Foto do autor do texto



Já estive exilado várias vezes
dentro do meu próprio exílio 
de vez em quando largo-me por aí fora
num barco de papel que eu próprio faço 
mas não vou longe
passo de um lado para o outro
do lago do jardim da cidade
divirto as crianças mas irrito o guarda
quando vê cisnes assustados a esvoaçarem 
acabo com água pelo joelho
mas interrompo o exílio dentro do meu exílio 

nunca chegas para me salvar do ridículo 
ou talvez seja por isso que nunca chegas. 

 


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Fernando Guimarães


1928 - 2025


IA



O homem inventou-se a si próprio 
num elaborado impulso criador
inventou Adão 
num criativo desígnio 
inventou Eva

Adão caminha 
ignorando para onde
com a parra sobre os olhos
impedido de contemplar 
a beleza de Eva. 



Foto de Torre de Babel



Se disseres 

nasci! 


passam-te creme no corpo

e avisam-te do lugar que é o mundo


pegam-te ao colo

e dão-te uma bolacha


dão-te um nome 

e passas a ser um número


ensinam-te palavras

e dão-te uma rede para caçar borboletas 


ensinam-te a falar

mas certas falas em voz baixa 


dizem-te que és a infância 

mas perdes o direito ao colo


mostram-te um rio

para te distraírem do céu 


e tu dizes

nasci! ___ nasci! ___ nasci! 

então 

põem um réptil à tua porta

que deves alimentar


muitos anos depois

ao veres as fotos do passado

dizes

ninguém muda a minha natureza

e com força de vontade

deixas de respirar.



 



Já há um estranho cheiro a cera

no interior da minha casa

o meu projecto foi uma casa de barro

para que um dia esta terra

seja uma irrecuperável ruína 

para que depois de mim a casa

não sirva a mais ninguém 

e se desfaça sob a chuva diluviana

do meu último dia


já há um estranho cheiro a cera

as velas já estão acesas

alguém adiantou o destino erradamente 

fico em vigília fora do tempo

impaciente o lume lavra o projecto

porque já é o fim da história 

começa a chover sobre a minha casa

o que prova que sendo o fim do tempo

ainda não é tarde


renasço aqui __ ali ___ em qualquer lugar. 


 

 

Foto do autor do texto


Da minha estante caem
palavras e letras em cascata
caem as palavras erradas ou então 
é a escolha das palavras magníficas 
que quando tocam o chão se diluem
com um ligeiro fogacho
de todas sobra uma ou outra luminosa
desse mistério da fala
que copio com o meu lápis 
escondido entre um tronco de cedro
reparo então 
que se constroi uma poesia
com palavras ao acaso
sendo que o primeiro verso

O pão que se come nas trevas

abriu o meu ser sentimental
como um arado a lavrar a terra seca

apago a luz
e fico a ver o borbulhar luminoso
das palavras sem poesia.




IA



Uma casa 
com dia de um lado e noite do outro lado

o medo de no meu corpo
ser dia e noite ao mesmo tempo

um choro de criança do outro lado da luz
ou da sombra
e a dúvida no socorro

o gato que foge do dia para a noite
e da noite para o dia
o miado ao longe

um bater de asas animal 
pombo ou morcego
não há vestígio de penas

passos de mulher que sai do dia
ou entra na noite
ficou o perfume

uma grande nuvem que suspende o dia
ou se perde na noite

há-de haver um lugar 
talvez numa parte do mundo não descoberta
em que todas as coisas recomeçam 
em que no fim do dia recomeça a noite
e a seguir recomeça o dia
numa sucessão natural
que vem do início dos tempos

alguém dentro de mim ou eu próprio pergunta
por que tem de haver noite
a toldar a inocência dos pobres? 
nada sei sobre a certeza ___ a razão 
sei apenas que virá o dia da agonia
e que tudo acabará do lado da noite. 

 


 

Foto do autor do texto



Na despedida te digo
depois 
da desestima
do desprezo
do doesto

eu fui ficando
mas agora vou-me embora
deixo-te acompanhada
com os teus remorsos

não preciso de padre nem de flores. 




Foto do autor do texto 



Pode não significar nada que eu te diga 
meu amor! 
mas se eu preciso de amor e tenho de amar alguém 
peço licença para que sejas tu
não precisas de responder
não precisas de retribuir
só precisas de te deixar amar
e assim de mim para mim amarei
as tuas palavras graves já ditas que guardei
as tuas ideias sobre todas as coisas que foram
a tua ilusão inútil pela não sucessão da vida
e tu ficarás 
na tua solidão escondida e pesada que mereces

eu fico a gritar e a responder a mim próprio
se és corajoso finge!




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



É sempre um momento de felicidade
quando passeias o teu corpo pelas minhas mãos 
vejo que conheces todos os caminhos
e que talvez continues a gostar da paisagem
porque sempre voltas

a vida está cheia de absurdos impossíveis 
que à primeira vista nem parecem absurdos
quer dizer
existo para ti como paisagem e floresço 
subindo pelo teu perfume até à tua compreensão 
renovando as montanhas e os vales do meu corpo 
para que haja alguma novidade em mim. 



Foto do autor do texto 



Um desastre 
esta derrocada dentro de mim
por mais escorados 
que estivessem os meus sentimentos 
a última chuvada de lágrimas 
fez ruir toda a casa comum
e que pena
era aqui que eu vivia
paredes meias com a verdade
um desastre esta derrocada
agora sou 
um sem-abrigo sentimental. 



 



Que importância tem a poesia
o que ela é além de palavras? 

não mais do que 
a mastigação dos sentimentos 
ou
a ideia de que não estamos sós 
mas isso é quase como um delírio
quando acabamos o poema

diz-se da poesia que é tudo
espírito em vez de corpo
por mim
em vez de fazer versos
prefiro fazer um filho
depois talvez nasça um poema. 



 

Foto do autor do texto



Não me deixem só 
mesmo que eu peça para ficar sozinho

não me deixem no escuro
mesmo que eu diga que pouco me importa
que seja dia ou que seja noite

não me brutalizem com palavras
mesmo que eu diga que só ouço o que quero

não me fechem a janela
mesmo que eu diga que não me interessa 
ver as borboletas 

eu importo-me com tudo e comigo
mesmo quando encolho os ombros

não me tirem o papel e o lápis 
deixem-me escrever o poema. 


 


Foto do autor do texto



Deus é uma dúvida 
a dor é uma certeza 
se acredito me anulo
se nego serei náufrago
herdei a dor e a dúvida 
e perdi o nome.