Estou a olhar

 

É preciso que a árvore 
produza frutos
ficarei sentado
a vê-los crescer. 
Ficarei o tempo
que for preciso
e se entretanto
a morte chegar
façam soar a
Rádio Clássica de Espanha 
e deixem-nos ficar

sozinhos.



https://www.rtve.es/radio/radio-clasica/directo/





 Foto de Ana Luís Rodrigues



A minha loucura 

 

Tenho ataques de riso corriqueiros 

     nos momentos mais solenes, 

empurro piadas para o meio 

     de conversas sérias, 

tenho visões insólitas e insensatas 

     sobre assuntos graves, 

ocorrem-me frases poéticas e estranhas 

     no meio da confusão,  

tenho opiniões depreciativas sobre o fascínio 

     que alguns têm com os restaurantes

     com estrelas ridículas, 

rejeito a submissão aos estrangeirismos 

     que impõem pausas na nossa língua,

digo o que penso sobre 

     alguns artistas do musical português 

     e escritores que estão a empurrar o mundo, 

ah e sobre polícias também. 

Reparo nos dedos justiceiros 

apontando para a fronte 

e o murmúrio "louco!". 

A minha loucura prova que estou saudável.








As minhas Luas


A minha casa tem três janelas

em cada uma vejo uma Lua

e vejo a Terra ao longe

muito longe.




Técnica mista sobre papel 38x42 cm




Lua amarela na janela do jardim


O Verão na memória 

em que o melhor do dia

era a noite

e o melhor da noite

era a manhã ___ no mar. 

O calor da Lua amarela

que está agora

no meu jardim

evoca as noites de Verão 

em que a idade

ainda não era dorida.







As minhas Luas


A minha casa tem três janelas

em cada uma vejo uma Lua

e vejo a Terra ao longe

muito longe.




Técnica mista sobre papel 38x42 cm



Lua vermelha na janela do quarto


A vermelhidão 

do teu rosto ausente

o prazer adiado 

por falta de comparência. 

O vermelho tanto é paixão 

como perigo

guerra

fogo. 

Esta luz vermelha 

ilumina-me o umbigo

e torna o momento adiado

não mais que um riso.






As minhas Luas

A minha casa tem três janelas

em cada uma vejo uma Lua

e vejo a Terra ao longe

muito longe.




Técnica mista sobre papel 38x42 cm




Lua Azul na janela da cozinha


Na mesa

ninguém à frente nem ao lado.

Um prato de sopa

à esquerda um livro. 

Da colher à boca

um intervalo na leitura

as letras na boca

as letras na sopa

mais uma colher de luz

azul da Lua. 

Sacio o corpo e o espírito. 







 Foto do autor do texto




Reguem-me


Sou uma planta delicada 

incerta 

sem regas amiúde 

sem cuidados. 

Deixo crescer as minhas raízes 

que se afundam 

confusas 

sempre em terras desconhecidas. 

Abro-me para a vertigem do sol

mas não posso dar um passo. 

A confusão é que todos os lugares 

mudam de tal modo 

que deixam de existir e 

de tudo fica um deserto. 

Na verdade o que eu gostava

era de viver num vaso

para cantar à janela.







Depois dos remorsos demoro o meu olhar


Tenho em mim um recanto 

com dois palmos por dois palmos 

onde aconchego a tristeza 

onde penso lentamente. 

Há um terror que respira

naqueles que estão sozinhos 

mas vou atrevido ao passado 

numa vertigem feliz 

com os defuntos de hoje 

sem medo de já ser velho. 

Caço de repente os remorsos 

fecho-os nas mãos da mente 

e antes que chegue o medo 

subo ao muro do tempo 

e demoro o meu olhar 

num campo de girassóis. 




 


 Foto do autor do texto



Mergulho


Poderíamos estar a despertar numa praia dourada

mas adormecemos numa praia vulcânica. 

Quase me afoguei nessas lagoas de amor 

sem ondas mas profundas de mais 

para quem não sabe boiar no desconhecido. 

Sempre dei à costa com a boca cheia de limos

e com um punhado de cabelos na mão. 


Acordaste com os olhos brilhantes e serenos 

e lá mergulhei de novo numa lagoa desconhecida.







Uma cidade


A vida nesta cidade não é bem vida 

     é estarmos mortos 

     nos intervalos de quando estamos vivos. 

O que tem de belo esta cidade 

     é que não nascendo aqui o sol 

     aqui se vai demorando. 

A vida nesta cidade não é bem vida 

     é não parar de dizer aos outros 

     para se esquecerem de nós. 

O que tem de belo esta cidade 

     é a ausência de vozes 

     o desconhecimento do nosso nome. 

A vida nesta cidade não é bem vida 

     é ficar por detrás do nevoeiro 

     sem saber para onde ir. 

O que tem de belo esta cidade 

é que podes ir perdendo o teu poema pela rua

que ninguém repara nesse lixo das palavras. 




 

Foto de Daniel Filipe Rodrigues 




Pai

Porque voltas tão tarde, ao ponto 

de só cruzares o teu dia com a minha noite? 


Porque tens esse olhar lá do alto

para que eu corra a esconder-me não sei onde?


Deixa-me ver os pirilampos

que guardaste dentro do teu lenço. 


Ajuda-me a escrever este poema, 

é sobre ti, para o teu aniversário. 


Não morras agora que ainda é muito cedo

e eu não tenho outro pai. 


Ajuda-me! Passaram tantos anos

já estou mais velho do que tu. 


Pai, 

diz-me como é abraçar um pai. 


Também tenho direito

ao gorgulho da minha angústia.




 


 Foto do autor do texto



Cantemos


As ruas cheias de fumo 

as cabeças cheias de fumo 

a sala cheia de fumo 


Kurt ___ hello ___ Kurt! 

toca para nós! 

Lotte ___ hello ___ Lotte! 

canta para nós! 


eles não estão aqui 

conheço estes todos 

toca Surabaya Johnny 

cantaremos todos

canta os amores perdidos

o engano para onde caminhamos

nós não

os que estão enganados. 


Pára Kurt não toques

pára Lotte não cantes

parem todos

eles estão aí. 

Abram as portas 

o fumo sairá 

e nós com ele.