Desenho de Matias Rodrigues Kassaye



É curta a longa vida
na verdade nunca chega o tempo
para nos redimirmos
e começar tudo de novo 

não aquele encontro
e a sua repetição 
não aquela casa
sem projecto de vida
não a fecundação 
e o arrependimento
não o lume ateado
e a sua extinção 
não o abandono de alguém 
e a retoma de alguém 
não a partida
e nunca a chegada
não uma sinfonia
e depois o silêncio 

é curta a longa vida
há uma certa bravura em enfrentar
aquilo a que chamam destino.


 


Foto do autor do texto



Vejo com quantas lágrimas 
pões o pão na mesa
e como é ruim o caldo quente
com a gordura da emoção
 
pousa-te no ombro uma ave
e aconchega-se no íntimo 
do teu corpo ___ mãe 
ficas serena e todos assistimos

à tua sobrevivência.




Foto de Daniel Filipe Rodrigues



Eu estava totalmente morto 
quando me encontraste
ainda te ouvi dizer o meu nome 
no meio dos soluços 
o frio que ainda sinto 
entrou-me pelas mãos 
assim que deixei a chave de casa 
debaixo do vaso à entrada

fiquei à tua espera
deita-te sobre mim ___ agora
e acalenta-me o corpo

assim sobreviverei.




IA



Um homem chega a casa e senta-se no sofá 
sobre a almofada que ainda não está rota
a mulher vem da cozinha
como se já trouxesse fogo no cabelo
o homem sente uma estranha sensação de liberdade
e diz 
     fui despedido
a mulher não fala durante uns segundos
depois diz
     vem comer fiz sopa de ossos

o homem levanta-se sem expressão 
ao longe as bombas desarrumam a urbe
batem à porta ___ a mulher vai abrir
dois militares de camuflado castanho
trazem algemado o filho do casal que levarão 
depois de ele comprovar a sua identidade 
a mãe não encontra palavras e chora
como se já tivesse perdido o filho 
dentro de um camuflado castanho
o pai resiste e disfarça o medo 
tudo como se a cidade já estivesse morta
de repente a casa torna-se
o espectro do mundo no clarão de uma bomba

no dia seguinte o povo lamenta o acontecimento 
que vê no título do jornal da terra
     Um drone inimigo mata mais uma família feliz.


 




Eu vi um corvo negro pousar 
numa asa da Vitória de Samotrácia

o guarda gritou para o grupo de japoneses

é proibido fotografar! 



Foto de Ana Luís Rodrigues



E a chuva que não pára 
já me dói a terra no meu corpo
perco a esperança de crescer
ou será assim que cresço 
oferecendo o corpo à intempérie 
expondo-o à parte cruel da natureza 
oferecendo a carne à natureza 
que do sofrimento 
se faça a justiça do tempo 

e assim será 
ou me perco ou me faço santo.


 





Tomar na nossa boca 

a boca de quem se ama

é como respirar 

a alma do outro

para sobreviver. 





Foto do autor do texto numa noite de luar


É de noite que te persigo
na ideia de te encontrar
e acabar contigo de qualquer maneira

quando te sinto próximo 
armo-me com toda a minha coragem 
e escrevo

porque escrever
é comer a vida ao contrário 
e é assim que te mato. 


 



Foto do autor do texto



Perdi-te de vista
a tua casa já não tem a mesma porta
a tua casa tem menos janelas
já não me encosto à ombreira a fumar
enquanto esperava
já não bato com os nós dos dedos no vidro 
para brincar com o teu gato
enquanto esperava
já não colecciono palavras
que metia entre as flores para ti
perdi-te de vista
a tua casa já não é a mesma
já nem sei bem se a tua rua ainda é a mesma
já não sei se o meu nome é o mesmo
que te dei quando casámos

perdi-te de vista
e agora?



 


 


IA




Os dedos determinados
como se tivessem olhos
bailam nota a nota na sinfonia
da agiotagem bancária. 







É domingo na minha vida
fico a boiar entre duas ondas
há uma brisa constante
sobre o papel onde escrevo

finalmente tenho um domingo
que vai durar os dias todos.




Foto de Bartolomeu Rodrigues 



Tenho uma noite
a descer sobre as pálpebras 

tomo de Bukowski a desvergonha
e antes do fechar dos olhos
confesso-te o meu desejo 
tudo numa carta 
com palavras ___ no limite do decoro
___ que deixarei 
sobre o móvel da entrada 
quando partir

por agora aqueço os pés 
no calor do teu gato. 


 

 

Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



O discernimento deixou de ser importante 
a elevação espiritual é hoje 
apenas o lugar de onde nos empurram
para a abjecção. 


 


Foto do autor do texto


O amor é um cansaço tão grande
como subir a um décimo andar a pé 
três vezes por dia
e descer outras tantas
o amor é um cansaço tão grande 
já que também não se descansa de noite. 





Foto do autor do texto tomada do documentário VIDA SELVAGEM



Não tenho ilusões 
não tenho tempo para novas flores
o treino da vida torna-nos hábeis 
aprendi
a respirar com uma narina de cada vez
a pulsar o coração com partes alternadas
a que a mão esquerda ignore o que a direita faz
a que ouça com um ouvido o que o outro esquece

a todos pareço já imperfeito
mas é assim
neste que eu sou
há um outro que eu sou. 


 


Largo os pés cada manhã 
nas lajes que cobrem a terra
dou de comer ao cão da noite
entre café e pão de ontem
acerto as pálpebras pelos toques
do sino do culto da aldeia
reparto o meu oxigénio com um cigarro 
sento sobre a minha ferida 
mais um dia que começa 

é linda a velhice
tudo ganha uma significação única 
como se tudo fosse irrepetível 

é rápido como o dia desce
na sua lentidão.
Foto do autor do texto 


Foto do autor do texto



A semente humana
em busca do céu 
germina num oceano branco
e respira. 







Sou um poeta em dificuldades 
já não encontro as palavras 
já não encontro as ideias 
que vêm escritas nas palavras 

acabou a música e o sol baixou de mais 
os rumores dos outros acordam-me 
deste esgotamento criativo

hoje foi o primeiro dia depois do último 
acabou o dia acabou a poesia 
vou pensar no que farei ao que ficou
no teu lugar ficará uma flor. 


 


Foto de Bartolomeu Rodrigues (fracção)



Concebi um pássaro 
com as penas do meu coração 
escrevi uma aventura
com as letras dos nossos nomes
construi uma casa
com o papel das tuas cartas

cansado de tanta poesia ___ 
___ adormeci
morreu a madrugada
enquanto eu dormia.


 





Escrevo nas margens da folha
que deixo em branco
onde desenho uma casa
para te acolher

Olho para o céu e digo
     em que lugar do céu te encontras
     que tenho precisado tanto de ti? 


 


Foto do autor do texto 


Nesta marcha te sigo e te alcanço 
com a liberdade de caminhar sem fim
não sendo de lugar nenhum
caminho mil passos
sobre mil passos
e nesta marcha te sigo e te alcanço 
até ser de algum lugar
e marchar de braço dado contigo. 







Morrerei num comboio
farei uma viagem longa
e deixar-me-ei morrer 
junto a desconhecidos
não quero ser reconhecido ___ velho

os meus encontrarão 
na gaveta da minha mesa de trabalho 
a minha face em novo num retrato
e mil e quinhentos poemas

estarei ausente
durante muitos anos
quando eu regressar
já os meus não existirão. 


 



IA


Um homem está deitado na sua cama branca
o homem sente-se um ponto no meio do universo
a sua cama é uma planície encerrada
numa cadeia de montanhas de onde se sai
por uma porta que está agora encostada
lá fora dentro de casa há vozes 
de mulher 
e de criança 
como fumos roçando as paredes
a janela do seu quarto poderia ser
a janela de um comboio por onde veria passar
céu 
aves
campos
montes
árvores 
rios
por detrás das cortinas fica o mundo dos outros
o homem deitado na sua cama branca
e emparedado no seu mundo
pensa
o que fará com tudo o que ficou 
sobretudo com o Mustang que encontrou na garagem.