IA
As almas são transparentes
dizem
quando a minha alma persegue a tua
e entram uma na outra
somos dois
com uma única silhueta luminosa.
Nunca confessei a ninguémquesou um pássaro umas vezesquesou um peixe outras vezessei voar tão alto que fico sem chãoouvou ao mar profundo à escuridão
à beira do abismo me inventono mar alteroso me inventonunca confessei a ninguémquesou gritosou ecodepois sou silêncionunca confessei a ninguémquetambém sou ausência.
Um homem e uma mulherestão sentados a uma mesasão pais e avóscom a sua missão cumpridacomem com a boca fechadajá esgotaram as palavraso seu silêncio é o silêncio da discórdiadurante o tempo do passadonão tiveram tempo para concordaragora discordam em tudoe o corpo também já não é diálogoo seu silêncio é o silêncio da discórdiaum homem e uma mulherestão sentados a uma mesade um restaurante popularnem têm olhos um para o outrofora do prato que divideme num ímpeto disfarçamo que determina o seu silêncioeles são iguais aos seus paisque lhes mostraram como sãoos órfãos de palavrasque se encontram em todos os lugarese nos restaurantes em silêncioaos fins de semanaum homem e uma mulherestão sentados a uma mesacolam os dedos às migalhassossegadas sobre a toalhae afogam o silêncio num prato de sopachegaram ao ponto de secar o seu nomeque só pronunciamno azedume dos seus desencontrosmolham o pão na angústia
e dão estalos de prazer com a língua
o homem e a mulherque estão sentados a uma mesade um restaurante penúmbreotemem a morte do outroporque isso será a prazoa sua própria mortequando esse pensamentolhes cai da cabeça para os olhosdão a mão ao outroé o máximo de ternurade que são capazesjá que as suas línguasnunca mais se encontrarão.
Era tão urgente o azula luz contra o abismoo assomo exaltado do vermelhocontra o grito sem corque desfigura a Infânciae anuncia o branco da mortalhamais cedo do que tardecairão lilases as lágrimas sobreuma ideiaum pensamentoum desejoera urgente o azul que nos salvasseum cogumelo de fumo branco e escuroé visível ao longe.
Tanto tempo depois
reconheço a estação de onde parti
recordo
a paisagem a correr pelas janelas
as árvores alaranjadas
o rio azul
sob uma névoa rosada
era Outono naquele tempo
ainda não me sentia soldado
mas eu já era um soldado
éramos uma mancha verde
em direcção a um lugar que já não existe
que nos disseram vermelho
levávamos na boca o medo do desconhecido
porque já tinham aprisionado a verdade
e nós não sabíamos
na verdade nunca me senti soldado
nem nos combates
voltei tarde
já não havia ninguém aqui
tantos anos depois reconheço
a estação onde cheguei
e não tenho ninguém à minha espera.
Há em mim um lado prontoa deixar de viverfaço à morte essa concessãoafinal eu não sabia nada sobre a vidaque ela nos adoece à traiçãosem dar sinais e nos engana sempreao ponto de por tanto a amarmosnão acreditarmos na sua traiçãoenquanto os outros vêem tudo em nóstenho em mim um lado prontoa deixar de ter vidahá um coraçãoa batera batera baterno fundo.
Quando eu era rapaz no tempoda inconsciência e dos cabelos revoltosgostava de me sentar à beira do rioque passava lá em baixo ao pé da nossa casacom os pés dentro de água lançavamiolos de pão acreditando que os peixesos viriam buscar ___ e vinhamouvia lá em cima os risos das minhas irmãscom o latido do Faísca brincandoe pensavaque bom era ser Verão e estar de fériashoje passei nesse lugar para me devolveraos sons e aos sentidosda minha infância harmoniosao rio ocupado e imperfeito já não é o mesmohomens dentro dele tentam caçar os peixessem lhes darem miolos de pão pacificamentemultidões banham-se aos gritosimpondo às águas os seus corpos dementesjá não ouço as vozes das minhas irmãse o Faísca desapareceu há muitos anosou o levaramou ele partiu desencantado com as rotinasregresso e faço caminho pela casa abandonadaentro no meu carro e faço o poemadepois parto para o fim do Verãopara o fim do Outonopara o fim do Invernopara o fim da Primavera.
Em caixas de cânforatrago bordados da Palestinaentrançados com linhas de sangueem panos das vestes inúteisdos que morreramsão bordados com motivosda dor antigaquase tradicional deHomensMulheresCriançasque não páram de bordar há décadasa história do desesperoem panos das vestes inúteisdos que morreramcomprem senhoresos bordados da Palestinaem caixas de cânforao stock é limitado!