Foto de Ana Luís Rodrigues



A melancolia


A melancolia é um assédio 

um chicote suave consentido

um pingo de água repetido 

um silêncio por cima de um rumor 

uns lábios gretados pelo frio. 

Às minhas recordações 

limpo-lhes o pó 

e deixo-as ficar como novas 

nas brechas que a tristeza abre 

com os seus dedos movediços

numa permuta entre a razão 

e o nosso delírio.







É tarde


Repara como os nossos corpos

ficaram menos belos. 

Dantes a nossa pele era lisa e fresca 

não tinha manchas escuras 

e estas rugas infindas 

que o tempo sabiamente marcou 

como tatuagens. 

E como ficámos parecidos 

as caras descaídas e sombrias 

com as expressões baças 

que em ti e em mim se assemelham

temos uma história no rosto 

as marcas do passado 

que ganhámos um com o outro. 

As nossas vozes outrora diferentes

ficaram semelhantes no tom de enfado

a tua menos doce 

a minha mais rouca e seca sem calor. 

Já não te afago porque não consigo 

apagar as tuas rugas com a minha mão. 

Os teus cabelos mais finos e sem cor 

parecem-se afinal com os que me restam 

depois dos vendavais da nossa vida. 

Há tanto tempo não adormecemos juntos. 


É tarde ___

___ tu já dormes 

e eu para aqui 

a matar o resto do tempo que se foi. 




 




É tarde


Repara nos nossos corpos

vê como ficaram belos. 

Dantes eram lisos ___ monótonos 

agora nasceram-nos desenhos 

pequenas manchas coloridas 

traços artísticos longos e curtos 

em esboços sábios que o tempo tatuou. 

E como ficámos parecidos 

tudo em ti se assemelha 

a tudo o que em mim parece 

sobretudo nos nossos rostos 

está lá a nossa história 

os vincos de outros tempos 

que ganhámos um com o outro. 

Só as nossas vozes diferentes

a tua cada vez mais doce 

e a minha ainda mais rouca 

sombria mas calorosa. 

Quando te afago 

trago as tuas rugas na minha mão. 

Os teus cabelos 

da cor de todas as cores 

compensam os que me faltam 

os que doei a alguns momentos ventosos


É tarde ___

___ tu já a dormires 

e eu para aqui 

a querer enganar o tempo. 




 




Aquela palavra era um grito

Acordei assustado nos meus sete anos,
uma rajada de metralhadora fez-me saltar da cama.
Descalço, corri para a abertura que tinha sido a porta da minha casa
quase destruída pelos bombardeamentos.
Corri por cima dos destroços que já eram novos caminhos
abertos pelos pés dos moradores.
Ao chegar à pequena encosta de onde se avistava a estrada
vi o corpo do meu pai. Achei que estava morto.
Senti as minhas pernas tremerem
e o dia pareceu incrivelmente mais claro de repente.
Deitado de borco deixava correr um fio de sangue que nascia debaixo dele
e ligava a uma poça enorme mais adiante.
Ainda vi ao longe o jeep com os soldados que o alvejaram,
gritavam e brandiam as armas ao alto.
Não tive coragem de descer e ir ter com ele.
A minha mãe e alguns vizinhos acorreram.
Viraram-no de costas,
na sua camisola branca o meu pai tinha pintado a vermelho
a palavra FOME.
Aquela pequena palavra era um grito
liberdade, dignidade, exclusão e… fome.
O meu pai tinha violado o recolher obrigatório.
Ontem à noite ouvi-o dizer:
-Amanhã alguma coisa vai mudar, não aguento mais!
Não aguentava mais a pobreza 
que só a ajuda internacional minorava
nem a violência dos bombardeamentos e das humilhações.


Passaram dez anos.
A recordação viva dessa manhã
era uma rajada de metralhadora
que todos os dias me assustava ao acordar.
Essa manhã e a fome que herdei
alimentaram um sonho que hoje vou realizar
no meio desta multidão.
Vesti a camisola que o meu pai pintou com a palavra FOME
e dentro de segundos, com as lágrimas nos olhos e tolhido de medo,
puxarei a cavilha desta granada que trago à cintura
e o dia parecerá incrivelmente mais claro de repente.



 




Mais não 


Vejo a tua mão enorme 

sinto a tua mão enorme 

fico com o desenho 

da tua mão enorme 

no meu corpo tão pequeno. 

Ficou o sinal

da tua mão enorme 

na minha memória 

já velha. 




 


 Foto do autor do texto




Dou-te um nome


És fria

silenciosa

imóvel. 

Encontro-te sempre

no mesmo sítio 

bela na forma

escultural

colorida

mas fria

silenciosa

imóvel. 

Vou dar-te um nome

Pedra.








O meu outro eu suicidou-se


Interrogo-me sobre o suicídio do meu outro eu

respondo-me de poeta para não poeta. 

Que há muito não me chamo 

que há muito não me escrevo 

que não sei se vivo ou morro. 

Pergunto-me ___ se ainda me lembro 

que somos filhos da guerra 

e que quando voltámos tínhamos 

aquela nossa casa na aldeia 

no largo com a igreja ao fundo. 

Por que me suicidei no meu outro eu? 

Tínhamos medo mas éramos felizes

nesse tempo ainda acreditávamos que nós próprios

éramos os nossos melhores apreciadores 

acreditávamos que deixaríamos o nosso corpo 

mas continuaríamos a viver 

nos lugares e nas memórias dos outros 

até nos assassinarmos um ao outro. 

Porque esta minha vida 

já estava a demorar uma eternidade

suicidei-me no meu outro eu. 

Conformo-me mas condeno-me

à pena de caligrafar a palavra

perdão 

um milhão de vezes até a minha morte.





 Foto do autor do texto



A semente do nada


O massacre interior 

que alguns sofrem

inundados de azedume

que transborda 

nos gestos 

nos olhares

finalmente nas palavras. 

Uma luta 

entre o mau convívio 

e o deficiente acasalamento

que se descreve nas frases 

rasteiras 

espinhosas 

incendiárias. 

Falas vencidas por nada 

com gestos de chuva 

do lado de fora da janela 

que deixam uma paisagem 

incompreensível 

e prometem tempestade.





 Foto do autor do texto



O nada somos nós 


O que sabemos de nós próprios ___

___ é nada

e nada parece-nos um cântico 

como o dia do nosso nascimento 

em que ainda éramos nada. 

A luz brutal a entrar 

pelos habituados pulmões à escuridão 

o mundo a entrar 

pelos olhos ainda vidrados 

quando tudo nos parecia ainda obscuro

e as vozes eram ecos sem origem. 

Afinal ser velho é confortável ___

___ continuamos ___

___ sem saber nada de nós próprios 

mas podemos ficar sentados 

a comer línguas de gato.





Foto do autor do texto



A música era a medida da nossa vida


Conservei a cadeira onde te sentavas 

a ouvires a prática dos meus dedos

a que chamavas bichos-de-conta, 

sobre as teclas do teu piano. 

Ondulavas o teu corpo em sintonia 

com as mãos de onde nascia a música. 

O passado tem sessenta anos 

antes disso nada tinha existido 

a música era a medida da nossa vida. 

Dizíamos 

"antes ou depois daquele concerto em… " 

e mediamos o tempo, o nosso tempo 

em notas musicais e sorrisos. 


Está ali a tua cadeira 

no mesmo sítio de sempre junto à janela 

o sol a iluminar a tua ausência 

na música, agora, só há notas supérfluas. 







 Hoje dou-vos estas frases

façam com elas o que quiserem.










Uns ou outros


Do brutal ao delicado 

do bondoso ao traiçoeiro 

do verdadeiro ao calculista 

do amigável ao avarento 

do confiante ao desleal 

ignorantes da sua condição 

alisam igualmente as suas rugas 

praticam o amor que lhes permitem 

acordam estremunhados a meio da noite 

têm nomes iguais para os seus filhos 

elogiam no seu choro os que perderam 

e tanto importa que sejam uns 

ou sejam outros

suicidam-se dia-a-dia ___ devagar.





 Foto de Ana Luís Rodrigues



Como se o amor fosse 


Pois eu acho que ninguém deve ficar

sentado a dizer 

               Eu amo-te e pronto 

como se a olhar para um bolo a dizer 

               Eu como-te e pronto 

como se a vida ditasse 

               Estás vivo, vive e pronto. 

Como se o amor fosse um menú 

pronto a servir 

e o deixássemos arrefecer primeiro 

e corromper-se depois. 

Mantenho pendurada no meu quarto 

a fita do teu cabelo para me recordar

que na minha casa houve uma mulher.