altoo tempo a encantar a minha vidae tudo isto me faz sentir na minha infânciachego ao balcão da cozinha já sou adultoo tempo a marcar a minha vida igualpeço-lhepor favor faz-me sopa de letras.
Este é o canto que nos uneestas são as mãos da resistênciaesta é a voz da nossa forçamesmo que muitos tenham já caídocantamos e cantamos e cantamosà nossa janela abertacontinuando na busca da luz idealsem cansaçoe vejo-te de bandeira ao altosem cansaçoesta é a nossa jornada
este é o canto que nos une
Não fiques para trás, ó companheiroÉ de aço esta fúria que nos leva.Pra não te perderes no nevoeiro,Segue os nossos corações na treva.Vozes ao alto!Vozes ao alto!Unidos como os dedos da mãoHavemos de chegar ao fim da estrada,Ao sol desta canção.Aqueles que se percam no caminho,Que importa! Chegarão no nosso brado.Porque nenhum de nós anda sozinho,E até mortos vão ao nosso lado.Vozes ao alto!Vozes ao alto!Unidos como os dedos da mãoHavemos de chegar ao fim da estrada,Ao sol desta canção.
Será entãoaquilo que me dizesque eu devo aceitarcomo verdadesim eu sou a verdadedissesteagora é o momento que nos deslumbraouço o ranger das folhas nas árvoresisso é a verdade?pergunteiessa é a tua verdadenão a minhadissestecelebrar uma tardia Primaveracalar um desejo adiadoconter uma lágrima alegreisso é a verdade?pergunteiisso não é a verdadeisso é a poesiadissestehaverá verdade na poesia?haverá poesia na verdade?fico a meditar.
Dispo o Outonoquando chega a Primaveratroco de palavraspara dizer o mesmoem vez de bocadigo lábiosem vez de gritodigo queixaem vez de lágrimasdigo prantoem vez de melancoliadigo emoçãoem vez de solidãodigo exílioem vez de luzdigo claridadeem vez de nósdigo eudispo a Primaveraquando chega o Outonoem vez de delíriodigo poesia.
Sei que os corações batem sózinhos e silenciososmenos um que protesta e se agita para chamar a atençãoconstituindo-se numa ameaça para ele próprioo velho coração ___ gastoneste cansaço de fazer tudo por si própriosem consciência de que está confinado a um corpoou a um lugar como as árvores ___ pára para ouvirsilênciotudo à minha volta fica imóvelum coração bate do outro lado do mundo.
É tudo tão rápido entre nósnem tenho tempo de percorrer o teu corpo todonem tenho um momento para tomar o peso do teu seioé tão passageira a ansiedade que me provoca o teu desejoés tão vertiginosa entre o princípio e o fimé tão desatento o teu olhar que não tenho memóriapara te guardar com os olhosé tudo tão rápido entre nóse tudo acontece no lado insuficiente da noitesem palavras sem promessas sem perguntastalvez porque o amor é um tema muito antigoe já desistimos de o compreender.
Foi assim ___ quase inesperadoo outro a mostrar-se como um desconhecidoo sangue a latejar no meu pescoçoum peso nas pálpebrasum clarão repentino dentro da cabeçade tão importante o momentotudo o resto parecia menoro ocidente em armaso terramoto no orientea pobreza por todo o ladoos hospitais na falêncianada era mais importanteque os bocados de mim dispersospor tantos anosnum momento sem que saibamos porquêum desgosto juvenil entristece-noscomo se fosse agoratudo se passou entre mim e eu próprio.
Já fui criança no tempo em que ser criançanão era ser um adulto pequenojá andei à pendura em carros eléctricosno tempo em que escolhiamos o nosso percursojá fiz a pé o caminho de casa para a escolae depois para casa quando o mundo era pequenojá soube gostar de mulheres com simplicidadeno tempo em que o amor demoravajá comi cerejas peras e maçãsno tempo em que elas de facto existiamjá fui dador de sangue no tempoem que éramos pessoasjá sou do tempo em que o homem ainda matavapela terra e já ambicionava a luajá vivi no tempoem que Deus era uma dúvidajá me resta pouco tempo para ser de outro tempoo meu calendário parou.
Chegado aos confins do tempocomo é libertadora a insensatezcomo é criativa a ambiguidadecomo é jovial a incoerênciaestar contra a correnteser um inadaptadoestar insatisfeitoainda ser contestatáriosensato __ concreto __ coerenteé que fizeste um bolo de limãoque eu vou desenformarcomo se te despisse.