Por cansaço inútil
deixei de encorajar as ideiasdeixei de usar as palavrasdepois deixei de viver com o corpoainda não percebise alguém desistiu de mimou se alguém me matoudeixando-me vivo.
A verdade não é o que tu dizes é o que tu pensas mas é o que tu dizes que te define perante os outros
(continuação)
as religiões se extinguirão aos poucos na directa medidaem que o Amor se desenvolva e preencha o nosso espíritodelas ficará a arte nas suas formas plástica e musicalo sangue da beleza que fará viveros tristese os solitáriosum dia o homem e a mulher inventarão o Amorcomo base da comunicação universale entre eles inventarão os seus sucessorescomo um acto de Amor.
(continuação)
com a invenção desse Amor todas as formas de agressãose tornarão reprováveis e com issoas fábricas de máquinas para matarserão reconvertidas para o fabrico de bensque criem conforto à vida das pessoaso diálogo entre mães e pais e entre estes e os seus filhosserá sempre um acto de Amor e da fruição das ideiasos governantes do mundo conviverãocomo uma grande família em que todos ajudarão todosa viver ___ ao invés de uns viverem da pobreza dos outros
(continua)
Um diao homem e a mulher como seres humanosque vislumbram a possibilidade de se aperfeiçoaremcomo seres inteligentes inventarão um novo sentimentoa que darão o nome de Amornuma forma superior desenvolvida e inquebrantávele essa será uma das maiores empresas da humanidadeque trará ao mundo benefícios incalculáveiscom esse invento o ser humano tomará esseAmor Superior como fundamento de todos os seus actosserá um bem gratuito à disposição de todos sem restrição dequantidadeformaou lugar
(continua)
Ouvi dizer que a partir de agoravamos todos ter apenas um nometeremos de escolher umdos que ainda temose os outros serão apagadosdaqui para a frente seremos gruposquando chamarem um nomeiremos todos os iguaiseles não sabemmas assim seremos mais fortesnão esqueçamos nomes que vamos perderainda iremos recuperá-los.
Numa prisão uma mulher bordaum bibe de criança que ela própria costurouescreve em ponto cruz a palavrasaudadeem fina e azul linha com que escreveo tempo que lhe faltacada ponto é um sorriso do seu filhocada dia é um anoo tempo longo vai tornar o colo inútila mulher embala sem corpo essa saudade.
Acontece por vezes quando a memórianos trás uma palavrao nome do amigo que já não estáuma referência triste sobre outra coisae um finíssimo raio de luzilumina um lugar em nós num valeou numa montanha do nosso mapaessa luz que nem sempre existiumas durante anos iluminou tudovencendo todas as sombrassem que déssemos por issoessa finíssima luz era o brilho da felicidade
naquele tempo que depois
com a sua escancarada boca
devorouhora a horaano a anoo que tinha para devoraraté que um dia esse finíssimo raio de luzilumina uma pedra incomodaque se movimenta e soa como um ecocomo um ser que trazemos dentro de nósnum lugar recôndito do nosso mapaou como uma areia que se contémnuma ampulheta que escorrepara um lado ou para o outroconforme nos erguemos ou nos deitamospassando rapidamente na sua lentidãoos outros dormem ou acordamcom as suas pedras e as suas areiasem vez de um raio luminosoe encontramo-nos e estremecemoscom a nossa imagemnuma praça qualquer do mundoum lugar onde nunca estivemos juntosmas que a minha vontade me faz acreditarnum quadrado de terra como uma praça maioronde estarei de facto rodeado dos espectrosdos quais serei um ou talvez mais do que umum finíssimo raio de luzescreve no chão o meu nomee imagino agora que estás ao meu lado.
Um homem velho em silêncioestá sentado à porta da sua casacontempla o céu e o campoo lugar de toda a sua vidaárvores ao longearbustos mais pertoe muito matouma mulher nova chega e perguntapai o que está a fazer tão paradonão se quer dedicar a nadaler o jornaltomar um chá?o pai respondenão filhaestou a consertar os meus olhos!
Pediste-me para te deixar viver um tempono meu imaginárioe disseste-me isso enquanto caminhávamosà volta do jardim curto do teu bairrosentávamo-nos de vez em quandopara descansar as nossas falase permitias que tocasse os teus seiosao de leve porque ainda era diae tínhamos o futuro desse diatodo inteiro para nóse outra vezà volta do jardim curto do teu bairroelogiavas a leveza dos meus passose o tom do meu silêncioassim como um incenso para que te deixasseviver um tempo no meu imaginárioe eu disse-te que os teus seiosjá estavam vivos no meu imaginárioe que todos os dias dormia contigono meu corpo como se fosse o teue te homenageava solitário antes de adormecere de novosentados fizeste questãode tomar a minha cabeça no teu ombroe disseste que bebias o perfume do meu cabelopara que eu vivesse no teu imaginárioda mesma forma como tu gostariasde viver um tempo no meu imagináriono fim do diaà volta do jardim curto do teu bairrosentados toquei os teus seios menos ao de leveporque já anoiteciae combinámos viver no imaginário um do outropor uns tempos enquanto vivêssemosbeijámo-nos nos lábios intimamenteporque já era noitetudo foi simples depois entre nósnão mais voltámos a ver-nos.
Os poetas deveriam ter o direito de morreroutra vez quando quisessemsem violênciaos poetas deveriam ter o direito de nascerde novo quando quisessemsem violênciaos poetas seriam assim como uma florque se abre ao sol por vontade própriaque o segue e que se fechaquando já não vale a penaos poetas deveriam saber tocar pianosem nunca terem aprendidoe seriam capazes de transportaras sete oitavas na sua cabeçaque tocariam em simultâneo coma composição das palavrasos poetas deveriam subir ao céudepois de completado um poema.
Era uma manhã de solno parapeito da janela da sala de auladuas borboletas combinaram distrair-meum toque de ponteiro na cabeçafaz-me voltar ao estudo da Tabuada Ratinhomuitos e muitos livros depoisenquanto faço as palavras cruzadasdos anos que foram e dos que virãoas mesmas borboletas me distraempara eu me lembrar que estou vivo.
Risco a giz sobre a mesa de madeiraum quadrado brancodesenho uma casa confinadade tecto desigualsempre quis contrariar a simetriaencho de outono a superfíciesobre o silêncio da casaavalio todo o espaço em voltade traço em traço desconstruo a formasempre me tentou ir contra o desconhecidoconcluo que não tenho mais nada a dizere que não basta ter uma casanão satisfeito com o resultadoalimento o fogo da lareiraisto também é o exílio.