Carta para um amigo que desapareceu 


Sonhei que me tinhas telefonado

três anos depois

vê lá que curioso

três anos depois no mesmo dia 

em que desapareceste 

telefonaste assim sem mais nem menos

como se nada tivesse acontecido

entre nós para sempre

e ainda ontem tivéssemos falado

leste-me ao telefone

uma carta para um amigo que desapareceu 

que querias publicar no jornal da tua terra

e eu calado ouvia ___ como sempre

que escrevias uma carta a alguém 

e me a lias para eu dar a minha opinião 

senti-me contente ___ acredita 

e livre de um nó na minha vida

que não conseguiria desfazer nunca mais

nunca mais 


até acordar e perceber o sonho

desencantado senti ainda o nó no meu peito

quem sabe um dia destes

me seja entregue pelo correio

essa carta-abraço igual à minha

que não sei para onde enviar.



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Bernard Pivot

1935 - 2024




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O poema hoje publicado não se refere ao desaparecimento de Bernard Pivot. 


 

Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



Infância? 

Eu não tive uma infância dourada

nunca tive ouro

nem tive infância

apenas apareci por aqui.





Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Momentos


Como me agito à tua espera

como estremeço à tua vista

como sonho e canto entre o teu peito

como acho que tudo vale a pena

e faço promessas a mim próprio 

de tocar sempre ao de leve

no que me entregas

apenas com a polpa dos dedos

para que nunca te canses 

do peso do meu corpo

tomo-te e dou-me antes

que o mundo acabe

porque ele vai acabar de certeza

num clarão pelo nosso corpo todo 

e tudo o que dizemos nesses momentos 

é numa língua estranha que compreendemos


mas nós não nos importamos com o fim do mundo.



 

Foto do autor do texto



Festa na aldeia


Fim de semana com festa

qualquer que ela seja

tem sobre a mesa

cabrito assado com alecrim

e várias gargantas desinfectadas

prontas para a vozearia

à disputa com o som

dos matraquilhos na garajem

e os gritos e choros das crianças 


que cansaço 


no silêncio da partida

juras de não tornar a acontecer

mas num ano 

tudo volta a dar flor

e lágrimas pelos que faltam


que cansaço 


alguns desistiram com coragem

do carneiro assado com alecrim

alecrim

alecrim

aos molhos.







Foto do autor do texto



Eras tu


Imagino um poema

àquela mulher curvada

que leva pela mão uma criança 

tem luz na sua cabeça 

cintila no espelho à minha frente

e move-se


uma gota de sangue 

cai do meu queixo

no branco do lavatório 

o corte sublinhou

a mensagem da mulher

que leva pela mão uma criança 


da mulher que julguei presente

a voz ficou na casa

ouço-a hoje mais forte

com sangue no rosto vejo

aquela mulher curvada

levando-me pela mão.



 

Foto do autor do texto


Poema


Fiz ontem um poema da minha vida

entendendo a minha vida

até hoje vivida a palmo ___

___ para amanhã não sei se terei

mãos obedientes e lúcidas 


nesse poema da minha vida

se encontra a matéria da dor

o tempo do corpo

o tropeço no disfarce

e a mãe cega que vi 

em todas as mulheres

a quem pedia para me enlaçarem

pela cintura com as pernas

para eu não me ir embora


fui claro e limpo

na matéria que usei

no poema e na vida

baixo a cabeça numa posição estranha

estou apenas a pensar que

só morrerei quando tiver vontade. 




Gravura de Os Meninos Gordos - 1842



Os vizinhos


Todos os habitantes do meu prédio 

são gordos

homens e mulheres 

com grande largura de ombros e de ancas

de tal modo 

que quando sobem a escada

ninguém pode descer

e quando descem a escada

ninguém pode subir

as mulheres

por terem os seios lançados para a frente

têm de desviar-se da árvore-de-borracha

que a gorda vizinha do segundo andar

tem num vaso também gordo


todos os habitantes do meu prédio 

são gordos

razão por que não fazemos reuniões 

de condomínio nos pequenos espaços 

das nossas casas ___ telefonamos

uns aos outros e combinamos tudo

incomoda-me que

todos os habitantes do meu prédio 

sejam gordos porque eles se acham

saudáveis e quando me vêem 

à porta da minha casa à espera 

que passem para eu poder sair

olham fixamente para mim

que sou magro e perguntam

então, o vizinho está melhor? 

ao que eu respondo a desconversar

obrigado igualmente! 

por isso mesmo não sei

quando me perguntam

o vizinho está melhor? 

se se referem à minha magreza

ou ao meu estado mental


não posso mudar de casa

e vivo com receio de começar a engordar.