O meu outro eu suicidou-se
Interrogo-me sobre o suicídio do meu outro eu
respondo-me de poeta para não poeta.
Que há muito não me chamo
que há muito não me escrevo
que não sei se vivo ou morro.
Pergunto-me ___ se ainda me lembro
que somos filhos da guerra
e que quando voltámos tínhamos
aquela nossa casa na aldeia
no largo com a igreja ao fundo.
Por que me suicidei no meu outro eu?
Tínhamos medo mas éramos felizes
nesse tempo ainda acreditávamos que nós próprios
éramos os nossos melhores apreciadores
acreditávamos que deixaríamos o nosso corpo
mas continuaríamos a viver
nos lugares e nas memórias dos outros
até nos assassinarmos um ao outro.
Porque esta minha vida
já estava a demorar uma eternidade
suicidei-me no meu outro eu.
Conformo-me mas condeno-me
à pena de caligrafar a palavra
perdão
um milhão de vezes até a minha morte.